Tuesday, May 14, 2013

Espetáculo para a promoção da Mentira.


Bruno Braga.


I.


A Comissão da Verdade de São Paulo promoveu recentemente o seminário “Verdade e infância roubada” [1]. O objetivo do evento – declarado para o público – seria coletar depoimentos de filhos de militantes, terroristas e guerrilheiros – na época crianças – que foram “vitimados” pelo Regime Militar. Mas, o propósito – fundamental – era promover a versão revolucionária dos acontecimentos utilizando a capacidade de sensibilizar e de comover que tem o apelo à infância e à imagem de uma criança.

Os próprios depoentes assumem que daquele tempo e das circunstâncias que os cercavam pouco ou de quase nada se lembram. Confissão que em certo sentido não causa espanto, porque há uma dificuldade comum quando se tenta reconstituir o passado através da memória. É escandaloso, porém, que estes depoimentos constituam a restauração de um acontecimento histórico. Sobretudo quando os depoentes declaram que não procuram conhecer muito sobre a história, como Dora Augusta Rodrigues Mukudai. Ou como Ñasaindy Barret de Araújo, que não sabe distinguir o que é “memória” e o que é “invenção”.  

Estes lapsos, as lacunas no imaginário foram preenchidas pelos depoentes com desenhos, poemas – e até com uma história de bonecos – e foram costuradas com a “dramatização” das narrativas, certa “teatralização”. Isto aparecia nitidamente nos testemunhos – e já seria o suficiente para reconhecer que aquele seminário em São Paulo – diferentemente do que declaravam os organizadores e os participantes – não tinha um compromisso com a pesquisa e com a investigação histórica. Era a promoção de uma “fantasia” infantil – e da mitologia revolucionária – para elevar os pais – porque defensores de um “ideal” - à condição de “heróis da nação”.

E – nesta historinha - não poderia faltar a própria “Ilha da fantasia”. Praticamente todos os depoentes enalteceram a revolução cubana. Demonstraram gratidão – e adoração – para com os irmãos – genocidas – Castro, que os acolheram. Deram-lhes abrigo e escola. Para os seus pais deram treinamento e armas. Os depoentes narram uma vida idílica na ilha “encantada” – muito distante da realidade da imensa maioria dos cubanos, que é excluída dos privilégios usufruídos e usurpados pela elite revolucionária.


II.


A Comissão – Nacional – da Verdade ergueu um palco para exibir publicamente aquele que deveria ser o seu maior “troféu”: o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Publicou com destaque em seu site oficial que o depoimento do antigo comandante do DOI-CODI-SP seria transmitido ao vivo. Os comissários certamente imaginaram que o trabalho de “desmoralização” e de “publicidade” seria facilitado – sem contestação ou réplica - porque a justiça acolheu o pedido do Cel. Ustra de ter reconhecido o direito de permanecer em silêncio. No entanto, as coisas não saíram conforme o roteiro. Ustra falou.

Antes que fosse interrogado, o Coronel fez um pronunciamento. Observou o contexto histórico da época. Afirmou que os militares combatiam o Comunismo. Lutavam contra grupos terroristas que tinham o objetivo – declarado em seus programas – de instaurar no país uma “ditadura do proletariado”. Observou que a presidente Dilma Rousseff integrou alguns destes grupos terroristas. E, por fim, recorreu ao direito de ficar em silêncio porque – ressaltou o Coronel – o seu depoimento estava publicado em seus livros, “Rompendo o silêncio” (1987) e “A Verdade Sufocada: A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça” (2006) – um exemplar deste último foi dado à Comissão.

José Carlos Dias – um dos comissários – passou à inquirição. É importante notar que se o comissário pretendia obter de Ustra algum esclarecimento, ele deveria, então, interrogá-lo, não acusá-lo. As intervenções tinham inicialmente um tom de afirmação, e somente no final delas José Carlos Dias as corrigia desatentamente para a forma de questão. Ustra não se conteve, ele mesmo declara. Quebrou o silêncio e respondeu à maior parte das indagações.

No entanto, Claudio Fonteles pretendia ser o protagonista daquele espetáculo previamente armado. Com afetação, o comissário “encenou” as questões. Virou-se para o público e para as câmeras como se estivesse em um palanque reivindicando apoio ou em um palco pedindo aplausos. Fez chacota e piadinha. Anunciou a apresentação de um documento “secreto” que relatava o número de presos e de mortos no DOI-CODI-SP – e ironizou, considerando que, por ser “confidencial”, o documento certamente não estava no livro do Coronel. Fonteles se deu mal. Ustra tomou o seu livro - a “Verdade Sufocada” - e exibiu um documento do mesmo tipo, demonstrando que Fonteles não apresentava nenhuma novidade. O Coronel referia-se a estas páginas:


USTRA, 2012, pp. 300-302.

O Cel. Ustra deveria ter aproveitado a oportunidade para questionar o próprio Claudio Fonteles. Porque se aqueles comissários estavam de fato comprometidos com a investigação e com a pesquisa histórica, então Fonteles teria por obrigação e por dever recontar o macabro atentado no Aeroporto de Guararapes, que foi realizado em 1966 por integrantes da organização terrorista da qual ele foi integrante - a AP (Ação Popular) [2]. Ustra deveria ter questionado Fonteles – ainda que ele não respondesse ou que utilizasse algum artifício para se esquivar, mas para exibi-lo ao público - sobre o que ele fazia no Convento do Araguaia – no período da guerrilha – quando os militares desmontaram um centro clandestino de transmissão de rádio, que deveria alcançar a Albânia [3].

O depoimento terminou em confusão. Ustra foi questionado por Fonteles sobre a acusação de Gilberto Natalini. O vereador de São Paulo (PV) afirmou que Ustra o torturou pessoalmente. O Coronel negou a acusação e recusou a proposta de Fonteles de promover uma acareação. Ustra disse que não faria acareação com terrorista. Natalini, que estava na plateia, reagiu. A confusão foi instaurada, e a audiência logo em seguida foi encerrada.

Sobre as acusações de Natalini, Ustra redigiu uma “Carta aberta” endereçada ao próprio vereador, que no ano passado proferiu as mesmas acusações contra o Coronel na Folha de São Paulo. Documento que é pertinente reproduzir aqui:

Carta aberta ao vereador Gilberto Natalini
Brasília 02/09/2012

Senhor Vereador Gilberto Natalini

O jornal A Folha de S. Paulo, de 28/08/2012, publicou entre outras, as seguintes declarações,  feitas pelo senhor, onde me acusa de tê-lo torturado: 

“Ele me batia com uma vara de cipó de um metro e meio de comprimento. Tive que ficar equilibrado com os pés em cima de latas de leite em pó. Também sofri choques elétricos. Tudo pelas mãos dele”.

"Ele me bateu durante várias horas e me obrigou a declamar poesias nu e diante dos soldados para me humilhar".

Sr Gilberto Natalini, desminto, categoricamente, as suas declarações. Eu nunca o torturei, como não torturei ninguém.

Procurando o que consta a seu respeito no Google encontrei o seguinte:

Gilberto Natalini
Médico, Vereador, 51 anos
Gilberto Natalini, vereador, nascido no ano de 1952 , em São Paulo, é formado em medicina e foi um dos presos políticos do regime militar.
Ativista estudantil pela UNE e pela UEE, tentava articular a reintegração das escolas médicas, onde discutia o tema política.
Acusado de participar de uma facção política que praticava guerrilha urbana, Natalini foi preso cerca de dezessete vezes durante os anos de repressão. Em uma delas passou quatro meses na carceragem do DOPS, em São Paulo.
Atualmente, Natalini exerce a função de médico de forma solidária todos os sábados, por uma promessa feita em cárcere anos atrás, além de ser vereador do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB) pela cidade de
 São Paulo, em seu segundo mandato.

Certamente, como é comum entre os que me acusam, o senhor já terá  "as testemunhas que o viram ser torturado por mim e que também se dirão torturadas", o que dará mais credibilidade ao que foi publicado no jornal.
Mas, para que as suas declarações, a respeito das suas prisões, tenham maior credibilidade responda, por favor, às seguintes perguntas:

1 - Em que período (dias, mês e ano) o senhor esteve preso no DOI/CODI/II Exército, em São Paulo, ocasião em que teria sido torturado por mim?
2 - Os presos pelo DOI, após interrogados, se considerados inocentes eram liberados pelo próprio DOI, se culpados, eram encaminhados ao DOPS/SP.
3 - O senhor foi liberado pelo DOI , caso positivo, em que data?  Ou foi encaminhado ao DOPS/SP,neste caso,  em que data?
4 - O senhor afirma que " foi preso cerca de dezessete vezes durante os anos de repressão. Em uma delas passou quatro meses na carceragem do DOPS, em São Paulo".

Após passar tantos meses no DOPS/SP o senhor, certamente, foi indiciado em algum Inquérito Policial e encaminhado ao Presidio Tiradentes, com prisão preventiva decretada pala Justiça. Em que data isto aconteceu?

4- Em que Auditoria Militar o senhor foi julgado? Quando? Qual a sentença que recebeu?

5 - Os  presos pelo DOI foram indenizados pela Comissão de Anistia. O senhor, só pelo fato de ter passado quatro meses no DOPS, deve ter recebido uma excelente indenização desta Comissão. Quando o senhor  foi indenizado pela  Comissão de Anistia?

Senhor Gilberto Natalini, como o senhor , depois de tantos anos, guarda na memória detalhes de sua suposta tortura no DOI, tenho a certeza de que se lembrará, com muito mais clareza, das datas em que o senhor  "sofreu as agruras da ditadura" e que ficaram gravadas, para  sempre, na sua memória.

Atenciosamente
Carlos Alberto Brilhante Ustra


III.

É interessante observar que estes eventos foram realizados no mesmo dia. Enquanto Ustra prestava o seu “depoimento”, em São Paulo era realizado o último dia do seminário “Verdade, infância roubada”. Apesar da publicidade e do investimento, nenhum deles estava comprometido com a pesquisa histórica. Foram apenas "espetáculos” armados para “teatralizar” uma História. Consagrar uma mitologia revolucionária e as fantasias infantis. Transformar militantes, guerrilheiros e terroristas em “heróis” da nação. Espetáculos obscenos. Porque sob o pretexto de contar a “Verdade”, consagram descaradamente uma Mentira.



Notas.

[1]. BRAGA, Bruno. “Herdeiros da revolução, vítimas dos próprios pais” [http://b-braga.blogspot.com.br/2013/05/herdeiros-da-revolucao-vitimas-dos.html].

[2]. BRAGA, Bruno. “O bem-aventurado Alípio” [http://b-braga.blogspot.com.br/2012/11/o-bem-aventurado-alipio.html].

[3]. BRAGA, Bruno. “A História nas mãos de um sacerdote da revolução” [http://b-braga.blogspot.com.br/2012/11/a-historia-nas-maos-de-um-sacerdote-da.html].



PS. O depoimento do Cel. Brilhante Ustra - apesar do anúncio - já não está mais disponível no site da Comissão da Verdade. De qualquer maneira, aqui está o áudio completo para que se possa verificar o que foi dito acima.

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