Thursday, October 16, 2014

A Teologia do Mal de Dugin: o seu Eurasianismo é um culto satânico.

Robert Zubrin.
National Review, 18 de Junho de 2014.
Tradução. Bruno Braga.
 
 
 
 
 
 
Homens de ação estampam grandes ilustrações nos livros de história, mas são as idéias colocadas nas suas cabeças por homens de pensamento que determinam realmente o que eles fazem. Deste modo, rabiscos de filósofos malucos podem levar a milhões de mortes. Como herdeiro moderno dessa tradição, Alexander Dugin promete bater o recorde.
 
A maioria dos americanos não sabe nada sobre Alexander Dugin. Eles precisam saber, porque Dugin é o filósofo maluco que está redesenhando o cérebro de boa parte do governo e do público russo, enchendo a mente deles com uma nova ideologia totalitária dominada pelo ódio que só pode gerar consequências extremamente catastróficas, e não apenas para a Rússia, mas para toda a raça humana.
 
Nos últimos meses, como a adoção das idéias duguinistas pelo regime de Putin tornou-se mais evidente, uma série de artigos foi escrita chamando a atenção para o perigo. Mas agora, com a publicação de "The American Empire Should Be Destroyed": Alexander Dugin and the Perils of Immanentized Eschatology, de James Heiser, finalmente temos um tratamento em forma de livro. Vale bem a pena ler.
 
Heiser é um bispo da igreja luterana, e, por consequência, ele lida com os aspectos político e teológico do suposto conservadorismo de Dugin, na verdade uma ideologia "Eurasianista" neo-pagã. O subtítulo do livro pode afastar uma série de leitores, mas como um franco engenheiro que atravessaria a rua para evitar termos como "escatologia imanentizada", em geral eu achei o texto suficientemente claro, e até elegante em algumas passagens.
 
Heiser segue a carreira de Dugin, desde a expulsão dele do Instituto de Aviação de Moscou no início dos anos 80, por envolvimento em círculos místicos pró-Nazis, até o seu contínuo desenvolvimento em associação com várias organizações semelhantes à Thule Society no final daquela década, seus contatos com a anti-democrática Nova Direita Européia, a co-fundação e carreira com o Partido Nacional-Bolchevique nos anos 90, e sua subsequente mudança no contexto político russo depois de perceber que poderia ganhar muito mais influência como conselheiro de quem está no poder do que poderia operar por conta própria em um partido dissidente.
 
Heiser então começa a dissecar a ideologia política e geopolítica do Eurasianismo de Dugin. A idéia central é a de que o "liberalismo" (que Dugin entende como sendo todo o "consenso ocidental") representa um assalto à organização hierarquica tradicional do mundo. Repetindo as idéias dos teóricos nazistas Karl Haushofer, Rudolf Hess, Carl Schmitt e Arthur Moeller van den Bruck, Dugin diz que essa ameaça liberal não é nova, mas é a ideologia do poder marítimo-cosmopolita "Atlantis", que tem conspirado para subverter sociedades terrestres - mais conservadoras - desde os tempos antigos. De acordo com isso, escreveu livros reconstruindo toda a história do mundo como uma batalha entre essas duas facções, de Roma vs. Cartago à Rússia vs. "Ordem Atlântica" anglo-saxã de hoje. Se é para vencer a luta contra os subversivos oceânicos, portadores de ideias "racistas" como direitos humanos ("racistas" porque impostas por estrangeiros), a Rússia deve reunir em torno de si todas as potências continentais, incluindo a Alemanha, a Europa Central e Oriental, as ex-repúblicas soviéticas, Turguia, Irã e Coréia, em uma grande União Eurasiana, forte o suficiente para derrotar o Ocidente.
 
Para estar unida "de Lisboa a Vladivostok", essa União Eurasiana precisa de uma ideologia definida. Para isso, Dugin desenvolveu uma nova - a "Quarta Teoria Política" -, combinando todos os pontos mais fortes do Comunismo, do Nazismo, Ecologismo e Tradicionalismo, podendo apelar assim a todos esses diversos credos anti-liberais. Ele poderia adotar a oposição à livre iniciativa do Comunismo. No entanto, ele abandona o compromisso marxista para o progresso tecnológico, um ideal liberal derivado, em favor do apelo demagógico do Ecologismo para deter o avanço da indústria e da modernidade. Do tradicionalismo ele deriva uma justificativa para impedir o pensamento livre. Todo o resto é inspirado diretamente no Nazismo, variando das teorias jurídicas que justificam o poder estatal ilimitado e a eliminação dos direitos individuais para atender as necessidades das populações "enraizadas" no solo, às estranhas idéias gnósticas sobre a origem secreta da raça ariana no Pólo Norte.
 
O que a Rússia precisa, diz Dugin, é um "genuino, verdadeiro, radicalmente revolucionário e consistente, fascismo fascista". Por outro lado, o "Liberalismo é o mal absoluto... Somente uma cruzada global contra os Estados Unidos, o Ocidente, a globalização e sua expressão político-ideológica, o liberalismo, é capaz de tornar-se uma resposta adequada... O Império americano deve ser destruído".
 
Em seguida, Heiser fornece uma análise fria da teologia de Dugin:
 
Poderíamos afirmar que a fusão de Tradicionalismo e Eurasianismo de Dugin tornou-se um "movimento de massa gnóstico" de terceiro tipo, um "misticismo ativista". Não é exagero afirmar que o objetivo pretendido por Dugin, seu telos, é o Fim do Mundo, e que o cumprimento desse fim depende, ele acredita, da implementação da sua ideologia. Como Dugin proclamou no seu recente livro, 'Quarta Teoria Política":
 
"O fim dos tempos e o significado escatológico da política não vão se realizar por conta própria. Nós esperaremos pelo fim em vão. O fim nunca virá se nós esperarmos por ele, e nunca virá se nós não... Se a Quarta Prática Política não fosse capaz de perceber o fim dos tempos, então ela seria inválida. O fim dos dias deve vir, mas ele não virá por si só. Esta é uma tarefa, não uma certeza. É uma metafísica ativa. É uma prática".
 
Este desejo de promover o fim do mundo não é um desenvolvimento repentino no pensamento de Dugin. Como observado na citação do início deste capítulo, as intenções de Dugin estavam sendo publicadas no exterior já em 2001, e podiam ser lidas pelo público de língua inglesa. Em 2001, [Stephen] Shenfield notou que a visão escatologica de Dugin é "Maniqueísta" - isto é, uma forma dualista do Gnosticismo, que vê o mundo como um campo de batalha das forças igualmente equiparadas de bem e mal, onde as forças espirituais da luz lutam contra as forças materiais do mal. Dentro desse "Maniqueísmo", Dugin mistura conceitos cristãos, repetindo frequentemente a noção de que o Ocidente é o reino do "Anti-Cristo". Como Shenfield cita Dugin:
 
"O propósito da Rússia é que através do povo russo será realizado o último pensamento de Deus, o pensamento do Fim do Mundo... A morte é o caminho da imortalidade. O amor começará quando o mundo terminar. Nós devemos desejar ardentemente isso, como verdadeiros cristãos... Nós estamos arrancando a maldita Árvore do Conhecimento. Com ela perecerá o Universo".
 
Shenfield então observa: "Alexander Yanov, citando essas linhas, conclui que o 'verdadeiro sonho' de Dugin 'é de morte, em primeiro lugar a morte da Rússia'. Em sua resposta, Dugin evita abordar diretamente a substância da crítica de Yanov, mas observa que ele não compreende o significado positivo da morte...".
 
É difícil saber como reagir a alguém que afirma querer trazer o fim do mundo. Quando esse desejo é expresso com sotaque russo, é ainda mais provável que o ouvinte simplesmente despreze o orador como uma espécie de "super-vilão" saído de um filme horrível de aventura ou de ação. É uma reivindicação que evoca o riso - até que alguém perceba que o homem que pensa que "o propósito da Rússia" é "o Fim do Mundo" é o homem cuja doutrina geopolítica está sendo implementada pelo governador da Rússia.

 
Heiser continua:
 
Dugin é bastante entusiasmado com a idéia de que a terceira é a era vindoura e a final. Como Dugin escreveu em "A Metafísica do Nacional-Bolchevismo":
 
"Para além de 'direitas' e 'esquerdas' há uma e indivisível Revolução, na tríade dialética 'Terceira Roma - Terceiro Reich - Terceira Internacional'. O reino do nacional-bolchevismo, Regnum, o Império do Fim, este é o cumprimento perfeito da maior revolução da história, uma revolução continental e universal. É o retorno dos anjos, a ressureição dos heróis, a revolta do coração contra a ditadura da razão. Essa última revolução é a ocupação do acéfalo, do acéfalo portador da Cruz, da Foice e do Martelo, coroado pela suástica eterna".
 
O "Império do Fim" é marcado pela "tríade dialética", que combina "Terceira Roma - Terceiro Reich - Terceira Internacional". Todas as expectativas dos históricos delírios messiânicos russos, combinadas com as intenções Joaquimitas do Nazismo e do Bolchevismo Soviético, supostamente encontram sua expressão mais elevada nessa nova ideologia, segundo Dugin.

 
Finalmente, Heiser comenta o culto de Dugin ao Caos, e a adoção do símbolo oculto de oito pontas - a "Estrela do Caos" - como o emblema (e a bandeira, quando gravada em dourado com um pano de fundo preto) do movimento Eurasianista.
 
"Para Dugin, o logos é substituído pelo caos, e o próprio símbolo do 'caos magic' é o símbolo da Eurásia: 'O logos expirou e todos nós vamos ser sepultados sob suas ruinas, exceto se fizermos uma súplica ao caos e aos seus princípios metafísicos, usando-os como base para algo novo'. Dugin veste essa discussão sobre o logos com a linguagem de Heidegger, mas sua terminologia não pode ser lida fora de uma tradição bíblica ocidental de 2.000 anos, que associa o Logos ao Cristo, e a invocação do caos contra o logos, de Dugin, leva a certas conclusões inevitáveis sobre a sua doutrina".
 
Em resumo, o Eurasianismo de Dugin é um culto satânico.
 
Essa é a ideologia por trás do projeto "União Eurasiana" do regime de Putin. Foi a esse sombrio programa, que ameaça não só as perspectivas de liberdade na Ucrânia e na Rússia, mas a paz no mundo, que o ex-presidente ucraniano Victor Yanukovych tentou vender o "seu" país. É contra esse programa que os corajosos manifestantes em Maidan tomaram posição e - com uma ajuda escandalosamente pequena do Ocidente - triunfaram como que por milagre. É em nome desse programa que o regime de Putin gerou um banho de sangue no leste da Ucrânia, que, seguindo Dugin, é agora denominado "Nova Rússia". É em nome desse programa que Dugin, com apoio massivo do governo russo, organizou uma internacional fascista com partidos europeus marginais, e em nome desse programa que os líderes quislianos desses partidos estão dispostos a trair suas nações pela dominação do Kremlin.
 
O projeto fascista de Dugin - a União Eurasiana - é impossível sem a Ucrânia, e mais cedo ou mais tarde a própria Rússia se juntará ao Ocidente e tornar-se-á livre, ficando pelo mundo apenas algumas ilhas de tirania desprezadas e condenadas. Mas com a Ucrânia sob os seus pés, o programa Eurasiano pode e vai continuar, e irá cair uma nova cortina de ferro, aprisionando uma grande parcela da humanidade sob o domínio de um poder totalitário monstruoso que será um arsenal do mal em todo o mundo pelas próximas décadas. Isso significa outra guerra fria, trilhões de dólares desperdiçados em armas, o crescimento acelerado de um estado de segurança nacional, conflitos por procuração repetidos, custando milhões de vidas no exterior, e a própria civilização colocada em risco, em que um só passo em falso em um jogo insano e interminável de grande potência precipitaria o confronto carregado e fechado em trocas termonucleares.
 
Só que dessa vez nossos adversários da Guerra Fria não serão os Comunistas seculares, mas verdadeiros seguidores de um culto de adoração da morte que gostariam de provocar o fim do mundo.
 
O poder dos eurasianistas aumenta na Rússia com cada vitória de seu programa expansionista no exterior. O movimento duguinista está crescendo exponencialmente, enquanto as forças da sanidade estão sendo intimidadas ou esmagadas. É o resultado da capitulação do Ocidente. Se a Ucrânia cair, Vladimir Putin pode descobrir que, como os generais alemães que concederam poderes a Hitler, ele fomentou o nascimento de um monstro que não pode mais controlar.
 
Talvez ele devesse ler o livro de Heiser também.

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