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Tuesday, October 26, 2010

Um teólogo militante sob suspeita.

Bruno Braga.



Em um momento decisivo para o país, no qual serão firmados, ou reiterados, compromissos políticos, é oportuno analisar idéias e propostas; sobretudo quando elas deixam a esfera intelectual para balizar um plano de governo. A julgar por suas aparições e discursos em palanques de candidatos, quer dizer, "candidatas", este tem sido o itinerário das concepções do teólogo Leonardo Boff. Contudo, em vez de aceitá-las inadvertidamente, sob o mero "argumento de autoridade", ou seja, de serem idéias de um "intelectual", seria no mínimo prudente colocá-las sob uma análise crítica para verificar se têm, efetivamente, algum fundamento. Para evitar qualquer mal-entendido, é necessário fazer uma advertência preliminar: esta análise não tem nenhuma motivação político-partidária, embora o resultado possa induzir o eleitor a refletir sobre sua escolha – de qualquer modo, este breve texto tem somente uma motivação filosófica, trata-se de um esforço de compreensão.

Em um artigo intitulado "Pessimismo capitalista e o darwinismo social" (http://www.leonardoboff.com/site/lboff.htm), Leonardo Boff propõe uma "limitação" do egoísmo. Para isso seria necessário adotar "formas de cooperação", firmadas por mecanismos "adequados" de organização social e fundadas na substituição do "eu" pelo "nós".

Imaginar uma comunidade regida pelos princípios e pressupostos estabelecidos pelo teólogo gera, no leitor, conforto e satisfação: nela há bem-estar, cooperativismo, segurança, ausência de conflitos, preservação ambiental livre da exploração "irracional" e "predatória". Ocorre que, para passar do "plano ideal" para o concreto, e estabelecer uma sociedade nestes moldes, não basta apenas uma mudança legislativa: é necessário, indica Boff, "modificar o olhar das pessoas sobre a realidade", fazendo com que elas enxerguem o "outro" e mitiguem, assim, o seu egoísmo em favor do "nós". Antes de assumir um projeto desta envergadura é prudente verificar a sua viabilidade, sua base, estrutura de constituição, sem deixar de projetar as possíveis conseqüências de sua implementação. Para desenvolver esta análise é apropriado recorrer a outros pensadores e idéias – não com o objetivo de fazer prevalecer novamente o "argumento de autoridade", e sim tomá-los como "referência" para disputar a coerência da descrição dos fatos e, conseqüentemente, uma decisão refletida.

Uma das teses fundamentais do pensamento kantiano é a incapacidade de transpor a individualidade por meio do conhecimento teórico. O sujeito que conhece é necessariamente particularizado por seu aparato cognitivo, que impõe a individualidade do sujeito do conhecimento, e a pluralidade dos objetos que são conhecidos – um aparato que estabelece, ainda, a intermediação entre o sujeito e o mundo à sua volta. Em outras palavras, entre o "eu" e os "outros" há sempre algo que se interpõe, ou seja, o aparato cognitivo. Portanto, não é através deste "algo", quer dizer, do instrumental do conhecimento, que é possível ultrapassar a barreira entre o "ego" e o "outro", pois ele, o aparato cognitivo, é a própria barreira. Esta concepção gera não apenas um problema epistemológico – se o mundo é "real" ou apenas um produto das faculdades cognitivas - mas também um problema "ético": como fundamentar uma moral universal, e não contingente? Para solucionar o problema ético Kant fundou a moral em um imperativo da razão; não da "razão teórica", mas da "razão prática", legisladora para todo ser racional, independente e superior em relação à baixa faculdade de desejar. Assim, a moral kantiana está assentada sobre um "imperativo categórico" da "razão prática": "ajas de acordo com uma máxima que possa se tornar uma lei universal".

Embora o grande mestre de Königsberg tenha despertado a filosofia para um problema efetivo, a solução que apresentou para fundamentar a moral fora ineficaz. Porque a "escolha" de "uma máxima que possa se tornar lei universal", quer dizer, válida para todos, fica a cargo de um sujeito, de um "ego"; por sua vez, mesmo que o imperativo seja uma determinação da "razão prática", é, ainda, produto de "uma razão", ou seja, de uma ferramenta do aparato cognitivo que realiza a intermediação entre o "ego" e o mundo à sua volta. Nestes termos, para escolher uma "máxima" que possa se estendida a todos, o sujeito não teria a que recorrer, exceto a si mesmo, ao seu interesse e bem-estar particulares, para decidir – portanto, seja qual for a sua escolha, ainda que uma complexa elaboração racional, é, em última instância, uma escolha "egoísta".

Para tentar solucionar o problema deixado por Kant, Schopenhauer indica uma via: a autêntica moral está fundamentada em uma "experiência intuitiva", independente da razão, de conceitos abstratos, juízos, dogmas – enfim, sem qualquer intermediação do aparato cognitivo; algo independente da "vontade consciente" do indivíduo, que de maneira súbita, imediata, atravessa o véu da individualidade imposto pelas formas do conhecimento que separam o indivíduo de seu semelhante. Uma experiência "mística" – não "divina", mas absurda e terrível - através da qual o indivíduo reconhece no "outro" a sua mesma essência, que é também a do mundo todo: uma Vontade obscura e insaciável, una e indivisível, que iludida pelo instrumental cognitivo se agredia, violentava, mutilava cravando os dentes na própria carne; reconhecendo-se, nesta unidade essencial, agora se cala, se compadece. Para Schopenhauer este é o grande "mistério da ética", da "Compaixão", o autêntico fundamento da moral – restrito exclusivamente à dimensão e experiência do indivíduo: outras instâncias, como por exemplo, a política, do Estado e das leis, ou da religião dogmática e seus mandamentos, são elaborações da razão, ou seja, de um "ego" que as construiu para preservar seus "interesses", de acordo com as ilustrações, respectivamente o bem-estar, a propriedade e a vida do cidadão em sua comunidade, ou a "graça" para o fiel em sua existência terrena, e o Paraíso após sua morte.

Depois deste breve percurso por entre as teses de Kant e Schopenhauer, é preciso tomá-las, agora, como "referência" para analisar a proposta de Leonardo Boff, a superação do "eu" em direção ao "nós". A princípio Boff parece desprezar as lições dos filósofos alemães. Se de fato as considera, quando utiliza em seu texto o termo "limitação" – e não "eliminação" – o teólogo não percebe que, mesmo poética, bela, e sedutora, sua proposta é uma elaboração do "ego", é ainda "egoísta". Além de ser a "projeção" de um sujeito que deseja e quer uma sociedade adequada a tal "modelo", o próprio formato dado a ela não elimina a individualidade. As "formas de cooperação", pelo contrário, conservam os interesses particularidades, os desejos e ambições característicos de cada pessoa que compõe o grupo: a comunidade é apenas um meio, um instrumento, para proteger interesses gerais, como o conforto, o bem-estar, a vida, a propriedade, e permitir a realização de aspirações particulares, sejam elas profissionais, intelectuais, amorosas, e outras. Neste sentido, uma sociedade de "cooperação" é formada por indivíduos "egoístas" – mesmo quando eles se preocupam com a natureza, sua morada e nutriz, estão preocupados com a garantia de seus interesses gerais e particulares, e, em última instância, com a perpetuação da sua linhagem.

Diante do "egoísmo" generalizado, e irremediável em termos de organização social, a "cooperação" exige a determinação de regras que reprimam o egoísmo dos indivíduos em limites aceitáveis, de modo a permitir a convivência e as relações recíprocas. As leis serviriam para refrear, com o contra-argumento da punição certa e severa, as motivações egoístas: utilizando a metáfora schopenhaueriana, a legislação é como a focinheira que detém o cão faminto e furioso.

Boff não se atenta para o fato de que uma autêntica moral – totalmente destituída de interesses particulares - não é dada por critérios exteriores, ou seja, pela simples observação de que as pessoas vivem em "cooperação". Elas podem estabelecer relações recíprocas sobre motivações "egoístas", de modo que o "outro" seja apenas a garantia, e um meio, de sua realização particular. A autêntica atitude moral é confirmada apenas na interioridade, na consciência particular de cada sujeito, em uma experiência intuitiva e completamente "desinteressada", livre de dogmas, mandamentos, leis. Mas, não parece que as pessoas firmem relações ordinárias sob "êxtase místico" – embora não afastado definitivamente, este é um fenômeno raro e excepcional. Não fosse assim o teólogo não proporia uma "mudança radical".

Para que o "egoísmo" ceda espaço para o "nós" é preciso que haja uma mudança fundamental, diz Leonardo Boff, uma "mudança do olhar sobre a realidade". O que quer dizer o ilustre teólogo? Que é necessário enxergar as coisas como elas "deveriam ser" em um "mundo imaginário", e não como de fato são? Ou a proposta de Leonardo Boff é ainda mais audaciosa, quer dizer, modificar a própria natureza humana, reinventar uma nova forma de epistemologia, de ver e compreender o mundo? Certo é que a proposta do teólogo tem uma direção definida, rumo ao "nós", mitigando cada vez mais o "ego", a individualidade.

O texto de Leonardo Boff, realmente, não tem a pretensão de ser um tratado de política, nem mesmo um caderno de "plano de governo", especificando detalhadamente todos os projetos e atividades do poder público. Mas, seu "adital" é apenas uma nota de "esclarecimento" ou pretende o teólogo simplesmente "aditar", quer dizer "proporcionar dita ou felicidade", consolar seus leitores com belas palavras e um esperançoso discurso poético? A contar pela militância de Leonardo Boff - primeiro no lançamento da candidatura à presidência da república de Marina Silva; agora, no segundo turno, ao lado da candidata autora do PAC, programa criticado por ele mesmo como uma "racionalização do irracional" – suas idéias alcançam uma dimensão diferente, política: o plano do "grupo", do "partido" ao qual está associado, que lhe concede "autoridade" para modificar "a forma de ver" das pessoas. Porém, que "óculos" elas serão obrigadas a usar para "enxergar melhor"? Aqueles elaborados pelo "ego" dos seus partidários, disfarçados de "consciência social" ou coisa parecida? É no mínimo suspeito um programa sobre estas premissas... 

Enfim, em alguma coisa Leonardo Boff tem razão: as pessoas são mais que produtores e consumidores. Além disso, a miséria, a fome, o sofrimento e as mortes provocadas pela ganância desmedida, e com ela a má distribuição de renda, são moralmente condenáveis. No entanto, para reajustar esta balança e tornar a existência de algum modo mais tolerável, não é preciso uma obra de "engenharia humana", ou uma espécie de "pedagogia universal". Não é necessário reprimir a individualidade, o "ego", em detrimento de um abstrato e vazio "nós" – porque, se da lição schopenhaueriana é ainda possível extrair algo, ela indica que cada indivíduo carrega consigo a essência una e indivisível do mundo; embora seja ela obscura, impetuosa, corrompida, traz consigo a capacidade total da autêntica moral, sem necessitar de qualquer aditamento estranho, exterior. Se é um fenômeno raro e independente de sua vontade, ao indivíduo resta apenas um esforço incansável de compreensão do mundo e do "outro" - mesmo que a "realidade" seja sombria e tenebrosa, para que, do contrário, o cultivo da "honestidade intelectual" não seja suprimido por um "nós" transformado em um cruel e vigilante "super-ego".

Saturday, October 16, 2010

O "fenômeno religioso" no processo eleitoral de 2010.


Bruno Braga.

 
O segundo turno da disputa presidencial no Brasil tem sido fortemente carregado por uma atmosfera religiosa, destaca a imprensa nacional. Ocorre que, é um engano pensar que a fé, a crença, impregna a política apenas na segunda etapa do pleito. Na primeira fase foram muitos os candidatos que se elegeram para ocupar as câmaras estaduais, a câmara federal, e o senado, valendo-se de discursos religiosos: as crenças, os ritos e as Igrejas, foram utilizados para convencer o eleitor, ou o fiel, a confiarem-lhes um mandato – na esfera do poder executivo federal passou-se o mesmo; contudo, a candidata representante do "fator religioso" não venceu a corrida eleitoral. 

Marina Silva, do Partido Verde, expressou claramente o poder da religião no primeiro turno das eleições. Logo no lançamento de sua candidatura o discurso de um teólogo: Leonardo Boff, que defende um tipo peculiar de Ecologia [http://www.leonardoboff.com/site/lboff.htm], que envolve não apenas a questão ambiental, mas também, uma ecologia social, uma mental, e a integral, interligadas, obviamente, na unidade divina. Idéias que transparecem no discurso da candidata Marina Silva: nas propostas ambientais para um desenvolvimento sustentável; no modelo de governo, fundado na "conciliação", no qual as pessoas estariam unidas, todas, independentemente da classe e dos interesses, de "mãos dadas" para o "bem" do Brasil. Além do discurso, Marina se apresenta como uma "entidade espiritual" – veste-se com trajes que remetem às suas raízes no estado do Acre, adornados com xales pomposos e rústicos; esforça-se para manter uma expressão facial serena, tranqüila – Marina parece uma divindade indígena, um pouco "sofisticada", saída diretamente da floresta. Mas, em vez da ritual indígena, do "paganismo", Marina pertence à "Assembléia de Deus", Igreja evangélica que lhe concedeu, através de seus fiéis, um bom número de votos. Não suficientes, é verdade, para conduzirem a sua predileta ao segundo turno das eleições, mas fundamentais para fortalecerem a imagem da candidata. Outra porcentagem dos votos recebidos por Marina Silva está associada justamente à sua imagem "sacro-santa", que induz o eleitor a pressupor, nela, a moral, a ética, que tanto faltam à reputação pública do político em geral. E a última parcela do eleitorado de Marina é a dos que votaram por "protesto", escolhendo alguém diferente dos dois pólos partidários principais, PT-PSDB – porém, um protesto fundado na imagem da candidata e sua suposta moralidade.

O "fenômeno Marina" na reta final do primeiro turno foi fundamentalmente explicado pelo voto em uma "opção diferente" – o elemento "religioso", no entanto, que tanto contribuiu para a sua escalada, foi desprezado, uma vez que esteve "velado". Agora, no segundo turno das eleições, quando a religião é trazida a primeiro plano, verifica-se que ela esteve sempre presente. Permanece para robustecer a imagem de Marina Silva, cortejada pelos dois candidatos que permanecem na disputa, e é perpetuada no conteúdo dos debates entre os dois candidatos que disputam o segundo turno.

José Serra afirma, em tom de "acusação", que Dilma Rousseff, se eleita, irá legalizar o aborto – uma heresia sem perdão para os fiéis. A esposa do candidato participa da campanha, diz que Dilma é a favor de "matar criancinhas" [http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/monica-serra-dilma-e-a-favor-de-matar-criancinhas]. Em homilias e sermões, padres e pastores também "pregam". O debate passa a ser, não mais político, mas "teológico". Sob pressão, e temendo perder os votos da imensa comunidade religiosa, os candidatos julgam necessário afirmar suas crenças: uma aparece em foto, coberta por com um véu, sendo abençoada pelo o Papa [http://blog.missadesempre.com/2008/11/dona-marisa-e-dilma-rousseff-usando-vu.html]; o outro anda acompanhado, freqüentemente, de alguém que, além de recém eleito governador do maior Estado do Brasil, apresenta fortes evidências de pertencer à Opus Dei [http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,,EPT1107598-1664,00.html].

Dilma, foco dos "ataques", quer dizer, das "acusações", é chamada a afirmar, provar, publicamente sua fé, declarar abertamente suas crenças. José Serra exige, no primeiro debate televisionado do segundo turno, que Dilma afirme claramente a existência de Deus [http://videos.band.com.br/] – algo que seu padrinho político negou, e por isso teve maculada sua imagem pública. Dilma ganha, como testemunha de defesa um religioso, Frei Betto – amigos de infância, e companheiros, embora em alojamentos distintos, de cárcere, assegura o frei: Dilma é "pessoa de fé cristã", e não contrária aos "princípios evangélicos" [http://www.revistaforum.com.br/blog/2010/10/10/frei-betto-dilma-e-a-fe-crista/].

Esta breve, e precária, reconstrução do cenário da disputa pela cadeira presidencial pretende apontar a força da religião neste momento de decisão política. Contudo, não sob motivação carismática, e sim em tom de denúncia: o perigo de fazer das doutrinas de fé a autoridade suprema para decidir temas relevantes para a sociedade em geral – temas considerados "polêmicos", como o "aborto", a "união homossexual", e, inclusive, a pesquisas e utilização de células-tronco em tratamentos médicos. Compromissos têm sido firmados através de declarações públicas, "carta de intenções" - acordos estabelecidos apenas com autoridades religiosas sobre estas e outras questões. Medidas unilaterais que desprezam não só o bem-estar, a saúde, e a vida, das pessoas diretamente envolvidas com as questões "polêmicas", mas também ignoram o conhecimento científico. Este poder deve ser dado à religião? São, de fato, as autoridades religiosas, detentoras da autêntica moral, da ética, e também do conhecimento? Aliás, "crer em Deus" é pré-requisito para ser presidente do Brasil? A religião chancela definitivamente a reputação do indivíduo? O mal é cometido não só por partidos políticos, ou empunhando-se a bandeira da nação, mas também em nome de Deus. O velho dito espanhol, utilizado como metáfora religiosa, é um alerta pertinente neste momento, para evitar terríveis conseqüências futuras: "Detras de la cruz está el Diablo" (apud SCHOPENHAUER, 2000, PPII, p. 360).

Monday, July 26, 2010

Liberdade para escolher o próprio caráter?

Bruno Braga.




É sempre oportuno interrogar o próprio caráter: é um exercício de grande valia para, simultaneamente, examinar as idéias enraizadas na mente e as do imaginário popular – idéias muitas vezes confusas, vazias, sustentadas irrefletidamente.

Pensar a partir do caráter individual é uma escolha estratégica, sobretudo porque a imensa maioria das pessoas tem como certo que a personalidade, a essência interior, particular, é enformada pelo exterior – em outras palavras, o sujeito seria um produto do meio no qual está inserido: é moldado pela instrução dada pelos pais e pela educação ministrada pelas instituições de ensino; é formatado pelas circunstâncias históricas de uma época, as condições sociais e econômicas, pelos infortúnios e sucessos da vida particular, enfim, por tudo aquilo que o cerca e concorre para configurar o seu contexto. No entanto, seria no mínimo conveniente, para testar as duas vias possíveis de reflexão, questionar se de fato não ocorre o inverso, quer dizer, que o caráter subjetivo é pré-formado, dado a priori, e tudo aquilo que se coloca à sua volta, sob as condições do espaço, do tempo, serve apenas como estímulo para que a unidade essencial e interior possa emergir. Nestes termos, cada um carregaria, até o fim de sua curta e miserável existência, seu único e imutável caráter – embora incapaz de conhecê-lo previamente, ou de apreendê-lo por completo em uma só visada, o indivíduo é conduzido às escuras por seu núcleo primordial: o reconhece de forma opaca, turva, imiscuído em meio às atribulações de sua vida, da jornada hesitante, frustrada, que faz desmoronar gradativamente o imaginário daquilo que “acredita” ou ainda “espera ser”, recolhendo pistas consternadoras e brutais do que de fato é.

A contemporaneidade impõe dificuldades para pensar a aprioridade do caráter individual, e as diferenças previamente estabelecidas entre eles - talvez dois destes obstáculos sejam mais evidentes: o primeiro, a vida em uma sociedade de massa, na qual um padrão de existência precisa ser obedecido; o segundo, inerente ao anterior, na forma de uma compensação ilusória pela massificação, é um suposto respeito à diversidade e liberdade de escolha – porém, estes são dados em um plano superficial, importante, mas no nível dos trajes, da formação de grupos e “tribos”, na culinária, nas artes e manifestações culturais. Subjacente, no entanto, ao envoltório externo, aos adornos e atavios da aparência, o caráter, a moral individual, permanece protegido. A liberdade, pronunciada com orgulho pela contemporaneidade, neste fundo interior, obscuro, parece absolutamente estéril.

A livre escolha, diferente da imponência do discurso, agora se torna algo nebuloso, fantasmagórico. É colocada em cheque não apenas pela massificação da oferta do mesmo, no nível da exterioridade: até mesmo a tentativa de fuga da homogeneidade é inútil, restrita à superficialidade, sob a ameaça de ser meramente exótico. Então, a partir da proposta de conversão da análise, refletindo a partir da individualidade, é necessário lançar uma questão ainda mais radical – para além dos trajes, das opções de mercado, das inúmeras formas de divertimento, das artes e da cultura em geral, que conservam grande importância, mas não esgotam a existência – é preciso se perguntar: assim como se escolhe a cor da roupa, o prato e o sabor da refeição, o destino da viagem e a forma de diversão, é permitido escolher o próprio caráter, a personalidade individual, ou seja, a essência moral?

Wednesday, June 09, 2010

Reflexão ética II.


Bruno Braga.

 
É preciso pensar sobre a relevância de uma "reflexão ética" no interior dos paradigmas da técnica e do prazer – modelos que regem a vida cotidiana na contemporaneidade. Não se trata de exorcizar a busca por satisfação, ou o gozo; nem mesmo de condenar a utilização dos sofisticados aparatos tecnológicos. Tanto o prazer, como o usufruto de mecanismos que facilitam atividades rotineiras, que eliminam determinados inconvenientes da existência, são benefícios incontestáveis. No entanto, são elementos que, sozinhos, não preenchem completamente a vida, como se esforça a "propaganda" para persuadir, de forma apelativa. Um domínio reduzido a maquinarias, e indivíduos que simplesmente operam estas tecnologias, é, de forma paradoxal, estéril: porque, se produz instrumentos em escalas cada vez maiores, não fecunda a dimensão interior e subjetiva de seus operadores, atrofiada e repreendida pela execução robotizada de tarefas mecânicas. Por sua vez, um ambiente habitado por pessoas preocupadas apenas com o gozo estaria marcado: por um lado, pelo conflito generalizado, já que todos buscariam, de forma desmedida, a satisfação de seus desejos particulares; por outro, pelo profundo entorpecimento dos capazes de satisfazerem imediatamente seus desejos, atormentado pelo tédio, e alheios à presença do "outro". Ocorre que, embora o egoísmo seja algo "congênito", e por isso cada indivíduo permanece preso ao seu próprio mundo, o particular está interligado por uma "teia" de relações a "outros" semelhantes, às coisas, ao mundo, além de situar-se na história.

Sob as duas perspectivas mencionadas - a de um domínio simplesmente técnico, e a caracterizada pela busca cega por prazer - em ambas, seja considerado na relação consigo mesmo, ou na interligação com o mundo, o indivíduo aparece cindido: não apenas o externo, o "outro", lhe é estranho, mas, para si mesmo, é um desconhecido. Esta sensação de "estranhamento" pode ser uma abertura para o esforço de "compreensão" angustiado: "o que sou?"; "por que sou assim?"; "qual a razão destes eventos, destas fatalidades?"; "como devo agir?"; "o que devo esperar?" – questões clássicas entre as ponderações filosóficas. No entanto, não são problemas restritos às altas elucubrações dos pensadores catedráticos, e perpassam sim, independentemente da sofisticação conceitual, a mente de qualquer pessoa. Esta obscuridade estimula, no interior do próprio indivíduo, uma tentativa de "compreensão" de si e do mundo, do seu interior sombrio e o "outro" estranho. Seria este, então, o domínio da "reflexão ética", enquanto o intermediador entre a individualidade e a exterioridade. Ocorre que este tipo de "reflexão" não oferta fórmulas certas e fáceis para um enigma que parece indecifrável, mas se faz no "esforço" de "compreensão" intelectual para agir no mundo – entender as dimensões da "realização", da "satisfação", do viver "com-o-outro", "conviver". Algo que o maquinário tecnológico e a busca desenfreada por prazer não respondem.

 

 

Sunday, May 16, 2010

Reflexão ética.


Bruno Braga.

 

 
A reflexão ética não pode afastar de seu arcabouço a dimensão exterior da existência, isto é, as relações "comunitárias" . Porque o domínio ético envolve não apenas a intimidade subjetiva, mas também a "convivência" com o "outro" – estes dois elementos, o íntimo e o público, estão em uma relação indissociável: o indivíduo está inevitavelmente inserido em um meio comunitário, que de algum modo lhe afeta; por sua vez, a comunidade é formada por inúmeros indivíduos, cada um deles com seu caráter, sua índole e temperamento peculiares. Sendo assim, uma ética que dispense qualquer destes elementos é uma reflexão mutilada.

Pôr de parte o público, o comunitário, é distanciar do indivíduo algo que é de seu próprio "interesse" – pois a ética envolve sim "interesses", e por isso precisa incluir na balança, ainda que por pura ambição particular, a dimensão exterior da existência. No entanto, o ético nem sempre carrega consigo a moralidade, já que a simples presença do "interesse" a obsta completamente – "moral" e "interesse" são pólos opostos: porque na atitude moral não há qualquer interesse individual em jogo, quer dizer, não há bem-estar, propriedade, e nem mesmo o apego à própria vida, que impeçam o acolhimento do "outro". Atitude reconhecida no desprendimento, no desapego, dos santos e místicos de todas as religiões, e, para além da excepcionalidade, nos "heróis anônimos" do cotidiano, que se arriscam, sem hesitação, para salvar o desconhecido do perigo. O sentimento ilimitado da moralidade supera o egoísmo inato e congênito que faz da existência uma busca desmedida por satisfação, prazer, e minoração do sofrimento perene. Porém, são justamente estes fatores que compõem a base da reflexão ética: ampliados da dimensão particular para a pública, para a "comunidade" – discute-se a satisfação, o prazer e a diminuição dos sofrimentos em relação à vida comum, à convivência.

A ética, assim colocada, é uma espécie de "egoísmo generalizado". Isto, por sua vez, não diminui em nada suas vantagens e benefícios – pelo contrário, pois, por levar em conta os interesses apontados, estende-se a todos. Em uma análise superficial primeira, o elemento universal da ética, diferente da moral, não seria a "essência" do mundo - o núcleo compartilhado entre tudo e todos que, para além da aparência do particular, é uno - mas o "interesse" comum: uma tentativa de refrear o egoísmo congênito e permitir relações menos tensas entre os homens, conter sua agressividade essencial, e tornar sustentável o mundo natural em que vivem. Uma reflexão, posta unicamente sob esta perspectiva, não poderia estar fundada na "transcendência" moral, na "identificação" com o "outro", na sensibilidade para com o sofrimento animal, ou a comunhão com a natureza. Porque a própria discussão abstrata - como a reflexão ética – utilizando-se de generalizações como "comunidade", de artificialidades conceituais, impede a imediatez e intuitividade do sentimento moral.

De qualquer forma, qual o prejuízo, a princípio, da ausência da moralidade para a reflexão ética e seus desdobramentos normativos? Parece que o transtorno se dá pela perda de uma envoltura "nobre", a "estética" do sentimento de renúncia, do amor universal, ou seja, da própria moral. Este prejuízo, longe de ser a perda de algo essencial, é, antes, preciosismo e vaidade. Assumir que a ética para uma comunidade é um "egoísmo generalizado" já seria um ato de honestidade, e por isso, "ético". Porque se a discussão pretende estabelecer normas, regras, princípios, leis, o elemento fundamental é o "interesse": os interlocutores, tendo como pano de fundo a satisfação, o prazer e a minoração dos sofrimentos, decidem sobre a proteção de seus "interesses comuns". O moral, por sua vez, refere-se a algo outro: não dogmático, não abstrato, mas intuitivo, súbito e imediato – por isso a moralidade é um problema do próprio indivíduo, e não do público. O que não o impede de transitar moralmente entre as regras de convivência, desde que a partir de sua experiência intuitiva, imediata e "vivida": qualquer abstração posterior é secundária e artificial.

A reflexão ética necessita ampliar seu espectro: não restringir-se a ambições particulares, mas incluir os "interesses" da comunidade na qual o próprio indivíduo está inserido, ou seja, a particularidades deste grupo, suas relações internas e externas, sua história, e também as individualidades dos que a formam - ponderar não apenas a polaridade entre o individual e o comunitário, mas interação ininterrupta entre ambos. Isto gera, por conseguinte, uma auto-reflexão sobre a própria ética. Porém, colocar a questão ética sob o invólucro da moralidade, ou seja, sentimento, amor universal, identificação com o "outro", apenas para mobilizar a comunidade, tem um alcance limitado. Porque a abstração da discussão obsta a experiência imediata do moral, a intuição, a "diluição" do indivíduo no mundo. No domínio da abstração, do debate conceitual, trata-se da ponderação de "interesses". Portanto, se o propósito é mobilizar, estimular a "convivência" respeitosa, discutir abertamente os "interesses" parece ter uma capacidade mais efetiva. Em uma discussão deste caráter, a particularidade, o interesse privado, em função do "egoísmo congênito", é o que há de mais próximo, imediato, ou seja, é o que está enraizado no coração do sujeito, e o que lhe fala mais alto. Por sua vez, fundamental, em um debate ético sob este ângulo, é esclarecer a necessidade de ampliar este egoísmo particular para a comunidade, ou seja, tornar claro que, a vida em comum, para preservar o bem-estar, possibilitar a realização das ambições pessoais, e mitigar a miséria da existência, precisa de princípios reguladores. A "convivência" seria a recompensa para quem segue as regras, e a punição certa a reação imediata para aqueles que as descumprem. Resta, no entanto, uma dificuldade que mesmo a regulamentação é incapaz de eliminar: a definição dos "bens essenciais" a serem protegidos – porque a legislação orienta relações civis, penais, administrativas, mas o faz sobre um solo fundamental, que interconecta tudo e todos. Aqui se faz necessário o elemento moral: não sob invólucros artificiais, estéticos, abstrações vazias, e sim o reconhecimento da unidade subjacente à pluralidade, da essência, não apenas da comunidade, mas do mundo. Reconhecer estes bens em meio às tumultuadas relações entre as pessoas é um evento excepcional, definitivamente moral – algo que se passa no domínio particular.

O problema para a ética não é primeiro transformar o mundo, mas antes "construir" o indivíduo. O domínio exterior, através do qual a multidão se espalha por todos os cantos, é a dimensão da multiplicidade, onde inúmeros caracteres se amontoam em uma busca cega e desenfreada pela satisfação de suas ambições. O controle que se tem desta imensa diversidade é completamente precário: os costumes, a religião, as leis, são açaimos frágeis para conterem animais sedentos. Além disso, seria o caso de se questionar a pretensão, ou melhor, a vaidade, daquele que acredita ter legitimidade para ditar a todos as suas regras particulares, tendo, assim, a comunidade sob sua tutela. Por outro lado, o indivíduo tem de si uma proximidade maior que em relação aos "outros" – não de maneira simples e inocente, já que há sempre um resquício de obscuridade que impede o sujeito de obter um autoconhecimento límpido. Mas é o "esforço" mesmo o seu único, e maior, consolo enquanto tentativa de compreender seu caráter individual. Embora este núcleo não dependa de seu arbítrio, compreendê-lo, e de alguma forma, arranjá-lo à própria imagem refletida, e às relações com os "outros", é uma tentativa de "construção" de si mesmo.

Para que esta posição não seja acusada de um individualismo absoluto, é preciso dizer: a compreensão de si envolve também a do "outro". É uma espécie de espelhamento, cujo reflexo revela a essência de ambos – angústia, sofrimento, dor e miséria. Ainda que as personalidades, comportamentos, enfim, os caracteres sejam diversos, o núcleo padecente é comum a todos – porque é o que resta, ao eliminar todos os traços particulares, não importando o que o indivíduo é ou o que ele tem. Por isso, na medida em que se escava para além das particularidades, no fundo obscuro do recolhimento interior, se revela, ao mesmo tempo, a essência do mundo – este desvelamento é já o domínio da moral. A ética, por sua vez, é o "esforço" para manter-se na trilha da compreensão. Não tem o destino como único alvo: porque ao longo do árduo e penoso caminho inúmeros frutos são recolhidos, "acolhidos": elimina-se, gradualmente, as diferenças, aproximando o "outro" até então distante, afastado.

Nestes termos, o compromisso consigo mesmo é, desde já, um envolvimento com o mundo – não se trata simplesmente de transformar o exterior, mas descobrir o que cada qual reserva em seu interior, o núcleo comum a todas as individualidades. Construção de si mesmo é um esforço de edificação, mas ao mesmo tempo de aniquilamento. As tentativas de compreensão, estudos, experiências, escolhas destroem modelos assumidos irrefletidamente - ao mesmo tempo em que tencionam com a deterioração do corpo, em direção à morte. Embora qualquer "esforço" seja, em última instância, um fracasso antecipadamente anunciado, este parece ser o único compromisso digno diante da miséria da vida: o compromisso consigo mesmo, que é, essencialmente, um envolvimento com o "outro" e com o mundo, base para uma "ética comunitária".