Friday, July 20, 2012

Não é "política pura".


Bruno Braga.


Não, o que escrevo não é “política pura”, como ouvi outro dia. O elemento “político” é parte da questão – ou melhor, é uma das expressões dela. Porque a política é feita por pessoas de carne e osso, que carregam certas habilidades e virtudes, sentimentos e paixões, fragilidades e fraquezas, e as transformam em projetos sociais ou planos de governo. Sendo assim, o correlato necessário da política é a pessoa concreta e a sua interioridade: sem este elemento fundamental e originário o jogo político seria uma fantasmagoria - uma encenação composta por emanações fugazes e sem realidade viva, da qual os discursos de “Intelectuais” e analistas, repletos de espectros e abstrações estratosféricas, são frequentemente amostras assombrosas.   

Exemplifico o que disse. Não raro exponho temas relacionados ao movimento revolucionário. Engana-se quem vê nestas exposições somente uma análise ou descrição da luta pelo poder – uma disputa por cargos, prestígio e dinheiro. Porque enxerga apenas uma parte do problema – ou, como dito anteriormente, apenas a sua expressão. Falta o elemento originário e fundamental.

O movimento revolucionário é promovido por pessoas, gente viva que na complexidade de sua alma traz um conjunto de habilidades, fraquezas e tensões. Esta interioridade é acessível a qualquer um que nela mergulhe para apreendê-la: é necessário o esforço do recolhimento e um sincero exame de consciência. Assim é possível sondar o grau de ruptura e a carga de revolta que preenchem o peito. Não contra fatos ou eventos particulares, mas sim contra o mundo na sua totalidade, contra a humanidade. É possível verificar ainda se este descontentamento atingiu o ódio avassalador, aquele dirigido até mesmo contra as instâncias superiores da existência, e que no ato mesmo do assalto reivindica para si – ou para o seu grupo – o poder divino destronado para remodelar, ao seu gosto e capricho, o mundo e a humanidade que tanto o desagradam.

Que ninguém se espante por guardar e alimentar todos estes sentimentos. Nem mesmo os santos, com a superioridade de seu caráter, com os seus milagres e prodígios, se viram completamente livres deles: estavam cientes da tensão da vida humana e dos sentimentos baixos que precisavam dominar. Porém, se esta tensão interior é definitivamente rompida, e aqueles sentimentos são transformados em movimento político, então a revolta adquire uma expressão pública.

A vida de Che Guevara – não a do mito, mas a da pessoa viva – representou isto: uma ruptura interior radical, que em um surto de autodivinização, fez de si mesmo um Anjo Vingador, justificado a fuzilar e a matar para transformar o mundo e a humanidade.

Nestes termos, não se trata, aqui, de “política pura” – na acepção ordinária do termo -, mas de algo mais. Porque o jogo de poder é travado por pessoas reais de carne e osso que expressam o seu fundo interior em projetos sociais e planos de governo – como os promovidos pelo movimento revolucionário. Se o leitor carece de uma amostra mais efetiva para compreender o que foi dito, que mergulhe na sua intimidade interior para sondar a condição da sua própria semente revolucionária.     


Sugestão de leitura.

BRAGA, Bruno. “Delírio de onipotência” [http://dershatten.blogspot.com.br/2012/05/delirio-de-onipotencia.html].

Filmografia.

“Che, Anatomia de um Mito”, Luis Guardia, 2005 [http://dershatten.blogspot.com.br/2012/06/filmografia-che-anatomia-de-um-mito.html].

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