Tuesday, November 22, 2011

Projeção de sentimentos e análise política.

Bruno Braga.


 

Em resposta enviada ao articulista Dimas Enéas [1], observei que o texto de Delfim Netto, citado por ele, apresenta mais uma expressão do sentimento do autor que propriamente uma descrição dos fatos - sobretudo no que se refere ao manifesto "Ocupe Wall Street". Em outras palavras, Delfim Netto discursa sobre "o que ele pensa que é" o protesto, "o que ele quer que seja", ou "o que ele espera ser". Uma ilustração pode ser extraída do próprio artigo do economista:

"É com esse sentido do papel do trabalho com o qual o homem se constrói e produz um mundo onde tenta se acomodar em uma estrutura social conveniente que devemos entender os protestos dos 'enragées', que se intensificam na Europa e nos EUA" [2]. (Os grifos são meus).

No trecho citado o autor apresenta um "sentido" através do qual se "deve entender" o manifesto "Ocupe Wall Street" – um imperativo. No entanto, quando os dados da realidade efetiva são rastreados [3], e, conseqüentemente, são confrontados com o discurso de Delfim Netto, e também com o de Dimas Enéas, verifica-se que as considerações deles são uma massa confusa composta por alguns dados da realidade – como a crise financeira americana e seus efeitos, por exemplo – mas apreendidos e expressos conforme seus sentimentos e expectativas.

A deficiência deste expediente não é a presença de sentimentos e expectativas – mas sim o procedimento de antepô-los a um mapeamento da realidade efetiva. Não é possível formular um discurso analítico, científico, sem delimitar o plano de exame e rastrear nele os dados objetivos. Exceto quando se pretende estimular condutas; auto-justificar as próprias idéias, concepções e comportamento; ou ainda inocular no leitor a imagem à qual ele pretende estar associado no contexto do fato descrito – elementos que compõem o discurso do "agente político". Embora assinem os textos como analistas – Delfim Netto como economista, e Dimas Enéas como analista político -, e por isso mesmo estão automaticamente comprometidos com a descrição do fato, os articulistas substituem os dados objetivos referentes a este fato (o protesto "Ocupe Wall Street") e projetam nele os seus sentimentos, as suas expectativas, e até mesmo as suas ideologias, para explicá-lo: julgando-se analistas, escrevem como "agentes políticos".


 

Referências.

[1] http://dershatten.blogspot.com/2011/11/um-contra-exemplo-e-uma-controversia_15.html

[2] Idem.

[3] Isto é, quando se verifica os articuladores e estrategistas do protesto, o perfil dos manifestantes, os financiadores do movimento e aqueles que o apóiam na esfera política e cultural. Alguns destes dados podem ser consultados em: "O risco de freqüentar a posição de contra-exemplo é tornar-se um mau-exemplo" [http://dershatten.blogspot.com/2011/10/o-risco-de-frequentar-posicao-de-contra.html]; "Um Contra-exemplo e uma Controvérsia – Episódio II" [http://dershatten.blogspot.com/2011/11/um-contra-exemplo-e-uma-controversia_15.html].

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