Thursday, May 24, 2012

Delírio de onipotência.


Bruno Braga.


A imutabilidade do tempo é uma das compreensões mais banais que o ser humano pode extrair da sua consciência. Qualquer pessoa que se submeta a este autoexame interior é capaz de recolher a evidencia de que o passado está sepultado, ele não pode ser objeto de reformulação; e o futuro, por sua vez, aparece turvo, obscuro e incerto. Esta é a experiência de uma mente ordinária. Não é, contudo, a estrutura de uma mente revolucionária.  

Em vez de uma pessoa comum, que cuida dos problemas triviais da existência, o revolucionário se autoproclama um “agente histórico”. Este status confere a ele, imediatamente, a posição de guia e condutor, e o posto de juiz e árbitro, do próprio processo histórico. Assim, o revolucionário acredita estar dotado do poder de modelar o tempo: para reformular o passado em termos que justifiquem a sua conduta e a sua atual posição; e determinar o futuro “maravilhoso”, garantido por um projeto previamente traçado.  

Porque é guia e árbitro da História, o revolucionário se autoimuniza. Ele não pode ser responsabilizado e, consequentemente, não pode ser julgado, já que não há nenhuma instância de poder superior a ele mesmo. Quando Fidel Castro proclamou em sua autodefesa “La historia me absolverá”, não estava deixando a avaliação das suas ações para as pessoas comuns. Não – ele estava proferindo uma sentença de autoabsolvição. Porque, enquanto revolucionário, o “Comandante” estava certo de ser não só o condutor, mas o árbitro da própria História.

O revolucionário ergue os seus próprios “tribunais”. É necessário expurgar o “mal”. Foi assim que recorreu à guilhotina e ao fuzilamento. Não importa o meio, desde que o horizonte rumo à Terra dos Hiperbóreos esteja aberto: o sítio paradisíaco, onde para os gregos antigos se fazia a colheita duas vezes por ano; o lugar onde as pessoas tinham uma existência longa, feliz, e morriam voluntariamente, jogando-se dos penhascos com a cabeça coroada de flores.

A “Comissão da Verdade” é um “Tribunal Revolucionário”. Ainda que ela não recorra à guilhotina, ao fuzilamento, e não tenha o poder de punir criminalmente – algo que um de seus integrantes já cogita rever –, a difamação, a desmoralização, a execração pública são penas que satisfazem os seus carrascos, os revolucionários de ontem que hoje lutam para preservar o poder político que têm nas mãos.

Não é apenas por uma circunstância política, mas também pela estrutura interna, que a “Comissão da Verdade” se faz um “Tribunal Revolucionário”. Os que criaram as condições para instalá-la, os que a apoiam e suportam, e pelo menos alguns de seus integrantes, estão certos de que são “agentes históricos”. Com a autoproclamação que os transformam em guias e árbitros do tempo, eles pretendem reformular o passado para legitimar a sua existência, conduta e posição, mesmo que seja necessário falsificar a própria história [1]. Os revolucionários acreditam na legitimidade de uma moral invertida, que os autoriza a forjar uma “Verdade” para que o país, enfim, esteja pronto para o “Paraíso terrestre” ou para a Terra dos Hiperbóreos.

Porém, qual pessoa, em sã consciência, julgaria possuir o poder de interferir no tempo? Manipular o passado e fixar o porvir? Ninguém, na posse mínima de suas faculdades mentais, pensa que pode orientar o futuro da humanidade – ou de um país -, porque sabe que não tem nas mãos o seu próprio futuro. Nenhuma pessoa razoável se arroga a autoridade para fraudar a história ou fuzilar – ou mesmo difamar e desmoralizar - para que daí nasça a virtude e a nobreza. Este contraste denuncia que o revolucionário não é um hipócrita, ou alguém que tenha ambições políticas ou financeiras desmedidas. O revolucionário de fato é aquele que padece em um estado agudo e grave do delírio de onipotência.


Referências.

[1]. Afirmar que a luta armada dos revolucionários no Brasil foi uma reação a um regime político autoritário é mentira, porque os revolucionários iniciaram a guerrilha antes de 1964. Também é falsa a afirmação de que eles lutavam pela “democracia”, quando pretendiam, de fato, a implantação do Socialismo-Comunismo no país.         

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