Sunday, October 02, 2011

A lucidez dos momentos traumáticos.


Bruno Braga.

Por mais paradoxal que possa parecer a idéia em um primeiro instante, um dos canais para que o homem atinja um efêmero estado de lucidez é aberto pelas situações extremas da vida, aquelas excessivamente traumáticas e de um sofrimento absurdamente radical. Este tipo peculiar de lucidez não é um estado de pleno exercício da razão, de perfeita descrição conceitual e lógica do fato – é uma lucidez modesta, sem os adornos e floreios das abstrações; porém, precisa e direta, em um reconhecimento pleno. É quando o sujeito é arrancado violentamente de sua existência cotidiana, da sua rotina ordinária, por um evento excepcional e terrível que retira sob seus pés o apoio e o suporte; que destrói, indiferente, as suas concepções, crenças, esperanças e expectativas mais valiosas; que revela a face infame e detestável dos seus ídolos e das pessoas que mais estima – no instante em que as ilusões são impiedosamente arruinadas e destroçadas, as máscaras retiradas, e os véus suspensos, então o mundo, a vida e o coração do ser humano se revelam, e o sujeito padecente pode atingir a simples lucidez do reconhecimento: "é assim".

A desgraça, o tormento e o infortúnio são como o pesado e imponente navio que singra o oceano aberto da vida, mas que com a sua afiada proa o talha – com isso revela ao tripulante da desgovernada embarcação o que se esconde sob as águas.

Porém, por trás do devastador navio, no rastro da sua popa, a fenda aberta aos poucos se fecha, e a imensidão oceânica refaz a sua unidade. Então o indivíduo retoma a sua vida ordinária, a sua rotina cotidiana, e com ela reconstrói as ilusões, se apega novamente aos desejos mais infames, sustenta e defende as idéias mais absurdas e imbecis. No tumulto do mundo ele já quase não se lembra do que presenciou, do que viu e reconheceu – da lucidez nefasta à insanidade consonante, acredita inocentemente, mais uma vez, estar nesta última o fundamento sólido de sua existência e de suas certezas.

 

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