Thursday, September 01, 2011

Culto a "El Chancho".


Bruno Braga.






Com a simples pronúncia da palavra "revolução" é possível estimular, na maioria das pessoas, sentimentos de entusiasmo e euforia. Palavra poderosa, que revigora o espírito, que injeta nele ânimo e inspiração – que aviva e excita. Invocando a "revolução", inocula-se na mente de muitos que a ouvem ou lêem, a idéia e expectativa de que é possível transformar, "recriar" completamente, o mundo. Cada um destes "espíritos reavivados" se sente o agente transformador, o Demiurgo que destruirá a tradição, quer dizer, o "velho", o "arcaico", o "ultrapassado", e dará forma ao "novo mundo", ao "novo homem" – obra feita, obviamente, a partir dos seus caprichos e para suprir as suas carências. Este é o poder sedutor da "revolução": alimentar o imaginário com a sensação de poder. 


A "revolução" não é algo que encanta apenas a juventude. Embora seja uma válvula para que os mais novos invistam sua energia intensa, cega e inconseqüente - e por isso a juventude é um terreno fértil para a captação de militantes – a "revolução" é um instrumento nas mãos de homens experientes, como o foi para Lênin, Stálin, Mao Zedong. Portanto, a "revolução" é um abrigo, independentemente da faixa etária: para os jovens é um canal para descarregarem os seus excessos, confusões, ansiedades, e excitações; para os homens experientes a "revolução" é um meio para se auto-proclamarem "Construtores de mundos". É verdade que estas disposições e motivações podem se misturar em jovens e homens experientes – mas o que ambos têm em comum é que, através da "revolução", reivindicam uma concentração de poder sob a promessa de realizarem um futuro que ainda não vislumbram, mas supõem ser maravilhoso.

Nestes termos, a força excitante da "revolução" não está baseada em doutrinas, em uma teoria coerente. Sua justificação não está fundada em modelos econômicos, estruturas administrativas estatais, em tipos de organização da sociedade. O elemento principal da "revolução" é a concentração do poder – independentemente das elaborações doutrinárias e teóricas, dos princípios e modelos utilizados para este objetivo. A concentração de poder é o elemento que seduz e embriaga; é ele que, por provocar este estado de alucinação, permite que os tipos mais repugnantes sejam transformados em "heróis", em figuras idolatradas, glorificadas, pelo simples fato de terem sido "revolucionários". Este é o caso de Ernesto Guevara.


Cultuado em todos os cantos do mundo, Che Guevara sabia conquistar com as palavras. Além de encantar com discursos em prol da "liberdade", da "igualdade", e contra os "inimigos do povo", afirmou certa vez que o revolucionário é "o escalão mais alto da humanidade". Com esta auto-glorificação arrebanhou militantes para o seu ambicioso projeto de transformação radical do mundo, introduzindo em cada um dos seus "companheiros" e admiradores a ilusão de serem superiores - intelectual e moralmente - a todo o restante da raça humana. Assim iludidos, alçados a um status de quase divindades, os "revolucionários" julgaram-se autorizados, valendo-se de qualquer meio, a transformar radicalmente o homem e o mundo. 


Mas é necessário quebrar o encanto das palavras e observar o que está por trás do "mito". É preciso atravessar o desvario revolucionário que bloqueia a consciência moral. Que impede que se reconheça, no mesmo "herói" que discursa em favor da "liberdade", da "igualdade", aquele que elogia o "ódio eficaz que faz do homem uma eficaz, violenta, seletiva e fria máquina de matar". O mesmo que de maneira inexorável diz: "não posso ser amigo de alguém que não compartilha com minhas idéias" (in COURTOIS, 1998, pp. 730-731). O dono destas palavras foi quem fuzilou impiedosamente, e sem qualquer direito de defesa, um jovem de sua coluna por ter ele roubado um pouco de comida. Foi o próprio Che Guevara. Para Régis Debray, seu companheiro na Bolívia, Che foi "um partidário do autoritarismo a qualquer preço" ("Loués soient nos seigneurs", Gallimard, 1996, p. 184).



Nem mesmo a morte comovia o "revolucionário" argentino. O cárcere de "La Cabaña", de onde Che oficiava, foi local de inúmeras execuções, principalmente de antigos companheiros de armas que se declaravam "democratas".



Nas atividades burocráticas, além de "fiscal", Che Guevara ocupou o ministério da Indústria e foi diretor do Banco Central de Cuba. Foi Ministro da Economia, embora não dominasse sequer as noções elementares da função que desempenhava – conseqüência inevitável: destruiu o Banco Central cubano. Che foi um verdadeiro fracasso nas questões econômicas; mas nos assuntos "disciplinares" estava "perfeitamente habilitado": "Foi ele e não Fidel quem inventou em 1960, na península de Guanaha, o primeiro campo de trabalho corretivo (o que nós chamaríamos trabalhos forçados)" [...], conta Régis Debray (Op. Cit. p. 185).


Enfim, Che Guevara foi um indivíduo intolerante e frio. Um desastrado Ministro da Economia. Um assassino sanguinário e covarde. Em Cuba foi um dos artífices do recrutamento da juventude, sacrificada ao culto do "novo homem" (COURTOIS,     1998, p. 731). Restaria, pois, algo que justificasse ainda o culto idolátrico do "revolucionário"? Uma bela e inspiradora foto de Alberto Korda, de 1960, intitulada "Guerrillero heroico", talvez; ou o poder encantador e inebriante da palavra "revolução" – aquela mesma que produz um discurso auto-glorificante, que estimula os seus líderes e seduz os militantes com a falsa idéia de serem "o escalão mais alto da humanidade". Mas, se o "encanto" é desfeito, e o véu do mito é retirado, se revela o que o "herói" de fato foi, o que ele fez. Então, persistir na idolatria é promover, literalmente, um culto a "El Chancho" – ao "Porco", como era chamado Che Guevara na infância.

 

 

 

1 comment:

assumpcao said...

Muito bom, Bruno! Ainda mais tendo estudado na FAFICH, verifica-se muita irracionalidade nesses grupos militantes. Sem falar na idealização dos líderes que encabeçam tais movimentos, colocando-se acima da ética. abraço, Gabriel