Saturday, October 16, 2010

O "fenômeno religioso" no processo eleitoral de 2010.


Bruno Braga.

 
O segundo turno da disputa presidencial no Brasil tem sido fortemente carregado por uma atmosfera religiosa, destaca a imprensa nacional. Ocorre que, é um engano pensar que a fé, a crença, impregna a política apenas na segunda etapa do pleito. Na primeira fase foram muitos os candidatos que se elegeram para ocupar as câmaras estaduais, a câmara federal, e o senado, valendo-se de discursos religiosos: as crenças, os ritos e as Igrejas, foram utilizados para convencer o eleitor, ou o fiel, a confiarem-lhes um mandato – na esfera do poder executivo federal passou-se o mesmo; contudo, a candidata representante do "fator religioso" não venceu a corrida eleitoral. 

Marina Silva, do Partido Verde, expressou claramente o poder da religião no primeiro turno das eleições. Logo no lançamento de sua candidatura o discurso de um teólogo: Leonardo Boff, que defende um tipo peculiar de Ecologia [http://www.leonardoboff.com/site/lboff.htm], que envolve não apenas a questão ambiental, mas também, uma ecologia social, uma mental, e a integral, interligadas, obviamente, na unidade divina. Idéias que transparecem no discurso da candidata Marina Silva: nas propostas ambientais para um desenvolvimento sustentável; no modelo de governo, fundado na "conciliação", no qual as pessoas estariam unidas, todas, independentemente da classe e dos interesses, de "mãos dadas" para o "bem" do Brasil. Além do discurso, Marina se apresenta como uma "entidade espiritual" – veste-se com trajes que remetem às suas raízes no estado do Acre, adornados com xales pomposos e rústicos; esforça-se para manter uma expressão facial serena, tranqüila – Marina parece uma divindade indígena, um pouco "sofisticada", saída diretamente da floresta. Mas, em vez da ritual indígena, do "paganismo", Marina pertence à "Assembléia de Deus", Igreja evangélica que lhe concedeu, através de seus fiéis, um bom número de votos. Não suficientes, é verdade, para conduzirem a sua predileta ao segundo turno das eleições, mas fundamentais para fortalecerem a imagem da candidata. Outra porcentagem dos votos recebidos por Marina Silva está associada justamente à sua imagem "sacro-santa", que induz o eleitor a pressupor, nela, a moral, a ética, que tanto faltam à reputação pública do político em geral. E a última parcela do eleitorado de Marina é a dos que votaram por "protesto", escolhendo alguém diferente dos dois pólos partidários principais, PT-PSDB – porém, um protesto fundado na imagem da candidata e sua suposta moralidade.

O "fenômeno Marina" na reta final do primeiro turno foi fundamentalmente explicado pelo voto em uma "opção diferente" – o elemento "religioso", no entanto, que tanto contribuiu para a sua escalada, foi desprezado, uma vez que esteve "velado". Agora, no segundo turno das eleições, quando a religião é trazida a primeiro plano, verifica-se que ela esteve sempre presente. Permanece para robustecer a imagem de Marina Silva, cortejada pelos dois candidatos que permanecem na disputa, e é perpetuada no conteúdo dos debates entre os dois candidatos que disputam o segundo turno.

José Serra afirma, em tom de "acusação", que Dilma Rousseff, se eleita, irá legalizar o aborto – uma heresia sem perdão para os fiéis. A esposa do candidato participa da campanha, diz que Dilma é a favor de "matar criancinhas" [http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/monica-serra-dilma-e-a-favor-de-matar-criancinhas]. Em homilias e sermões, padres e pastores também "pregam". O debate passa a ser, não mais político, mas "teológico". Sob pressão, e temendo perder os votos da imensa comunidade religiosa, os candidatos julgam necessário afirmar suas crenças: uma aparece em foto, coberta por com um véu, sendo abençoada pelo o Papa [http://blog.missadesempre.com/2008/11/dona-marisa-e-dilma-rousseff-usando-vu.html]; o outro anda acompanhado, freqüentemente, de alguém que, além de recém eleito governador do maior Estado do Brasil, apresenta fortes evidências de pertencer à Opus Dei [http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,,EPT1107598-1664,00.html].

Dilma, foco dos "ataques", quer dizer, das "acusações", é chamada a afirmar, provar, publicamente sua fé, declarar abertamente suas crenças. José Serra exige, no primeiro debate televisionado do segundo turno, que Dilma afirme claramente a existência de Deus [http://videos.band.com.br/] – algo que seu padrinho político negou, e por isso teve maculada sua imagem pública. Dilma ganha, como testemunha de defesa um religioso, Frei Betto – amigos de infância, e companheiros, embora em alojamentos distintos, de cárcere, assegura o frei: Dilma é "pessoa de fé cristã", e não contrária aos "princípios evangélicos" [http://www.revistaforum.com.br/blog/2010/10/10/frei-betto-dilma-e-a-fe-crista/].

Esta breve, e precária, reconstrução do cenário da disputa pela cadeira presidencial pretende apontar a força da religião neste momento de decisão política. Contudo, não sob motivação carismática, e sim em tom de denúncia: o perigo de fazer das doutrinas de fé a autoridade suprema para decidir temas relevantes para a sociedade em geral – temas considerados "polêmicos", como o "aborto", a "união homossexual", e, inclusive, a pesquisas e utilização de células-tronco em tratamentos médicos. Compromissos têm sido firmados através de declarações públicas, "carta de intenções" - acordos estabelecidos apenas com autoridades religiosas sobre estas e outras questões. Medidas unilaterais que desprezam não só o bem-estar, a saúde, e a vida, das pessoas diretamente envolvidas com as questões "polêmicas", mas também ignoram o conhecimento científico. Este poder deve ser dado à religião? São, de fato, as autoridades religiosas, detentoras da autêntica moral, da ética, e também do conhecimento? Aliás, "crer em Deus" é pré-requisito para ser presidente do Brasil? A religião chancela definitivamente a reputação do indivíduo? O mal é cometido não só por partidos políticos, ou empunhando-se a bandeira da nação, mas também em nome de Deus. O velho dito espanhol, utilizado como metáfora religiosa, é um alerta pertinente neste momento, para evitar terríveis conseqüências futuras: "Detras de la cruz está el Diablo" (apud SCHOPENHAUER, 2000, PPII, p. 360).

4 comments:

Jefferson G said...

Inicialmente quero lhe parabenizar pelo texto.

Por incrível que pareça não me vejo surpreendido pelo tom "religioso" que a campanha eleitoral esboça no momento,desde o período pré-colonial a religião ja demonstrava seu poder nos aspectos politico,social e cultural de nosso povo.O tom de "Satanização" a membros da ala esquerda também sempre existiu por aqui, aqueles que não expressam de forma direta,evidente sua fé foram taxados de "Terroristas,Comunistas Ateístas".Frei Betto,Leonardo Boff não representam a vertente "conservadora" da Igreja defendem uma visão bluralizada de Fé,aquela que se apresenta no íntimo de cada um.Seria muita inocência de nossa parte acreditar que esse "fenomeno" "fé" venha se apresentar somente nessa atual eleição, a quem diga que as sucessivas derrotas que lula sofreu nas eleições anteriores se deve a questões religiosas, já que associavam sua figura a um "Comunista Ateu","Comedor de criancinhas".No Brasil religiosidade sempre foi atestado de bondade. O Fato é que eles fingem ser Religiosos, e nós figimos protestar votando em palhaços, ex jogadores de futebol e políticos fichas sujas. Viva a "Democracia".

Bruno Braga said...

Fala Jeffs!

Seu comentário é muito bem vindo.

O texto, como indica o próprio título, é um “recorte”, quer dizer, concentra-se no processo eleitoral de 2010. Óbvio, se ampliarmos o espectro e considerarmos o passado, reconheceremos a força da religião não apenas nas questões de poder, mas também nos costumes, e na cultura brasileira, como bem mencionou. Mas, perceba o espanto com o fator religioso, neste momento, através de um exemplo de seu comentário. Não soa anacrônico, ou até cômico, dizer que o Lula não deveria ser eleito hoje porque é um “ateu comedor de criancinhas”? Pois é. Por que, então, ainda se julga sob os mesmos critérios de ontem? As escolhas são feitas utilizando-se as mesmas categorias: o candidato, ou candidata, que atende ao modelo “sacro-santo” – do mesmo modo a análise dos chamados temas polêmicos, o “aborto” é como a chacina ordenada por Herodes, e a união homossexual o ressurgimento de “Sodoma e Gomorra”. Talvez porque o “fator religioso” estivesse apenas “velado”, “enrustido”, por outros fatores, social e cultural – sobre os quais caberia uma enorme pesquisa e dissertação – e que agora retorna de maneira explícita.

Sobre Frei Betto, Leonardo Boff, este tipo de “fé íntima” soa no mínimo estranha, pois, em última instância um defende o Socialismo, e o outro um tipo de “Ecologia Integral” – quer dizer, a intimidade é respeitada na medida em que é adequada a uma instância superior que dá unidade a todos. É preciso, no entanto, suspeitar, pelo menos, deste “comando abstrato”. Agora, sobre perseguições a membros da esquerda, outro cuidado, para que eles não se transformem em “novos crucificados”.

Enfim, não sei se foi sua intenção, mas o último comentário: a “felicitação da Democracia” pareceu um pouco irônico. Mas, independente de todas as atribulações do processo eleitoral, ainda bem que ainda é possível “escolher” – seja entre palhaços, ex-jogadores de futebol – e então arcar com a responsabilidade pelas opções.

É isso.

Abraço.

Bruno Braga.

Anonymous said...

Meu amigo, seu artigo é brilhante, desvela a carapuça de alguns, mas infelizmente os fatores culturais e religiosos estão impregnados por uma Fé irracional farisáica, o que torna uma tarefa muito difícil esclarecer a massa dominada e alienada de valores que não deviam ser o foco dos pleitos eleitorais. Um abraço do amigo, Zé.

Bruno Braga said...

Zé, obrigado pelo seu comentário.
No entanto, para evitar qualquer mal-entendido, não tenho nenhuma proposta pedagógica para as “massas”, nenhum programa educacional. Apenas tento - de forma bem precária, e exposto a equívocos constrangedores - compreender um pouco do que se passa neste mundo complexo e miserável.

Grande abraço.
Bruno Braga.

Belo Horizonte, 20 de Outubro de 2010.