Tuesday, October 26, 2010

Um teólogo militante sob suspeita.

Bruno Braga.



Em um momento decisivo para o país, no qual serão firmados, ou reiterados, compromissos políticos, é oportuno analisar idéias e propostas; sobretudo quando elas deixam a esfera intelectual para balizar um plano de governo. A julgar por suas aparições e discursos em palanques de candidatos, quer dizer, "candidatas", este tem sido o itinerário das concepções do teólogo Leonardo Boff. Contudo, em vez de aceitá-las inadvertidamente, sob o mero "argumento de autoridade", ou seja, de serem idéias de um "intelectual", seria no mínimo prudente colocá-las sob uma análise crítica para verificar se têm, efetivamente, algum fundamento. Para evitar qualquer mal-entendido, é necessário fazer uma advertência preliminar: esta análise não tem nenhuma motivação político-partidária, embora o resultado possa induzir o eleitor a refletir sobre sua escolha – de qualquer modo, este breve texto tem somente uma motivação filosófica, trata-se de um esforço de compreensão.

Em um artigo intitulado "Pessimismo capitalista e o darwinismo social" (http://www.leonardoboff.com/site/lboff.htm), Leonardo Boff propõe uma "limitação" do egoísmo. Para isso seria necessário adotar "formas de cooperação", firmadas por mecanismos "adequados" de organização social e fundadas na substituição do "eu" pelo "nós".

Imaginar uma comunidade regida pelos princípios e pressupostos estabelecidos pelo teólogo gera, no leitor, conforto e satisfação: nela há bem-estar, cooperativismo, segurança, ausência de conflitos, preservação ambiental livre da exploração "irracional" e "predatória". Ocorre que, para passar do "plano ideal" para o concreto, e estabelecer uma sociedade nestes moldes, não basta apenas uma mudança legislativa: é necessário, indica Boff, "modificar o olhar das pessoas sobre a realidade", fazendo com que elas enxerguem o "outro" e mitiguem, assim, o seu egoísmo em favor do "nós". Antes de assumir um projeto desta envergadura é prudente verificar a sua viabilidade, sua base, estrutura de constituição, sem deixar de projetar as possíveis conseqüências de sua implementação. Para desenvolver esta análise é apropriado recorrer a outros pensadores e idéias – não com o objetivo de fazer prevalecer novamente o "argumento de autoridade", e sim tomá-los como "referência" para disputar a coerência da descrição dos fatos e, conseqüentemente, uma decisão refletida.

Uma das teses fundamentais do pensamento kantiano é a incapacidade de transpor a individualidade por meio do conhecimento teórico. O sujeito que conhece é necessariamente particularizado por seu aparato cognitivo, que impõe a individualidade do sujeito do conhecimento, e a pluralidade dos objetos que são conhecidos – um aparato que estabelece, ainda, a intermediação entre o sujeito e o mundo à sua volta. Em outras palavras, entre o "eu" e os "outros" há sempre algo que se interpõe, ou seja, o aparato cognitivo. Portanto, não é através deste "algo", quer dizer, do instrumental do conhecimento, que é possível ultrapassar a barreira entre o "ego" e o "outro", pois ele, o aparato cognitivo, é a própria barreira. Esta concepção gera não apenas um problema epistemológico – se o mundo é "real" ou apenas um produto das faculdades cognitivas - mas também um problema "ético": como fundamentar uma moral universal, e não contingente? Para solucionar o problema ético Kant fundou a moral em um imperativo da razão; não da "razão teórica", mas da "razão prática", legisladora para todo ser racional, independente e superior em relação à baixa faculdade de desejar. Assim, a moral kantiana está assentada sobre um "imperativo categórico" da "razão prática": "ajas de acordo com uma máxima que possa se tornar uma lei universal".

Embora o grande mestre de Königsberg tenha despertado a filosofia para um problema efetivo, a solução que apresentou para fundamentar a moral fora ineficaz. Porque a "escolha" de "uma máxima que possa se tornar lei universal", quer dizer, válida para todos, fica a cargo de um sujeito, de um "ego"; por sua vez, mesmo que o imperativo seja uma determinação da "razão prática", é, ainda, produto de "uma razão", ou seja, de uma ferramenta do aparato cognitivo que realiza a intermediação entre o "ego" e o mundo à sua volta. Nestes termos, para escolher uma "máxima" que possa se estendida a todos, o sujeito não teria a que recorrer, exceto a si mesmo, ao seu interesse e bem-estar particulares, para decidir – portanto, seja qual for a sua escolha, ainda que uma complexa elaboração racional, é, em última instância, uma escolha "egoísta".

Para tentar solucionar o problema deixado por Kant, Schopenhauer indica uma via: a autêntica moral está fundamentada em uma "experiência intuitiva", independente da razão, de conceitos abstratos, juízos, dogmas – enfim, sem qualquer intermediação do aparato cognitivo; algo independente da "vontade consciente" do indivíduo, que de maneira súbita, imediata, atravessa o véu da individualidade imposto pelas formas do conhecimento que separam o indivíduo de seu semelhante. Uma experiência "mística" – não "divina", mas absurda e terrível - através da qual o indivíduo reconhece no "outro" a sua mesma essência, que é também a do mundo todo: uma Vontade obscura e insaciável, una e indivisível, que iludida pelo instrumental cognitivo se agredia, violentava, mutilava cravando os dentes na própria carne; reconhecendo-se, nesta unidade essencial, agora se cala, se compadece. Para Schopenhauer este é o grande "mistério da ética", da "Compaixão", o autêntico fundamento da moral – restrito exclusivamente à dimensão e experiência do indivíduo: outras instâncias, como por exemplo, a política, do Estado e das leis, ou da religião dogmática e seus mandamentos, são elaborações da razão, ou seja, de um "ego" que as construiu para preservar seus "interesses", de acordo com as ilustrações, respectivamente o bem-estar, a propriedade e a vida do cidadão em sua comunidade, ou a "graça" para o fiel em sua existência terrena, e o Paraíso após sua morte.

Depois deste breve percurso por entre as teses de Kant e Schopenhauer, é preciso tomá-las, agora, como "referência" para analisar a proposta de Leonardo Boff, a superação do "eu" em direção ao "nós". A princípio Boff parece desprezar as lições dos filósofos alemães. Se de fato as considera, quando utiliza em seu texto o termo "limitação" – e não "eliminação" – o teólogo não percebe que, mesmo poética, bela, e sedutora, sua proposta é uma elaboração do "ego", é ainda "egoísta". Além de ser a "projeção" de um sujeito que deseja e quer uma sociedade adequada a tal "modelo", o próprio formato dado a ela não elimina a individualidade. As "formas de cooperação", pelo contrário, conservam os interesses particularidades, os desejos e ambições característicos de cada pessoa que compõe o grupo: a comunidade é apenas um meio, um instrumento, para proteger interesses gerais, como o conforto, o bem-estar, a vida, a propriedade, e permitir a realização de aspirações particulares, sejam elas profissionais, intelectuais, amorosas, e outras. Neste sentido, uma sociedade de "cooperação" é formada por indivíduos "egoístas" – mesmo quando eles se preocupam com a natureza, sua morada e nutriz, estão preocupados com a garantia de seus interesses gerais e particulares, e, em última instância, com a perpetuação da sua linhagem.

Diante do "egoísmo" generalizado, e irremediável em termos de organização social, a "cooperação" exige a determinação de regras que reprimam o egoísmo dos indivíduos em limites aceitáveis, de modo a permitir a convivência e as relações recíprocas. As leis serviriam para refrear, com o contra-argumento da punição certa e severa, as motivações egoístas: utilizando a metáfora schopenhaueriana, a legislação é como a focinheira que detém o cão faminto e furioso.

Boff não se atenta para o fato de que uma autêntica moral – totalmente destituída de interesses particulares - não é dada por critérios exteriores, ou seja, pela simples observação de que as pessoas vivem em "cooperação". Elas podem estabelecer relações recíprocas sobre motivações "egoístas", de modo que o "outro" seja apenas a garantia, e um meio, de sua realização particular. A autêntica atitude moral é confirmada apenas na interioridade, na consciência particular de cada sujeito, em uma experiência intuitiva e completamente "desinteressada", livre de dogmas, mandamentos, leis. Mas, não parece que as pessoas firmem relações ordinárias sob "êxtase místico" – embora não afastado definitivamente, este é um fenômeno raro e excepcional. Não fosse assim o teólogo não proporia uma "mudança radical".

Para que o "egoísmo" ceda espaço para o "nós" é preciso que haja uma mudança fundamental, diz Leonardo Boff, uma "mudança do olhar sobre a realidade". O que quer dizer o ilustre teólogo? Que é necessário enxergar as coisas como elas "deveriam ser" em um "mundo imaginário", e não como de fato são? Ou a proposta de Leonardo Boff é ainda mais audaciosa, quer dizer, modificar a própria natureza humana, reinventar uma nova forma de epistemologia, de ver e compreender o mundo? Certo é que a proposta do teólogo tem uma direção definida, rumo ao "nós", mitigando cada vez mais o "ego", a individualidade.

O texto de Leonardo Boff, realmente, não tem a pretensão de ser um tratado de política, nem mesmo um caderno de "plano de governo", especificando detalhadamente todos os projetos e atividades do poder público. Mas, seu "adital" é apenas uma nota de "esclarecimento" ou pretende o teólogo simplesmente "aditar", quer dizer "proporcionar dita ou felicidade", consolar seus leitores com belas palavras e um esperançoso discurso poético? A contar pela militância de Leonardo Boff - primeiro no lançamento da candidatura à presidência da república de Marina Silva; agora, no segundo turno, ao lado da candidata autora do PAC, programa criticado por ele mesmo como uma "racionalização do irracional" – suas idéias alcançam uma dimensão diferente, política: o plano do "grupo", do "partido" ao qual está associado, que lhe concede "autoridade" para modificar "a forma de ver" das pessoas. Porém, que "óculos" elas serão obrigadas a usar para "enxergar melhor"? Aqueles elaborados pelo "ego" dos seus partidários, disfarçados de "consciência social" ou coisa parecida? É no mínimo suspeito um programa sobre estas premissas... 

Enfim, em alguma coisa Leonardo Boff tem razão: as pessoas são mais que produtores e consumidores. Além disso, a miséria, a fome, o sofrimento e as mortes provocadas pela ganância desmedida, e com ela a má distribuição de renda, são moralmente condenáveis. No entanto, para reajustar esta balança e tornar a existência de algum modo mais tolerável, não é preciso uma obra de "engenharia humana", ou uma espécie de "pedagogia universal". Não é necessário reprimir a individualidade, o "ego", em detrimento de um abstrato e vazio "nós" – porque, se da lição schopenhaueriana é ainda possível extrair algo, ela indica que cada indivíduo carrega consigo a essência una e indivisível do mundo; embora seja ela obscura, impetuosa, corrompida, traz consigo a capacidade total da autêntica moral, sem necessitar de qualquer aditamento estranho, exterior. Se é um fenômeno raro e independente de sua vontade, ao indivíduo resta apenas um esforço incansável de compreensão do mundo e do "outro" - mesmo que a "realidade" seja sombria e tenebrosa, para que, do contrário, o cultivo da "honestidade intelectual" não seja suprimido por um "nós" transformado em um cruel e vigilante "super-ego".

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