Friday, January 27, 2012

Sócrates morre outra vez.
Bruno Braga.

 
A Educação no Brasil é péssima. Em todos os exames aos quais é submetida ela é reprovada, nem mesmo o ensino superior escapa. As principais justificativas para esta situação lamentável são a ausência de recursos, investimentos, no ensino e a falta de valorização do professor – ou seja, o problema da educação brasileira é dinheiro.
 
No entanto, é fundamental incluir nesta avaliação a responsabilidade dos próprios educadores. Por exemplo, o impacto e a contribuição para a desgraça da educação no país de práticas como a “pedagogia do oprimido”, a “pedagogia do amor”, o combate de um tal “preconceito linguístico”. O mesmo poderia ser feito sobre o compromisso e a devoção do professor à sua atividade. Porque a avaliação destes elementos não depende de nenhum outro fator, já que sinceridade e honestidade intelectual não custam dinheiro. Um método proveitoso para estabelecer esta aferição é analisar o que os educadores, os professores, e seus representantes ensinam e escrevem.
 
Gilson Reis é presidente do SINDPRO-MG [1] – Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais. É autor de um artigo intitulado “O Deus autoritário” [2], no qual discute as raízes e os desdobramentos da crise financeira na Grécia. Além das análises políticas, econômicas e sociais – passíveis de discussão – neste texto o articulista opõe à divindade onipotente, autoritária e opressora dos novos tempos, o mercado financeiro, um modelo de virtude: o filósofo grego Sócrates.
 
Escreve Gilson, que Sócrates foi condenado à morte, devendo ingerir a cicuta, porque defendia a “radicalização da Democracia” – o filósofo grego “condenava os valores morais e religiosos que orientavam a conduta dos indivíduos e que serviam de base às instituições políticas de seu tempo”. O veredicto que definia a pena capital também era uma punição para aquele que, segundo Gilson, questionava os deuses do Estado.
 
Se um sopro vital permitisse a Sócrates ler o texto de Gilson, provavelmente o filósofo ateniense repetiria as palavras que inauguram o seu discurso de defesa, reproduzido por Platão, diante do Conselho que o julgou: “A mim próprio quase me fizeram esquecer quem sou” [3].
 
Definitivamente, Gilson descreve outra pessoa que não Sócrates – a distorção é tão absurda que o articulista faz o papel, aparentemente sem perceber, dos acusadores do filósofo grego. Porque se o articulista afirma que Sócrates questionava os valores morais e religiosos, que questionava os deuses do Estado, o filósofo grego, há mais de dois mil anos, se defendia destas acusações dizendo justamente o contrário: “é o oposto disto, atenienses, porque eu acredito como nenhum dos meus acusadores e espero de vós e dos deuses que a vossa sentença seja o melhor para mim e para vós” [4] – e não hesita em declarar que “não há para o homem bom, mal algum, quer na vida, quer na morte, e os deuses não descuidam do seu destino” [5].
 
Gilson escreve que Sócrates questionava as “normas de conduta política”. Porém, um episódio da vida do filósofo desmente o articulista. No processo dos dez generais que deixaram de recolher os mortos na batalha naval, havia a intenção de julgar os acusados em bloco – uma medida ilegal. Então Sócrates decididamente se posicionou: “Achei do meu dever correr perigo ao lado da lei e da justiça” [6].
 
O episódio mesmo da condenação de Sócrates desmascara o personagem criado por Gilson. Porque, depois de sentenciado, e aguardando a hora da morte, o filósofo grego rejeita a proposta de fuga lançada por um de seus admiradores, Críton. O filósofo grego alegou que não pretendia ser um “adúltero das leis”, porque, fugindo, ele destruiria as próprias leis e, consequentemente, o Estado [7]. Sócrates concorda com as Leis da República, com quem trava um diálogo imaginário: “Sócrates, o que vais fazer? Executar teu plano não significa aniquilar-nos completamente, sendo que de ti dependem as leis da República e as de todo o Estado? Acreditas que um Estado pode subsistir se as suas sentenças legais não têm poder e, o que é mais grave, se os indivíduos as desprezam e aniquilam?” [8].
 
Gilson não descreve as ideias e o comportamento de Sócrates – atribui ainda, sem reticências, a sentença lapidar de Protágoras ao filósofo ateniense: “O homem é a medida de todas as coisas”. Enfim, o articulista conta o oposto daquilo que o próprio Sócrates dizia e fazia – se acreditava estar elogiando Sócrates, Gilson acaba ocupando o papel dos acusadores do filósofo. Mas é preciso perguntar: será que Gilson leu os relatos sobre Sócrates? Ou será que o articulista segue os métodos do seu grande mestre, a quem louva no final do seu texto? Pois, no caso desta última hipótese, tudo estaria explicado, já que Karl Marx foi um grande falsificador de discursos, documentos, um promotor de distorções históricas para fundamentar suas teses preconcebidas [9].
 
Uma das condutas que estimulou a calúnia contra Sócrates foi o fato de o filósofo ter abordado os sábios de sua época – o político, o poeta e o artífice – para verificar a sentença do oráculo de Delfos que o declarou como o mais sábio de Atenas. Ele realmente comprovou a sentença da pitonisa, porque aqueles que publicamente eram considerados sábios acreditavam conhecer, mas nada sabiam – Sócrates, por sua vez, sabia pelo menos uma coisa: que nada sabia. Embora as consequências da sua busca tenham sido trágicas e funestas, o episódio deixa uma lição socrática hoje pertinente: questionar o compromisso e a honestidade intelectual dos professores, dos educadores e seus representantes, sobretudo quando eles reivindicam para si o poder de “transformar o mundo” – porque esta não é uma questão de dinheiro, e não há nada que os absolva da responsabilidade de contribuir para situação deplorável da educação no Brasil.
 
 
Referências.
 
[3]. PLATÃO. Apologia de Sócrates. Editora Nova Cultural: São Paulo, 2004. Coleção Os Pensadores – Vol. Sócrates. p. 39.
 
[4]. Idem, p. 64.
 
[5]. Idem, p. 73.
 
[6]. Idem, p. 60.
 
[7]. PLATÃO. Críton. Editora Nova Cultural: São Paulo, 2000. Coleção Os Pensadores – Vol. Platão. p. 112.
 
[8]. Idem, p. 109.
 
[9]. Cf. BRAGA, Bruno. “Entre o Mestre e o ‘Intelectual’” [http://dershatten.blogspot.com/2011/06/entre-o-mestre-e-o-intelectual.html].

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