Wednesday, July 15, 2015

A "conversão" de Morales.

Bruno Braga.

 
 
Para muitos uma provocação, desrespeito, uma afronta. Para outros, - como para o Diretor da Sala de Imprensa do Vaticano - nada de "ideologia", mas um "sinal de diálogo muito aberto". No retorno da viagem apostólica pela América Latina, o Papa Francisco esclareceu o polêmico episódio do crucifixo talhado sobre o símbolo comunista da foice e do martelo que recebeu do Presidente da Bolívia [1].
[JORNALISTA]. Santidade, o que sentiu ao ver o Cristo sobre a foice e o martelo que o presidente Morales lhe ofereceu? Onde está este objeto agora?
 
[FRANCISCO]. É curioso, eu não conhecia isso e não sabia que o padre Espinal era escultor e ainda poeta. Eu soube estes dias. Quando vi, para mim foi uma surpresa. Segundo: pode-se qualificar como um gênero de arte de protesto. Por exemplo, em Buenos Aires, há alguns anos, fez-se uma exposição de um bom escultor, criativo, argentino - agora está morto -: era arte de protesto, e eu me lembro de uma obra que era um Cristo Crucificado sobre um bombardeiro que ia descendo. Era uma crítica do cristianismo que se aliou com o imperialismo, o bombardeiro. Então, primeiro, EU NÃO SABIA DE NADA; segundo, eu o qualificaria como arte de protesto que, em alguns casos, pode ser ofensivo, em alguns casos. Terceiro, neste caso concreto: o padre Espinal foi morto na década de 80. Era uma época em que a Teologia da Libertação tinha várias vertentes diferentes, uma delas era a análise marxista da realidade, e o padre Espinal pertencia a esta. Eu sabia, porque naquele tempo eu era reitor da Faculdade de Teologia e se falava muito disso, das diversas vertentes e dos seus representantes. No mesmo ano, o superior geral da Companhia de Jesus redigiu uma carta sobre a análise marxista da realidade na teologia, um pouco de "parar isso", dizendo: não, não, as coisas são diferentes, não é certo, não é justo. Quatro anos depois, em 84, a Congregação para a Doutrina da Fé publica o primeiro documento, pequeno, a primeira declaração sobre a Teologia da Libertação, e a critica. Depois o segundo, que abre a perspectiva mais cristã. Estou simplificando. Façamos a hermenêutica daquela época. Espinal é um entusiasta dessa análise marxista da realidade, mas também da teologia, usando o marxismo. Daí vem aquela obra. A poesia de Espinal também é daquele gênero de protesto: era a sua vida, era o seu pensamento, era um homem especial, com tanta genialidade humana, e que lutava com boa fé. FAZENDO UMA HERMENÊUTICA desse tipo EU COMPREENDO AQUELA OBRA. PARA MIM, NÃO ERA UMA OFENSA. Mas eu tive que fazer essa hermenêutica, e a digo a vocês para que não haja opiniões erradas. ESTE OBJETO AGORA EU CARREGO COMIGO, VEM COMIGO. O PRESIDENTE MORALES quis me dar duas honrarias: uma é a mais importante da Bolívia, e a outra é a Ordem do Padre Espinal, uma nova ordem. Agora, eu não aceito mais honrarias, não posso... MAS ELE FEZ ISSO COM BOA VONTADE E COM O DESEJO DE ME AGRADAR. EU PENSO QUE VEM DO POVO DA BOLÍVIA - eu orei sobre isso, e pensei: se levo para o Vaticano, vão para o museu e ninguém verá. Então eu pensei em deixar para Nossa Senhora de Copacabana, a Mãe da Bolívia, e vai para o Santuário de Copacabana, a Nossa Senhora, estas duas honrarias que eu entreguei. MAS O CRISTO EU TRAGO COMIGO. Obrigado [2].
Esta é a posição do Papa sobre o assunto. Não é o propósito aqui considerar a resposta de Francisco ponto a ponto. Não. Interessa apenas um breve trecho: o que trata da "boa vontade" e do "desejo de agradar" de Evo Morales.
 
Em 2009, o Presidente da Bolívia participou do 9o Fórum Social Mundial (FSM). Um evento que é apresentado como um "contraponto" ao Fórum Econômico Mundial de Davos, apesar de ser concretamente um instrumento para a promoção do projeto de poder comunista latino-americano e um braço do Foro de São Paulo [3]. Evo Morales juntou-se ao tiranete venezuelano Hugo Chávez, ao então Presidente do Paraguai e "apóstolo" da Teologia da Libertação, Fernando Lugo, e a Rafael Correa, Presidente do Equador. Em Belém, no estado do Pará, o cocaleiro que preside a Bolívia fantasiado de índio disse o seguinte:
"Na Bolívia apareceram novos INIMIGOS; já não é somente a imprensa e a direita, senão, quero dizer para os irmãos e irmãs, grupos da IGREJA CATÓLICA. Os hierarcas da Igreja Católica, inimigos das transformações pacíficas. Eu estava refletindo um pouco, quero dizer-lhes. Como se grita permanentemente "outro mundo é possível", eu quero dizer, OUTRA FÉ, OUTRA RELIGIÃO, OUTRA IGREJA também é possível, irmãs e irmãs".
 
 
O público foi ao delírio com as acusações de Evo Morales. Um público formado por militantes políticos disfarçados de "movimentos sociais" - a mesma militância que o boliviano recebeu em seu país recentemente para participar com o Papa Francisco do "II Encontro Mundial de Movimentos Populares" [4]. João Pedro Stédile - o líder do "exército" do MST [5] - estava ao lado daqueles quatro Chefes de Estado comprometidos com o projeto comunista latino-americano.
 
 
No mesmo ano de 2009, Evo Morales foi mais direto sobre como combater o seu "inimigo":
"A IGREJA CATÓLICA é um símbolo do colonialismo europeu e, portanto, deve DESAPARECER da Bolívia" [6].
O cocaleiro boliviano estava disposto a determinar o controle estatal sobre a Igreja Católica para reduzir o âmbito de suas ações, uma vez que a considerava uma instituição "tradicionalista" [7].
 
No entanto, em 2013, veio a "conversão" - segundo o próprio Evo Morales, após ouvir Francisco dizer que "um cristão, se não é revolucionário hoje em dia, não é um cristão":
"Depois de escutar algumas mensagens do Papa, volto a confiar novamente na Igreja Católica" [8].
Disse que "Jesus Cristo foi o primeiro socialista do mundo" [9] e que a Jornada Mundial da Juventude no Brasil seria para "relançar a Teologia da Libertação", uma iniciativa com a qual, afirmou, "compartilho bastante" [10].
 
Não. Não é o caso de discutir a relação entre Francisco e a Teologia da Libertação. Independentemente disso, Evo Morales está empenhado em fazer do Papa um dos seus "apóstolos". A mudança de postura do cocaleiro com relação à Igreja Católica não é um sinal de "conversão". Trata-se de uma conveniência, uma oportunidade política. O mesmo aconteceu com o crucifixo talhado sobre a foice e o martelo. Ora, será que o Presidente da Bolívia não pensou sequer na repercussão - inevitável - de oferecer a Francisco uma peça e uma honraria com um símbolo comunista? O objetivo de Evo Morales é um só: instrumentalizar a fé para ampliar e fortalecer o projeto de transformar a América Latina na imensa "Patria Grande" comunista. Não se questiona a generosidade e a benevolência do Papa, mas "boa vontade" o índio de araque não teve, e as suas ofertas definitivamente não foram apenas uma expressão do "desejo de agradar".

 
REFERÊNCIAS.
 
 
 
[3]. Cf. "A 'prestação de contas' do ex-Secretário do Foro de São Paulo" [http://b-braga.blogspot.com.br/2015/05/a-prestacao-de-contas-do-ex-secretario.html]; KINCAID, Cliff. "Grupo católico revela influência vermelha no Vaticano". Trad. Bruno Braga [http://b-braga.blogspot.com.br/2015/06/grupo-catolico-revela-influencia.html].

[4]. Cf. [1].
 
 
[6]. "La Iglesia Católica es un símbolo del colonialismo europeo y por la tanto debe desaparecer de Bolivia", CNN, 24 de Junho de 2006, apud "Panorama Católico Internacional" [http://panoramacatolico.info/articulo/la-iglesia-catolica-debe-desaparecer-de-bolivia-dice-evo-morales].

[7]. Idem.
 
 

[10]. Cf. [8].

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