Friday, December 14, 2012

"Post scriptum". Arquiteto da destruição [1].



Bruno Braga.




Niemeyer transformou-se em artigo de fé no instante seguinte ao de seu último suspiro. Contestá-lo é quase uma blasfêmia. Principalmente quando a controvérsia envolve o Comunismo, o “ideal” que o arquiteto defendeu até o fim de sua vida.

Neste caso, porém, a idolatria se confunde – pressupondo a boa-fé e a sinceridade deste tipo peculiar de “fiel” - com uma espécie de estado psicótico: um distanciamento da realidade. Porque ela confere autonomia ao discurso do arquiteto, consagrando a expressão poética do “mundo mais justo”; e suprime as realizações efetivas e concretas do “ideal” - morticínio, violência, narcotráfico, fome e degradação – com o qual ele colaborou [2].

Consagrar a expressão poética do Comunismo como virtude é o equivalente de louvar o crime passional. Conferir nobreza à declaração de amor do assassino; e esquecer, apagar a bala de fuzil que depois das ternas palavras ele enterrou na cabeça da sua amada.

I.

Não havia em Niemeyer duas metades: a do gênio da arquitetura e a do “idiota” comunista [3]. Niemeyer era uma só pessoa – de carne e osso –, que transitava entre os polos da genialidade e o da idiotice. Tanto que, no domínio da arquitetura, seu talento não é unanimidade, e as suas obras não têm – todas - o mesmo nível de distinção. Como colaborador e militante do Comunismo, por sua vez, Niemeyer não foi totalmente um “idiota útil” – para utilizar a expressão cunhada por Lênin. Ele tinha proximidade com as lideranças e grupos, tinha trânsito nas altas esferas de poder – e as realizações macabras do seu “ideal” não eram segredo.

Ademais, quando Niemeyer se debruçava sobre a folha branca não abandonava a “metade idiota”. Ela inspirou a obra do Memorial da América Latina em São Paulo: a mão aberta e erguida, que na palma tem o sangue do continente [4]. Estilizou a foice e o martelo no Memorial JK, em Brasília. Já como colaborador do Comunismo, Niemeyer não deixou de lado a sua “parte genial” – ele cedeu o seu talento a Fidel Castro, às Farc, ao PT.

II.

A fidelidade de Niemeyer ao Comunismo – o que se sabe é que ele foi intransigente até o final da vida – é compreendida como sinônimo de “coerência”. No entanto, a própria pessoa do arquiteto contrariava as teses comunistas. Para Karl Marx a forma de pensar do sujeito é determinada pelas suas condições materiais e pelos interesses da classe à qual ele pertence. Porém, Niemeyer – e nem Marx – não era um “proletário”. Pelo contrário, o arquiteto é de uma família - para utilizar a categoria marxista – “burguesa”. Família tradicional de militares, engenheiros e arquitetos. O avô foi Ministro do Supremo Tribunal - a maior instância do poder judiciário, que hoje é denunciada como expressão da “elite direitista-conservadora-reacionária” por condenar – devidamente - um dos protegidos de Niemeyer, o “mensaleiro” José Dirceu [5].

O arquiteto tinha de fato uma vida “incoerente” com o ideal comunista. Na juventude foi um “boêmio”. Com o sucesso – e já um paladino dos pobres e excluídos – foi proprietário de imóveis situados nas regiões mais valorizadas do mundo. Ele gostava do luxo de Paris. Incoerência percebida, inclusive, pelos órgãos de informação do Regime Militar:         

“Dia 02 Jan 71, às 19,30 horas, foi exibido, na televisão norueguesa, um filme falado em inglês, com elementos colhidos em BRASÍLIA, sobre a obra de OSCAR NIEMEYER, onde este, depois de referir-se em termos elogiosos ao ex-presidente JUSCELINO KUBITSCHEK DE OLIVEIRA e ao engenheiro LUCIO COSTA, confirmou, ostensivamente, ser comunista. Pouco depois, o arquiteto aparece em sua casa de campo, ao lado de uma piscina, demonstrando, inadvertidamente, ser apreciador do conforto do regime capitalista” (o destaque é meu) [6].

Niemeyer fazia de seus traços milhões em dinheiro. E os projetos eram construções elitizadas – Brasília é um exemplo.  

III.

Ajustar expressão verbal e experiência concreta. Tomar o caso de Niemeyer é o esforço de contar sinceramente uma biografia. Mas é também o de se situar. Perceber como é possível se distanciar da realidade e as consequências deste afastamento. É notar como este desajuste se transforma em “ideal” e logo em projeto de engenharia social – o Comunismo. Um surto psicótico que proclama um “mundo mais justo” enquanto promove o morticínio, a violência, a degradação moral e intelectual. Consagrar Niemeyer por fidelidade a este “ideal” macabro – e condenar por blasfêmia a denúncia de suas realizações efetivas – é parte do projeto com o qual o arquiteto, com o seu talento, colaborou: com a Arquitetura da destruição [7].  


Referências.

[1]. BRAGA, Bruno. “Arquiteto da destruição” [http://dershatten.blogspot.com.br/2012/12/arquiteto-da-destruicao.html].

[2]. Idem.

[3]. Ou a do “perfeito idiota latino-americano”. Cf. BRAGA, Bruno. “Para não ser mais um” [http://dershatten.blogspot.com.br/2012/11/para-nao-ser-mais-um.html].

[4]. Remissão à obra de Eduardo Galeano, “As veias abertas da América Latina”. 

[5]. Cf. [1].


[7]. Cf. [1].

   

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