Friday, March 08, 2013

A morte do revolucionário bolivariano.


Bruno Braga.


Nicolás Maduro, vice-presidente da Venezuela, anunciou: Hugo Chávez está morto. A precisão em apontar a hora exata do falecimento - 16:25 [17:55, Brasília] – contrasta com o esforço anterior, o de ocultar informações sobre o estado de saúde da principal autoridade do país.

Desde que revelou padecer de um câncer, a saúde física do ditador venezuelano tornou-se um mistério. Nenhum boletim médico preciso foi divulgado. Pouco se sabe a respeito do tratamento ao qual se submeteu na ilha dominada pelos irmãos Castro. Surgiram as especulações, principalmente com a mudança radical da aparência de Chávez. Quando partiu para Cuba – para a última intervenção cirúrgica – o retorno tornou-se incerto. Com declarações oficiais desencontradas, a suspeita sobre a sua morte ganhou força. Documentos públicos eram dados como prova de que o revolucionário bolivariano permanecia vivo, embora uma pessoa sedada, submetida à traqueostomia, por óbvio, não estivesse em condição de elaborar sequer um lembrete para os funcionários – mas Chávez até “twittou”. Era uma peça teatral montada, que forjava a recuperação e o retorno do “Comandante-em-Chefe” de Cuba:  


A foto em que Chávez aparece ao lado das filhas após a última cirurgia em Cuba é uma falsificação. É o que atestam Ibrah Chaffardet, especialista em ilustração e animação digital, e Luis Perea, fotógrafo profissional com 30 anos de experiência [1].


As imagens utilizadas para anunciar o retorno de Hugo Chávez a Caracas - em Fevereiro – são de 07 de Dezembro, data em que o Presidente também retornava de Cuba.


A imprensa abraçou as falsificações promovidas pelo governo venezuelano, e com a morte de Hugo Chávez reproduziu outra. A Folha de São Paulo elaborou uma reconstituição da trajetória política do “revolucionário bolivariano”. A publicação assinalou que no ano de 2002 o governo de Chávez foi vítima de uma tentativa de golpe [2].

Esta tese – a do “golpe” - foi disseminada, sobretudo, pelo documentário “A Revolução não será televisionada” (“The Revolution Will Not Be Televised” ou também “Chávez: Inside the Coup”). O filme foi amplamente divulgado, recebeu prêmios internacionais - no Brasil foi exibido pela TV Câmara [3]. No entanto, o documentário é uma peça publicitária promovida e patrocinada pelo próprio Hugo Chávez – ele recorre a distorções, manipulação de imagens, para forjar, e depois denunciar, a tal “tentativa de golpe” de 2002.

A farsa é desmontada por outro documentário: “X-ray of a Lie” (“Radiografia de una mentira”, 2004).  



O filme aponta as falsificações promovidas pelo documentário que narra o tal “golpe” contra o governo de Chávez. Por exemplo, os chavistas que aparecem armados na Ponte Llaguno atirando no vazio - o que comprovaria a inocência deles no tumulto - disparavam contra um carro blindado da polícia, como revelam outras imagens. Os tanques, que teriam sido utilizados por militares “golpistas”, estavam, na verdade, a serviço de Chávez. A televisão estatal não foi tomada nem invadida, como foi alardeado – ela foi abandonada voluntariamente; as emissoras particulares de televisão, acusadas de participar do “golpe”, elas sim foram atacadas por militantes do governo, e tiveram os seus sinais cortados. O aglomerado de pessoas que aparece em torno do Palácio Miraflores – considerado o sinal do apoio “popular” a Chávez - era composto por partidários chavistas; e a multidão de quase um milhão de pessoas, que marchou pelas ruas de Caracas, pedindo a renúncia do ditador venezuelano, simplesmente não aparece no documentário que acusa o “golpe”. A “radiografia da mentira” termina com um discurso de Chávez, uma espécie de “confissão”. O revolucionário bolivariano assinala a necessidade de gerar “crises” para delas sair fortalecido. E esta foi a estratégia adotada com a ficção do “golpe de 2002” – fortalecer um regime que teria sido vítima de forças “golpistas”.   

O governo “revolucionário” de Cuba emitiu uma declaração sobre o falecimento de Hugo Chávez [4]. Nela, Chávez é tido como um autêntico “cubano” – um “filho verdadeiro” de Fidel Castro, que “acompanhou” o pai. Afirma que o “Comandante-em-Chefe” não estava a serviço apenas da Venezuela, mas também da “Pátria Grande”. E é verdade, Chávez tinha no horizonte a mesma pátria Socialista-Comunista idealizada por Fidel Castro. E de seu “pai” adotivo seguiu as lições, não apenas as de falsificação e engodo – também se associou ao banditismo e ao narcoterrorismo. Sim, morreu o “revolucionário bolivariano”, mas os seus aliados permanecem vivos e no poder, olhando para o mesmo horizonte – e utilizando as mesmas estratégias e artifícios – todos empenhados na construção criminosa da “Pátria Grande”.






Notas.

[1]. Cf. Para os esclarecimentos de Ibrah Chaffardet, acessar: [http://www.youtube.com/user/ibrahx?feature=watch]. E aqui as explicações de Luis Perea:  [http://www.ntn24.com/videos/fotografo-profesional-asegura-79594].


[3]. Entre os “Intelectuais”, Emir Sader é um dos propagandistas do filme. Cf. BRAGA, Bruno. “Um destrambelhado nada ingênuo” [http://b-braga.blogspot.com.br/2012/04/um-destrambelhado-nada-ingenuo.html].



   

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