Tuesday, March 05, 2013

A magnitude de Sócrates, por Paul Johnson.


[Sugestão de leitura].
Bruno Braga.



Sócrates é um marco na História da Filosofia. O ateniense tornou-se o arquétipo do que é ser filósofo, um modelo ainda fecundo mesmo que passados mais de 2.400 anos de sua morte. Para isso não precisou legar qualquer documento escrito. Ele não redigiu um conjunto de obras, não elaborou um “sistema” teórico ou uma “doutrina”. Para Sócrates não foi necessário a aprovação dos filósofos “profissionais” do seu tempo – nem um titulo acadêmico de tipo contemporâneo - para atestar a sua capacidade e o seu valor. Em “Socrates: a man of our times” [1], Paul Johnson examina esta ilustre figura.

O historiador inglês não se contenta apenas em reconstruir a biografia de Sócrates, recorrendo a fontes indiretas, sobretudo ao célebre discípulo do filósofo, Platão. Paul Johnson recria as circunstâncias políticas, as condições sociais e culturais das quais emergiu e nas quais Sócrates viveu. Todos estes elementos são transformados pelo autor em uma referência para o homem moderno, em uma fonte fecunda para que ele possa pensar, não apenas as questões acadêmicas da ética filosófica, mas a experiência vivida que, para Sócrates, era indissociável da Filosofia.

Sim, Sócrates cultivou os estudos da natureza. Mas também se dedicou ao vigor do caráter, enfrentou a guerra. Em sua busca incansável pela verdade interpelou aqueles que se apegavam a fórmulas e conceitos – e o fez também como um opositor da fórmula adotada pela cultura contemporânea, o relativismo. Quando soube que o oráculo o apontou como o homem mais sábio de Atenas, Sócrates, sem compreender o significado da sentença, abordou os que para o público tinham a reputação de “sábios”: o político, o poeta e o artesão. Só então, depois de examinar aquelas pessoas que se julgavam “sábias”, e de verificar que elas nada sabiam, é que Sócrates compreendeu o oráculo. De fato ele possuía um conhecimento a mais do que aqueles “sábios”: estava ciente de que nada sabia.

Paul Johnson narra o célebre julgamento de Sócrates, que apesar de bravamente se defender das acusações de corrupção da juventude e de cultuar deuses que não os da cidade, acaba condenado à pena capital. Sentença que acata em nome da justiça - em nome da lei e da ordem ele recusa a proposta de seus discípulos para fugir: aguarda tranquilamente a chegada da morte, que o abraçará com a ingestão da cicuta.

Paul Johnson estabelece uma relação entre Sócrates e o Cristianismo. A disseminação das considerações do filósofo ateniense sobre a vida e a morte, sobre o corpo e a alma – que são operadas através das obras de Platão e de Aristóteles -, junto com as narrativas sobre a sua própria vida, fizeram de Sócrates o modelo primordial do que é ser filósofo e uma fonte de sabedoria ética. Neste contexto, neste ambiente, Paulo encontrou um público preparado, apto a considerar certas questões, a receber a sua mensagem quando pregou os ensinamentos de Jesus Cristo. Assim, houve uma combinação que reuniu a caridade, a abnegação, a aceitação do sofrimento e o sacrifício da vontade com a visão socrática do triunfo da alma, dado na vida eterna cristã. “Os gregos perguntam por uma explicação, os judeus procuram por um sinal” [2] – Sócrates, graças aos escritos de Platão, forneceu a “explicação”, enquanto Jesus de Nazaré e a sua ressurreição produziram o “sinal”.

No entanto, Paul Johnson adverte: a relação entre o pensamento socrático e o Cristianismo não extrapola esta perspectiva geral. Sócrates não foi um precursor de Cristo - apesar de ter enaltecido o princípio de não retribuir a injustiça sofrida e de indicar um deus único. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” [3] – anuncio que somente uma consciência da divindade poderia justificar. Sócrates – que declarava nada saber – jamais se apresentaria assim, porque o exercício do seu “ministério” consistia apenas no esforço para fazer as pessoas pensarem sobre o bom comportamento e sobre os valores da humanidade de uma forma um pouco mais clara e coerente. Mas, o sucesso do trabalho de Sócrates, observa Paul Johnson, alcançou inúmeras gerações e forneceu claridade e força à recepção do Cristianismo do mundo grego, tornando-o mais fértil e fecundo [4].

Enfim, o livro de Paul Johnson – que não é destinado apenas ao público acadêmico - é leitura indispensável para conhecer Sócrates, e através dele – de sua vida e de suas experiências – pensar as tensões, os conflitos e os desafios impostos ao homem moderno.          


Referências.

[1]. JOHNSON, Paul. Socrates: a man of our times. Viking Penguin: New York, 2011. Há uma tradução para o português, que foi publicada pela editora Nova Fronteira, em 2012: “Sócrates, um homem do nosso tempo”.

[2]. Tradução livre para a citação de Paul Johnson, p. 188. A referência para o texto bíblico é I Cor, 22.

[3]. Referência bíblica, João 14, 6.

[4]. Para Paul Johnson a conquista do pensamento socrático, nesta “preparação”, teria colocado os pensamentos de Platão e Aristóteles, importantes no processo de “estabelecimento” da Cristandade Ocidental, como contribuições “periféricas”. Cf. p. 188-189.  

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