Friday, June 29, 2012

A expectativa e a frustração.


Bruno Braga.


Não é belo que nós estamos tão pertos da bem-aventurança política ideal sem sofrermos vertigens? Que sejamos livres e iguais sem Robespierre e sem os “sans culotte”? Que veneremos uma herança antiga e pacífica onde outros mancham as inovações judiciosas com os horrores da revolução?... É um fato singular que o que na França resulta agora novo e paradoxal seja para nós uma antiga ortodoxia política (apud SAFRANSKY, 1991, p. 38).


A transcrição acima é o testemunho de um leitor do “Hamburgische Correspondent”, um dos melhores periódicos da Alemanha na época da Revolução Francesa. O depoimento expressa a desilusão com os desdobramentos do movimento revolucionário, que contrastavam com as promessas e expectativas iniciais de seus idealizadores e membros, com o entusiasmo que inspirou a composição de odes, encômios, hinos e, diz a lenda, fez o pontual Immanuel Kant atrasar a sua caminhada, uma referência para os relógios dos moradores de Königsberg. Por outro lado, o mesmo testemunho expõe um sentimento de orgulho referente a Hamburgo, na Alemanha. A cidade havia sido contagiada pelas esperanças revolucionárias; mas, ao constatar as realizações da fase jacobina – marcada pelo terror, por perseguições e mortes –, se afastou do movimento, já que possuía a liberdade prometida pela revolução sem a necessidade de uma guilhotina que a garantisse.

Hamburgo, cidade hanseática – isto é, membro de uma confederação de cidades que conservam independência e autonomia para desempenhar o livre comércio –, era conduzida por dirigentes que se orgulhavam da constituição local, garantidora dos direitos de liberdade pessoal nos moldes da ata inglesa do “Habeas Corpus”. “A chave era a liberdade”. Para assegurá-la a carta estabelecia uma articulação bem particular: sem ser totalmente aristocrática, nem completamente democrática e representativa, era as três ao mesmo tempo - uma fórmula que assegurava a tranqüilidade, a seguridade e a liberdade [1].

A cidade alemã, no entanto, não se afastou totalmente da França revolucionária: conservou com ela as relações comerciais. Ao mesmo tempo em que os negócios eram prósperos, a cidade acolhia os franceses fugitivos. Elegantes e cheios de requinte, os emigrantes seduziam a população local, e, conseqüentemente, exerciam influência sobre os seus costumes - não apenas com a culinária sofisticada, com a cafeteria, mas também promovendo um aumento considerável de festas, jogatinas e do consumo de bebida. A prostituição cresceu, e com ela se espalhou o rumor de que o “mal venéreo” francês se propagava.   

O contraste entre a França revolucionária e Hamburgo é pontual. Porém, ele abre a possibilidade para uma questão maior depois de inúmeras experiências históricas: quais foram, efetivamente, as realizações dos movimentos revolucionários radicais em comparação com as suas promessas? Nenhuma realização supera a degradação intelectual, a moral, e o banho de sangue. Em todos os esforços de concentração de poder não se viu mais que o estímulo dos sentimentos mais baixos e vis. Foram como a reivindicação do “Anjo Decaído” em John Milton:

Poderemos aqui reinar seguros.
Reinar é o alvo da ambição mais nobre,
Inda que seja no profundo inferno;
Reinar no inferno preferir nos cumpre
À vileza de ser no céu escravo” [2].

Os desdobramentos dos movimentos revolucionários foram semelhantes às consequências da ambição satânica: obscuridade, inversão, falsificação, ignorância, corrupção e morte. Hoje, em plena atividade, a revolução é mais do que a reivindicação de poder político: é a revolta contra qualquer dimensão superior que dê ciência das limitações e fraquezas da natureza humana – é o esforço para entronar o próprio revolucionário, que na autoglorificação de Che Guevara é “o escalão mais alto da humanidade”.      


Referências.

[1]. SAFRANSKY, 1991, p. 37.

[2]. MILTON, 1949, p. 14.
 

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