Tuesday, March 20, 2012

Comentário sobre o texto de Francisco Fernandes Ladeira, "Nascimento e Morte do Sujeito Moderno" [1].

Bruno Braga.


Caro Francisco,

Penso ser necessário fazer algumas observações sobre a tese de Stuart Hall – sem saber se você a adota completamente. Porque assumi-la pode gerar uma grande confusão mental e conduzir a resultados práticos funestos.

Note o caso de Karl Marx: “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência”. Este decreto padece de autorreferência - porque, se Marx estivesse correto, ele jamais o poderia ter proferido. O pensador alemão não era pessoalmente um “proletário”, e, por isso, segundo a sua própria tese, não poderia ter a “consciência” de um “revolucionário”. Isto não parece ser problema para o pensador alemão, devido ao caráter profético de suas orientações – ele se considera um “Iluminado”, superior a toda a humanidade, e, por isso mesmo, deve ser o “Guia” dela: ele é um Comunista, que tem a vantagem, sobre todo o restante da massa do proletário, de compreender as condições, o andamento e os resultados gerais do movimento proletário (MARX, 2002, p. 59). Não é preciso muito para perceber o “messianismo” das teses marxistas, quando não a expressão do puro charlatanismo [2] – mas, é assim que funciona a cabeça de um revolucionário.

A respeito de Schopenhauer a consideração está “em parte” correta. Sim, para o filósofo alemão o homem, como qualquer outro ser, é a objetivação de uma Vontade metafísica insaciável – e a razão serve-lhe apenas como instrumento para a satisfação de seus imediatos e obscuros desejos. Acontece que a Vontade se objetiva – se torna objeto – em graus distintos, sendo a vontade humana o mais perfeito dos seus fenômenos, no qual ela aparece desenvolvida e iluminada pelo conhecimento. Este não é um conhecimento racional, conceitual, mas intuitivo, através do qual, na autoconsciência humana, a vontade conhece a si mesma: neste instante, em vez da busca por satisfação, e do conflito, ela silencia, e redime todo o mundo. O homem redime todo o restante da natureza (MVR, p. 483). Vale à pena citar o próprio Schopenhauer:
A possibilidade de a liberdade exteriorizar-se a si mesma é a grande vantagem do homem, ausente no animal, porque a condição dela é a clarividência da razão, que o habilita a uma visão panorâmica do todo da vida, livre da impressão do presente. O animal está destituído de qualquer possibilidade de liberdade, assim como a possibilidade de uma real, logo com clareza de consciência, decisão eletiva segundo um prévio e completo conflito de motivos, que para tal fim teriam de ser representações abstratas. (MVR, p. 510).

Mas, é preciso fazer uma observação para que não haja confusão com o que foi dito sobre Marx: Schopenhauer não era um Materialista, e nem mesmo um “Revolucionário” – era uma espécie de “conservador”, como o próprio Freud.

Já sobre os movimentos feministas, a artificialidade de suas propostas e ações mostra que, em vez de destruírem um “sujeito moderno”, uma “abstração teórica”, estão lutando contra a própria estrutura da realidade – e os resultados, intelectuais e morais, são degradantes.

Enfim, o homem, Francisco, definitivamente, não é um ser “angelical”. E mesmo que não seja considerado uma “obra prima” da natureza, ou de Deus, ele não é um “primata bípede” – considerá-lo assim, é negar a evidência diante dos próprios olhos. O “Pós-modernismo”, o esforço de “desconstruir”, de assassinar o “sujeito” e o “homem”, promete um “novo mundo” – uma “nova lógica”, diferente da clássica; uma “nova moral” diferente da tradição -, e um novo “sujeito”; mas, o que produziu, de fato, foi, confusão, absurdidade, sonambulismo, alheamento, charlatanismo e serve, inclusive, para a legitimação da morte.  


Referências.

[1]. Francisco Fernandes Ladeira, “Nascimento e Morte do Sujeito Moderno” [http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=8188&inf=11].

[2]. Cf. BRAGA, Bruno. “Entre o Mestre e o Intelectual” [http://dershatten.blogspot.com.br/2011/06/entre-o-mestre-e-o-intelectual.html].


Bibliografia.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Trad. Pietro Nassetti. Editora Martin Claret: São Paulo, 2002.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Editora Unesp: São Paulo, 2005.

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