Thursday, September 15, 2011

O artifício de negar "a" Verdade para afirmar as "suas próprias" verdades.

Bruno Braga.


 

Refletir sobre a Verdade é um exercício atormentador. E pode ser ainda mais pavoroso ter que enfrentá-la. Por isso, tão logo surge o problema, um artifício muito comum é invocado para fugir dele: "será que a verdade existe ou cada um tem a sua?"

Em geral a Verdade é constrangedora. Ela arruína de uma só vez as certezas individuais mais estimadas; isto, automaticamente, provoca certo desconforto, desperta o temor, a insegurança, asco, repulsa. Neste sentido, o recurso ao argumento das verdades particulares, além de afastar a discussão objetiva, a investigação da matéria propriamente dita, é um artifício para fugir do constrangimento promovido pela Verdade – seja numa espécie de auto-engano, para livrar-se do descontentamento consigo mesmo e resguardar a auto-estima; ou para salvaguardar a sua reputação diante do olhar público, encontrando nele abrigo, conforto e segurança. No entanto, este estratagema, esta manobra astuciosa, não é a proteção das "suas" verdades – é, sim, a defesa das suas ilusões. Acontece que este artifício se disseminou de tal maneira na cultura popular que grande parte das pessoas ou o vêem com indiferença ou o aceitam como válido.

Invocar as "suas verdades" poderia ser adequado para as questões de foro íntimo, guardadas no próprio interior, e nas quais o indivíduo especula sobre o sentido da vida, o significado do mundo, ou elabora suas teorias a respeito dos fatos e eventos da sua existência ordinária – com a ressalva de que estas "verdades" são apenas um emaranhado de impressões, de idéias e conceitos vagos misturados a sentimentos e expectativas confusas. Por isso não é permitido ampliar o espectro deste emaranhado de sentimentos e impressões para que ele seja o fator definitivo na descrição dos fatos objetivos. Porque, ainda que seja um elemento que concorre para a produção das formulações do sujeito que conhece, ele não é o único: é necessário o assento da realidade objetiva – ela que, em uma investigação séria, regula e arranja as idéias. Em outras palavras, é preciso que haja uma correspondência efetiva entre a hipótese imaginada pelo sujeito e os dados da realidade. Do contrário, se a experiência efetiva, o mundo objetivo, desmente a hipótese, a conseqüência natural será o abandono dela, a renúncia das idéias e concepções que antes eram aparentemente razoáveis. Porém, este não é o expediente daquele que defende as "verdades subjetivas".

A grande dificuldade de quem recorre ao argumento das "suas" verdades é abandonar as suas "crenças". Se a realidade, ou algum outro meio inequívoco de prova, o contradiz, ele imediatamente tem a resposta: "cada um tem a sua verdade". É assim que se aferra ainda mais às suas ilusórias concepções. Quer evitar, a qualquer custo, a náusea, a vertigem, a censura da consciência, a crítica pública – ele não suporta a perda do apoio e do conforto de suas ilusões, ou o tormento diante do abismo aberto pela Verdade. Um comportamento que encontra abrigo, e é até estimulado, por outras idéias confusas e vagas cultivadas na esfera pública: por exemplo, a "liberdade de opinião", que confere ao indivíduo a certeza de não ter que responder, na carne, pelos próprios pensamentos (GUITON, 1951, p. 21) – e por isso ele se escandaliza quando as suas posições são contestadas; e o "direito de falar", que se assemelha ao comportamento dos franceses, nos quais grande parte da intelectualidade brasileira se inspirou, "estar sempre falando, não importa se sabem ou não algo sobre o assunto" (apud JOHNSON, 1990, p. 272).

Porém, o artifício das "suas" verdades apresenta dois problemas. Um deles é insuflar no sujeito que conhece – o mais apropriado seria chamá-lo de "sujeito que crê" – uma falsa convicção de que a partir da sua cabeça, única e exclusivamente, ele é capaz de deduzir todo o mundo e conhecê-lo. É o convencimento de que as próprias idéias, concepções, de que a própria imaginação é suficiente para descrever qualquer situação ou fato, dispensando a realidade diante dos próprios olhos, ou sem a necessidade do esforço da busca pelo conhecimento, isto é, da dedicação aos estudos, da seriedade e honestidade nas investigações. Porque se um dado da realidade, um documento, uma evidência, o desmente, pior para eles, pior para o mundo, pois "cada um tem a sua verdade" – uma sentença que confere atributos divinos ao indivíduo que a profere: onisciência e onissapiência. O outro problema é detectado com a persistência em recorrer ao argumento das verdades subjetivas, às "suas" verdades, depois que o artifício da sua utilização foi revelado: é o sintoma de uma covardia intelectual fora do comum.

2 comments:

assumpcao said...

Bruno,
o texto ficou bem instigante. Muitas vezes, preocupa-se mais em convencer o outro do que em discutir de forma sincera, com abertura para o conhecimento. Essa questão de falar por falar, para 'causar espanto' é, a meu ver, um dos pontos fracos de algumas vertentes da filosofia continental, ao passo que um dos pontos fracos da analítica seria o preciosismo lógico excessivo que acaba se desprendendo tanto da história da filosofia quanto de um compromisso teórico com a realidade.

Bruno Braga said...

Gabriel,

Fico contente em saber que o texto o estimulou a fazer algumas reflexões. Procurei tratar a questão de um ponto de vista mais geral, o das relações cotidianas e ordinárias, e o do debate público. No entanto, sob certo aspecto as suas observações são pertinentes no que tange à Filosofia, sobretudo quando nela há uma concentração de esforços nos extremos que você muito bem aponta: ou o do efeito público do discurso, ou o da lógica – o primeiro abandona o horizonte da Verdade e passa a visar apenas o estimulo de comportamentos; e o segundo abandona a realidade efetiva, transformando-se em uma elaboração sobre um “outro mundo” que não este no qual temos os pés fincados.

Abração.
Bruno Braga.

Belo Horizonte, 20 de Setembro de 2011.