Tuesday, July 03, 2012

Uma aliança aparentemente extravagante.


Bruno Braga.


Nos debates sobre política os estereótipos e caricaturas não são os recursos prediletos dos palpiteiros e falastrões apenas. Eles enchem a boca dos formadores de opinião e preenchem os discursos dos analistas. No caso destes últimos, dos quais se espera a boa-fé de quem pretende avaliar e descrever, e não influenciar a disputa como um autêntico agente político, a utilização dos artifícios discursivos é um equívoco grave e imperdoável. Porque com eles as ideias vagas e os preconceitos são privilegiados em detrimento da compreensão dos processos reais e dos fatos concretos.

Certa vez, em um debate, disse algo que causou perplexidade e até indignação. Afirmei que a concorrência política no Brasil é apenas uma disputa por cargos e prestígio. Isto porque, os principais representantes do confronto – configurado pelos tipos “esquerda” e “direita” - não têm divergências relevantes quanto ao domínio cultural, isto é, sobre os valores que estruturam e orientam a sociedade.

Pois é o que constato hoje no noticiário de Barbacena - minha cidade natal - onde uma das chapas que concorrerá nas próximas eleições municipais será composta por uma aliança entre o PSDB e o PC do B. Talvez se espante quem ainda se vale de estereótipos e caricaturas, pois enxergará um estranho acordo entre a representação da maligna e diabólica “direita”, e o idealismo virtuoso e “esquerdista” dos Comunistas.

Acontece que esta rotulação é arbitrária, e promovida por um dos lados da disputa. Sob a perspectiva partidária, colocar a Sociodemocracia à “direita” significa desprezar a origem histórica dela: uma opção diferente da luta e do embate direto, mas fornecida pelo mesmo tronco, o Socialismo. Portanto, o rótulo “direita” - hoje transformado em acusação - é uma proposta, e uma imputação, promovida pela própria “esquerda”.

A configuração do cenário e a modulação dos debates pela “esquerda” são frutos de uma estratégica revolução, feita sem armas e combates violentos, mas de maneira silenciosa e indolor: a revolução cultural. Ela que, a partir de pontos estratégicos na educação, nas Universidades, na mídia “chic” e com os Intelectuais pretende formar o imaginário das pessoas, e se torna capaz de constranger, até mesmo, candidatos que trazem algum resquício hereditário do berço. É assim que a revolução atinge e enfraquece o seu verdadeiro inimigo. Não a “direita” – que é somente uma fantasmagoria útil para tal propósito – mas o conservadorismo, os princípios e valores tradicionais que fornecem um senso de orientação, sobretudo através da estrutura do direito e da religião judaico-cristã.

Nestes termos, a aliança entre PSDB e PC do B em Barbacena não é apenas uma conveniência ou um oportunismo político. Tendo como principal adversário o PMDB-PT, é uma amostra efetiva de que, no domínio da cultura, existe apenas uma proposta. Este cenário não foi construído ontem. O processo através do qual ele se formou transcende os estereótipos e as caricaturas. Certo é que, neste jogo, independentemente do lado, a grande vitoriosa será a revolução, ainda que a maioria da população seja predominantemente conservadora.      

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