Tuesday, May 22, 2012

O valor de uma discussão.


Bruno Braga.


Em outras ocasiões considerei a importância didática da utilização do “contraexemplo”. O mesmo valor tem, em certas circunstâncias, a discussão. Ela ajuda a delinear as concepções dos debatedores e, de alguma forma, apresenta e expõe à análise certas ideias e esquemas que circulam no domínio público através dos contendores.

Transcrevo abaixo o comentário de um “Anônimo” sobre o artigo “Habilidade de leitura – Exercício prático e uma consideração sobre Estado e Religião” [http://dershatten.blogspot.com.br/2012/05/habilidade-de-leitura-exercicio-pratico.html]. Este comentário carrega alguns estereótipos que frequentemente são utilizados como argumentos fundamentados, mas que o são somente na aparência. 

O comentário está acompanhado de uma resposta.

***

I. Anônimo.

Anonymous said...

Bruno Braga,
 
de fato, as convicções políticas, culturais e sociais que seu blog apresenta são assustadoras. Você gostaria de enxergar a si mesmo como um objetivista, defensor dos "fatos" e da "verdade" (belas palavras, não?), mas não se preocupa em analisar os pressupostos mais enraízados de suas opções teóricas e políticas. Todas as suas pseudoanálises pressupõem, no mínimo, a crença ingênua de que há um ponto de vista teórico neutro (também sob esse aspecto, você é um autêntico positivista) a partir do qual a "verdade" poderia vir à tona, ponto este que você -- ingenuamente -- acredita ocupar.
 
O ressentimento que todas as suas pseudoanálises deixam transparecer pode ser uma boa explicação para o seu temperamento político e teórico, mas não pretendo aqui fazer divagações psicológicas. Só diria uma coisa: se você pretende ser um homem teórico, faça o esforço mínimo de uma severa autocrítica. O pior e mais violento ódio é aquele que se mascara por trás de uma suposta "objetividade", "racionalidade", "clareza" e "nitidez", sem confessar as suas próprias intenções.

19.5.12

II. Bruno Braga.

Caro “Anônimo”,

É no mínimo curioso que você ensaie fazer uma “análise psicológica” da minha personalidade sem assinar o próprio nome. O anonimato, aqui, é, por um lado, o refúgio de quem quer evitar o compromisso da própria pessoa com as considerações que profere; e, por outro, a tentativa de poupar-se da responsabilidade advinda das suas palavras. Este autoexame elementar não faltou a mim – Bruno Braga – para emitir qualquer consideração, mas está ausente em você mesmo – caro, “Anônimo” – para esboçar uma “análise psicológica”.

A fraqueza que o impede de assinar o próprio nome é a mesma que o estimula a projetar um modelo de máxima “objetividade”, “racionalidade”, “nitidez” e de “clareza” – que você acredita piamente ser a imagem que faço de mim mesmo. Sem se dar conta, está imediatamente se rebaixando na medida em que, em vez de argumentos contra o que considera “pseudocríticas”, recorre apenas à simples sugestão de que meus textos escondem o “ressentimento” e o “ódio”.

Não - caro “Anônimo” – estes, provavelmente, são os sentimentos de quem se intimida com sombras projetadas. Eu, que assino “Bruno Braga”, estou no mesmo plano que você, esforçando-me para compreender alguma coisa. Por isso, não tenha nenhum constrangimento: se as minhas “convicções políticas, culturais e sociais” – que você foi incapaz de determinar – o escandalizam tanto, apresente alguma consideração contrária que não os sentimentos de alguém que preliminarmente se inferioriza diante de uma sombra projetada. 

Para aproveitar a sua tentativa de análise psicológica, sugiro um esforço imaginativo. Suponha – caro Anônimo - que eu seja o “ser” que você projetou: a presunção da Suma Sabedoria, carregado de ódio e ressentimento no coração. Imaginou? Pronto – eliminamos esta discussão secundária. Agora determine o que você chamou de “os pressupostos mais enraizados das minhas opções políticas e teóricas”; descreva as minhas “intenções” – depois estabeleça as críticas.

Acho que depois disso estará pronto para explicar também a elegante consideração que fez: o “mais violento ódio é aquele que se mascara por trás de uma suposta "objetividade", "racionalidade", "clareza" e "nitidez", sem confessar as suas próprias intenções”. Porque, supondo que você tenha partido da “racionalidade humana” para emitir “objetivamente” as suas “divagações psicológicas”, fico pensando quais são os sentimentos que você mesmo oculta por trás delas.

Não se esqueça do autoexame inicial: comprometer a própria pessoa com as considerações que proferir; e assumir a responsabilidade das próprias palavras – um indício disso é a assinatura do próprio nome abaixo das suas declarações.

Bruno Braga.

Belo Horizonte, 20 de Maio de 2012.

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