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Wednesday, October 26, 2011


O risco de freqüentar a posição de contra-exemplo é tornar-se um mau-exemplo.
Bruno Braga.



Em outro momento observei o valor do contra-exemplo para demonstrar a inaplicabilidade de uma hipótese [1]. Porém, é preciso acrescentar àquela consideração: um autor que constantemente figura na posição de "contra-exemplo", por insistir em teses refutadas, está sob a ameaça de tornar-se um autêntico "mau-exemplo". Pois é esta, justamente, a condição de Dimas Soares Ferreira. Suas concepções já foram contestadas algumas vezes, sem que da sua parte houvesse qualquer objeção [2]. Mas, o nobre articulista é um intrépido colosso. Com ares de vitalidade e indiferença, com um olhar revolucionário, fixo no horizonte, Dimas continua sua atividade de militância – ou permanece em um peculiar estado de delírio provocado por seus ideais.

Para redigir o seu artigo mais recente, "Ocupemos Wall Street" [3], Dimas Soares parte de um de seus antigos escritos, "Ande como um egípcio" [4]. Isto quer dizer que o articulista reafirma suas concepções [5]. Porém, no intervalo entre a primeira e a mais recente publicação, o mundo foi surpreendido por alguns eventos. Então, seria pertinente examinar os artigos de Dimas Soares para verificar se estas ocorrências não comprometem a sua insistência em determinadas teses – uma análise que pode ser útil também como instrumento de avaliação das hipóteses do autor, e um exercício de compreensão dos fatos.

§1. Ainda "como um egípcio".

Passados alguns meses desde a publicação do seu artigo "Ande como um egípcio", Dimas Soares continua comemorando a vitória dos árabes sobre o que chama "monarcas e ditadores teocráticos fundamentalistas". Ele enaltece a iniciativa dos insurgentes, que se uniram em convocações feitas através das redes sociais na Internet. Alertei o articulista para o fato de que não havia espontaneidade, nem nas convocações, nem nas próprias manifestações públicas egípcias. Os protestos eram orientados, inclusive, com um "Manual dos Manifestantes do Egito" [6]. Além disso, adverti Dimas Soares que a "Irmandade Muçulmana" estava por trás destas rebeliões – uma organização que tem uma origem obscura; no seu histórico há o registro de colaboração com o Nazismo, e hoje tem ligações estreitas com grupos terroristas, como o "Hamas".

O presidente egípcio Hosni Mubarak não suportou as pressões, e renunciou. Porém, a violência contra cristãos foi intensificada, Igrejas foram incendiadas e fiéis foram assassinados – tudo com a conivência das autoridades "revolucionárias" [7]. A então chamada "Primavera árabe" transformou-se em um "Inverno cristão". Surpreendentemente, em um artigo que celebra a queda de "monarcas e ditadores teocráticos fundamentalistas", como o de Dimas Soares, não há uma só referência a estes trágicos episódios. Pelo contrário, o articulista continua "andando como um egípcio" – talvez com o uma túnica, turbante e babuchas de couro, à moda "multiculturalista" - e celebrando a ascensão da "Irmandade Muçulmana". Ora, Dimas Soares poderia esclarecer o que o levou a não considerar a perseguição contra os cristãos em seu artigo – porque, se ele desconhece estas ocorrências, seria uma oportunidade para emendar o seu texto e corrigir os erros e equívocos aos quais todos nós estamos sujeitos; agora, se ele tinha ciência dos fatos, é necessário justificar a sua cumplicidade com os atos de violência, com a matança de cristãos no Oriente.

§2. Andando agora como os jovens ingleses.

Dimas Soares é realmente um revolucionário multiculturalista. Anda não só como um egípcio, mas também como um jovem rebelde londrino – agora, quem sabe, como um punk, com cabelo moicano, calça jeans rasgada e coturno.

O articulista faz referência aos "manifestos e rebeliões" na "comportada" Inglaterra, que descambaram para a violência depois das brutais ações da polícia (as aspas reproduzem as suas próprias palavras). Acontece que se passou justamente o contrário da descrição fornecida por Dimas Soares: o governo britânico foi acusado de negligenciar os protestos, demorando a intervir e conter a baderna.

Agora, será que as manifestações foram realmente "rebeliões populares" como quer fazer parecer o articulista? É possível traçar o perfil dos "rebeldes" a partir daqueles que foram detidos. Entre eles estão estudantes de universidades de elite e pessoas que pertencem a classes mais abastadas [8]. Mas o filósofo inglês Roger Scruton pode fornecer uma descrição mais precisa dos "manifestantes populares" de Dimas Soares:

"Os baderneiros de Londres são, pelos padrões do século XVIII, ricos. Desculpe-me, mas é resultado de exclusão depredar uma cidade porque você tem só um carro, um apartamento pequeno pelo qual não paga aluguel, recebe mesada do governo sem ter de fazer nada para embolsá-la, compra três cervejas, mas gostaria de beber quatro, e acha que ter apenas um televisor em casa é pouco? Não. Ver exclusão nesses episódios só faz sentido na cabeça de um professor de sociologia" (Roger Scruton em entrevista concedida à Revista Veja de 21 de Setembro de 2011, p. 17).

Esta "exclusão" faz sentido na cabeça de um professor de sociologia e na cabeça de Dimas Soares.

Ademais, os manifestantes londrinos, segundo a descrição de Scruton, poderiam ser considerados "patricinhas" e "mauricinhos" – tipos que o articulista do portal "Barbacena Online", na sua dissertação "Ocupemos Wall Street", condena por protestarem contra a corrupção no Brasil.

Não sei qual o perfil dos manifestantes brasileiros, mas este tipo de argumentação invoca a desconfortável imaturidade juvenil, que resume todos os seus conflitos afetivos com o brado: "é coisa de playboy!" Mas Dimas Soares tem um estimulante a mais para a sua rebeldia adolescente: a sua obsessão pela "luta de classes". Para o articulista, protestos de "patricinhas" e "mauricinhos" não têm legitimidade, porque todos, todos eles, são "filhinhos de papais" que assaltam, que exploram o "povo", o "proletariado" – eles não fazem parte da "sociedade".

Um momento, um momento... Ocorre-me uma ligeira dúvida: será que Dimas Soares condena os protestos de "patricinhas" e "mauricinhos" contra a corrupção porque eles denunciam os ídolos, os correligionários e aliados do articulista? Quem sabe...

Para Dimas Soares, o nobre articulista e púbere rebelde barbacenense, não se deve combater a corrupção, mas o "sistema". Ele, de fato, é um autêntico revolucionário: quer mesmo é subverter o "sistema". E este tem sido mesmo o seu trabalho enquanto "Intelectual". Dimas pretende derrubar o "sistema capitalista" para instaurar o que chama "verdadeira democracia", possível apenas com a "socialização de todos os meios de produção", diz ele. Mas, por trás desta promessa de "futuro maravilhoso" está a sombra do Socialismo-comunismo, e a concentração do poder nas mãos do seu grupo, e do seu "Partido".

§3. Dimas convoca: "Ocupemos Wall Street!"

O "revolucionário" juvenil, inimigo de "patricinhas" e "mauricinhos", conclama: "Ocupemos Wall Street!" Para arregimentar novos militantes para a sua causa, Dimas relaciona os "espíritos nobres" que apóiam a manifestação, como Michael Moore. Ora, a presença do diretor de um documentário que é uma falsificação criminosa, já dá conta do tipo de credibilidade que tem esta manifestação [9].

De qualquer modo, é preciso verificar quem está, de fato, por trás do protesto "Ocupando Wall Street". O articulador é um aliado do presidente americano Barack Obama, chamado Stephen Lerner [10]. Obama exige que os "ricos" paguem mais impostos – uma idéia que Dimas Soares certamente compartilha com Obama, pois sugere a sua obsessiva "luta de classes". Acontece que, ONG's que participam do protesto são alimentadas pelo capitalista George Soros, e contam com a simpatia do multimilionário Warren Buffet. Dimas Soares não sabe que estes protestos têm o suporte de capitalistas? Lógico que sabe. Porque esta é uma estratégia historicamente utilizada por Socialistas-comunistas – os capitalistas aliados são privilegiados pelo "regime" enquanto, simultaneamente, fortalecem o "Partido". É o que está acontecendo no Brasil governado pelos correligionários do articulista.

Ademais, a crise americana tem origem única e exclusivamente no sistema financeiro – em "Wall Street" – ou no Capitalismo, como acusa Dimas Soares? Não. Embora alguns dos grandes bancos não estejam isentos de culpa, a crise americana teve início no Governo, com determinações decisivas a respeito dos créditos "subprime" na administração do "liberal" Bill Clinton – "liberal", nos Estados Unidos, é o mesmo que "esquerdista".

§4. Para concluir.

Diante do exposto, as hipóteses de Dimas Soares são nitidamente deficientes. Erros e equívocos foram apontados quando o articulista havia redigido "Ande como um egípcio" [11]. Mas, desconsiderando as advertências, ele insistiu em suas teses, reafirmadas na nova dissertação, "Ocupemos Wall Street". Acabou desmentido pelos desdobramentos dos fatos, sobretudo com a trágica matança de cristãos no Egito.

Os tropeços de Dimas Soares não são conseqüência apenas de uma possível displicência investigativa. Eles são o resultado de uma distorção dos fatos – ou premeditada ou psicótica - que pretende servir como peça panfletária de uma ideologia, de um grupo, de um "Partido". São, também, um brado púbere juvenil de um inimigo de "patricinhas" e "mauricinhos", que reclama a atenção da mídia para a sua causa. Para ele as notícias que circulam todos os dias nos veículos de comunicação não são suficientes suprir a sua carência adolescente. Como um rebelde mimado, ele exige não só que a mídia seja simpática aos seus ideais, que lhe dirija palavras de conforto e apoio, e noticie única e exclusivamente as suas bandeiras. O carente revolucionário juvenil, Dimas Soares, quer toda a mídia para a sua turma, para o seu grupo. 

Notas.

[1] BRAGA, Bruno. “Família do ‘Novo Milênio’?”. http://dershatten.blogspot.com/2011/08/familia-do-novo-milenio-bruno-braga.html
[3] Portal “Barbacena Online”, 16 de Outubro de 2011. http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=7228&inf=100
[4]  Portal “Barbacena Online”, 17 de Abril de 2011 - http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=5949&inf=100
[5] Levantei algumas objeções ao artigo “Ande como um egípcio”, que podem ser conferidas em “Novo comentário”, com o link indicado na nota ii.
[6] Cf. “Dois comentários”, com o link indicado na nota ii..
[9]  O documentário “Farenheit 9/11”, ainda celebrado no Brasil, é reduzido a pó por Christopher Hitchens, no artigo “Unfairenheit 9/11 – The Lies of Michael Moore” (em uma tradução livre, “As Mentiras de Michael Moore”) [http://www.slate.com/articles/news_and_politics/fighting_words/2004/06/unfairenheit_911.single.html].
[10]  Para quem desejar conferir o “modus operandi” do “terrorismo” contra o sistema financeiro nas palavras do seu próprio autor, acesse http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=FsZECfIGGeA#!.
[11] E também quando publicou o artigo “Uma revolução no rumo da democracia”. Dimas E. Soares, portal “Barbacena Online”, 27 de Fevereiro de 2011 [http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=5598&inf=3]. As críticas estão em “Dois comentários” [http://dershatten.blogspot.com/2011/03/dois-comentarios.html].

Friday, October 14, 2011

Nos arquivos soviéticos, uma memória do Brasil.


Bruno Braga.

 
Vladimir Bukovsky é um nome praticamente desconhecido no Brasil. A omissão não se deve somente a mais um típico caso brasileiro de desprezo pelo conhecimento; ela atende também a uma estratégica orientação editorial político-ideológica. Este expediente, no entanto, denunciado no momento em que é celebrada a perspectiva de instauração de uma "Comissão da Verdade" - que será encarregada de apurar violações de direitos humanos, sobretudo os supostamente ocorridos durante o período do regime militar - revela-se mais que um mero descaso, supera a absoluta ignorância, o jogo político ou a batalha de idéias: é o desrespeito mais cretino e canalha com a própria verdade.

O valor dos relatos de Bukovsky estaria assegurado pela descrição das barbaridades e horrores de um regime totalitário. Eles são a transcrição de doze anos de experiências terríveis e angustiantes em prisões, campos de trabalho, e "psikhuskas" – unidades psiquiátricas para a internação e tratamento forçado de presos políticos – comunistas. Porém, o trabalho do dissidente soviético não se resume a estes relatos – a sua atuação em um evento específico na Rússia pode contribuir para revelar uma parte da história do Brasil que, por medida política ardilosa, está sendo suprimida.

No ano de 1992, após a dissolução da União Soviética, Boris Yeltsin fora processado pelos comunistas na Corte Constitucional russa – o objetivo era fazer com que a Corte julgasse a medida do antigo Presidente, que baniu o Partido Comunista em Agosto de 1991. Sob o risco de perder o processo, agentes de Yeltsin contataram Bukovsky – a colaboração de um dissidente com uma longa trajetória de ativismo e denúncias contra o regime comunista seria preciosa. Bukowsky, por sua vez, via neste processo uma oportunidade para desenterrar publicamente o histórico de atividades criminosas do Comunismo – porém, para fornecer o seu testemunho, impôs uma condição: o acesso aos arquivos soviéticos. O acordo foi selado. Contudo, Bokovsky teria à sua disposição apenas documentos que guardassem alguma relação com o processo em curso, e somente durante o tempo que durasse o entrave judicial. Sob estas condições Bukovsky recebeu o status de "expert" – perito, especialista – perante a Corte Constitucional da Federação Russa.

Bukovsky não atuou no processo judicial apenas como "expert". Ele copiou secretamente parte dos documentos aos quais teve acesso. Foram centenas de páginas de registros, incluindo documentos ultra-secretos, capturadas por um laptop equipado com um scanner de mão. No entanto, o material reunido e os desdobramentos do processo junto à Corte Constitucional, revelariam que a sobrevivência do Comunismo não fora obra do acaso. A decisão da Corte, ainda que ratificasse a proibição dos órgãos dirigentes do Partido Comunista, abria a possibilidade para seus membros formarem novos partidos, por permitir o funcionamento dos órgãos de base. Além disso, os comunistas permaneciam no poder em nações do antigo bloco de Varsóvia, ao mesmo tempo em que contavam com a influência de seus antigos colaboradores ocidentais, que em posições de influência ao redor do mundo, se esforçavam para que as atividades criminosas do Partido fossem ocultadas, de modo que ninguém se comprometeria. A expectativa de Bukovsky, de ver os beneficiários do regime comunista julgados pelas barbaridades que cometeram – como o foram os beneficiários do nazismo – acabou frustrada. Porém, o seu trabalho não foi em vão, porque os documentos copiados por ele ajudam a reconstruir não apenas a história do regime soviético, mas preenchem as memórias de muitos países, entre eles o Brasil. Por isso poderiam perfeitamente compor os trabalhos da "Comissão" que pretende estabelecer a "verdadeira" história nacional.

Em documento de Maio de 1974, Luis Carlos Prestes solicita ao Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética que certo "Leonardo Leal" fosse recepcionado em Moscou, e recebesse um curso de "operações especiais". O Comitê não apenas cuidou da recepção, mas custeou o curso "especial de preparação na atividade da técnica do partido" (Cf. Doc. 906. Original russo: http://www.bukovsky-archives.net/pdfs/terr-wd/ct125-74.pdf - Tradução em inglês: http://www.bukovsky-archives.net/pdfs/terr-wd/0906_ct125-74-Eng-FUchs.pdf).

Em outro comunicado Prestes é mais explícito. Ele solicita aos soviéticos um treinamento em "atividades clandestinas" para um camarada de nome "Marcelo Santos". A solicitação foi aceita pelo Partido, que definiu o treinamento como "curso especial de treinamento em atividades clandestinas e fraude" (Cf. Doc. 929. Original russo: http://www.bukovsky-archives.net/pdfs/terr-wd/ct137-78.pdf - Tradução em inglês: http://www.bukovsky-archives.net/pdfs/terr-wd/0929_ct137-78-Eng-gskl.pdf).

Estas são algumas amostras dos documentos recolhidos por Bukovsky, que estão sendo traduzidos gradativamente do russo - os resultados podem ser acessados no site "Soviet Archives" [http://www.bukovsky-archives.net/]. O material disponível, somado a outras fontes de pesquisa, revelam que as atividades do Partido Comunista soviético no Brasil – e em países sul-americanos, como Argentina, Uruguai, Colômbia, Equador, Paraguai – não eram apenas delírios da imaginação de militares e conservadores. Os documentos de fonte primária desmentem a autovitimização de militantes, terroristas e "Intelectuais" engajados ou simpatizantes, que querem fazer da sua versão a História oficial de um país. Aceitar a narrativa deles é apagar da linha do tempo a tentativa de implantação de um regime comunista no Brasil - é suprimir as investidas armadas, os treinamentos em atividades clandestinas e em fraudes; é esquecer os atentados terroristas que vitimaram vários civis inocentes e os "tribunais revolucionários" que sentenciavam a penas capitais, sem direito de defesa, até os próprios "camaradas". Um público que se vangloria com uma história mutilada e a chama de "Verdade" já não sabe mais o que quer dizer, o que significa, "Verdade".

 

(*) Nota sobre a seriedade e lisura da "Comissão da Verdade".

O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) é o relator, na Comissão de Constituição e Justiça, do projeto de lei que cria a "Comissão da Verdade" [http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2011/10/10/interna_politica,255234/aloysio-e-confirmado-relator-da-comissao-da-verdade.shtml]. No entanto, Aloysio Nunes fora um terrorista da "Ação Libertadora Nacional" (ALN) nos tempos do regime militar. Utilizava os codinomes "Beto" e "Mateus". Entre as suas ações estão os assaltos ao trem pagador na ferrovia Santos-Jundiaí e ao carro-pagador Massey-Fergusson, em Pinheiros, São Paulo – ambos em 1968.

Caso seja aprovada a instauração da "Comissão", depois de percorrer o processo legislativo necessário, os seus membros serão indicados por "Estela", quer dizer, "Luiza", ou melhor, "Patrícia", isto é, "Wanda" – enfim, por Dilma Rousseff, a Presidente da República, que em suas atividades clandestinas no POLOP (Política Operária), no COLINA (Comando de Libertação Nacional) e na VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares), atendia pelos codinomes citados.

Thursday, October 06, 2011

Reiterando um pedido.

Bruno Braga.


 

Em mensagem publicada no dia 29 de Setembro de 2011, intitulada "Contra os 'filtros da internet': um filtro" [http://dershatten.blogspot.com/2011/09/contra-os-filtros-da-internet-um-filtro.html], reproduzi um comentário que redigi e enviei para o portal "Barbacena Online", referente ao artigo de Dimas E. Soares Ferreira, "A internet e seus filtros" [http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=7101&inf=100]. Neste texto o autor se mostra indignado, escandalizado, com os "filtros" promovidos por sites como o Google, o Facebook e o Yahoo. Meu comentário era um modesto e singelo pedido de esclarecimento para que o articulista discorresse sobre os "filtros" promovidos pelo próprio portal que publicou o seu artigo, o "Barbacena Online". Isto porque o Conselho Editorial do portal analisa previamente os comentários referentes aos textos e publica apenas aqueles que são "aprovados" pelos seus integrantes. Amostras de comentários "reprovados" - ou "filtrados", para utilizar a terminologia de Dimas Soares - podem ser acessadas no link da mensagem indicado acima. Porém, aquela lista precisa ser atualizada com mais um exemplo.

Em um artigo publicado no site "Barbacena Online", sob o título "Loco Abreu e o João Sorrisão" [http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=7148&inf=100], entre outros temas - como a crítica futebolística, a educação superior, e questões metafísicas – Francisco Ladeira escreve com repulsa e aversão contra "a manipulação dos meios de comunicação de massa", que asfixia a "opinião própria" e reprime qualquer "postura crítica e racional frente à realidade", fomentando socialmente o "instinto de rebanho" nietzschiano (as expressões que aparecem entre aspas são do próprio Francisco. Cf. artigo citado). Francisco Ladeira denuncia o enorme poder dos órgãos de mídia, sobretudo o da Rede Globo de Televisão. Sendo assim, não poderia deixar de reiterar o meu pedido de esclarecimento - o mesmo feito a Dimas Soares -, adaptado, porém, à redação de Francisco: as "opiniões próprias" e a "postura crítica e racional frente à realidade" não ficariam comprometidas com as intervenções promovidas pelo Conselho Editorial do portal "Barbacena Online"?

Este humilde e singelo pedido de esclarecimento foi enviado para o site supra citado no dia 02 de Outubro de 2011, que, como das vezes anteriores, não o publicou – diria Dimas Soares que o pedido foi "filtrado". Sendo assim, adoto o mesmo expediente de outrora: reproduzo em caracteres itálicos, logo abaixo, a mensagem não publicada pelo portal de notícias "Barbacena Online"; e informo os que nela foram mencionados sobre a sua publicação neste Blog, abrindo-lhes espaço - para o Conselho Editorial do site "Barbacena Online" e para os articulistas – para que, ou esclareçam a minha angustiante questão, ou que se pronunciem da maneira que eles mesmos julgarem conveniente.

***

Deixando para outra oportunidade a discussão sobre alguns temas tratados ao longo da dissertação – como a crítica futebolística, educação superior, e as questões metafísicas – focalizo outros, como o do poder de um órgão de mídia, a questão da "opinião própria" e a da postura crítica e racional frente à realidade.

Demarcados os temas, então, reitero o mesmo pedido de esclarecimento feito na semana anterior, em um comentário referente ao artigo publicado pelo portal de notícias "Barbacena Online", redigido por Dimas E. Soares Ferreira e intitulado "A internet e seus filtros" [http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=7101&inf=100] – o comentário não foi publicado pelo portal, mas está disponível no Blog "Der Shatten" [Cf. "Contra 'os filtros da internet': um filtro. http://dershatten.blogspot.com/2011/09/contra-os-filtros-da-internet-um-filtro.html]. Seria extremamente esclarecedora a "opinião" do articulista Francisco Ladeira - que denuncia a "manipulação dos meios de comunicação de massa" e o seu asfixiante poder opressor, capaz de desencorajar qualquer pensamento crítico e "opinião própria" para estimular o "instinto de rebanho" nietzschiano – sobre o expediente adotado pelo do Conselho Editorial do próprio site que publicou o seu artigo. Conselho este que analisa previamente os comentários a respeito dos artigos, mas publica apenas os que são "aprovados" pelos seus responsáveis – exemplos de comentários "reprovados" podem ser lidos no link do Blog "Der Shatten" indicado acima. De que maneira, Francisco, ficam comprometidas as "opiniões próprias" e a "postura crítica e racional frente à realidade" com esta intervenção promovida pelo Conselho Editorial do portal "Barbacena Online"?

Cordialmente,

Bruno Braga.

Belo Horizonte, 02 de Outubro de 2011.


 


 


 

Sunday, October 02, 2011

A lucidez dos momentos traumáticos.


Bruno Braga.

Por mais paradoxal que possa parecer a idéia em um primeiro instante, um dos canais para que o homem atinja um efêmero estado de lucidez é aberto pelas situações extremas da vida, aquelas excessivamente traumáticas e de um sofrimento absurdamente radical. Este tipo peculiar de lucidez não é um estado de pleno exercício da razão, de perfeita descrição conceitual e lógica do fato – é uma lucidez modesta, sem os adornos e floreios das abstrações; porém, precisa e direta, em um reconhecimento pleno. É quando o sujeito é arrancado violentamente de sua existência cotidiana, da sua rotina ordinária, por um evento excepcional e terrível que retira sob seus pés o apoio e o suporte; que destrói, indiferente, as suas concepções, crenças, esperanças e expectativas mais valiosas; que revela a face infame e detestável dos seus ídolos e das pessoas que mais estima – no instante em que as ilusões são impiedosamente arruinadas e destroçadas, as máscaras retiradas, e os véus suspensos, então o mundo, a vida e o coração do ser humano se revelam, e o sujeito padecente pode atingir a simples lucidez do reconhecimento: "é assim".

A desgraça, o tormento e o infortúnio são como o pesado e imponente navio que singra o oceano aberto da vida, mas que com a sua afiada proa o talha – com isso revela ao tripulante da desgovernada embarcação o que se esconde sob as águas.

Porém, por trás do devastador navio, no rastro da sua popa, a fenda aberta aos poucos se fecha, e a imensidão oceânica refaz a sua unidade. Então o indivíduo retoma a sua vida ordinária, a sua rotina cotidiana, e com ela reconstrói as ilusões, se apega novamente aos desejos mais infames, sustenta e defende as idéias mais absurdas e imbecis. No tumulto do mundo ele já quase não se lembra do que presenciou, do que viu e reconheceu – da lucidez nefasta à insanidade consonante, acredita inocentemente, mais uma vez, estar nesta última o fundamento sólido de sua existência e de suas certezas.

 

Thursday, September 29, 2011

Contra os "filtros da internet": um "filtro".

Bruno Braga.


 

Logo abaixo publico – gravado em caracteres itálicos - um breve comentário que redigi e enviei para o portal de notícias de Barbacena, "Barbacena Online" [www.barbacenaonline.com.br]. Trata-se mais de um pedido de esclarecimento do que de um comentário propriamente dito, elaborado a partir da leitura do artigo de Dimas E. Soares Ferreira, intitulado "A internet e seus filtros" ["Barbacena Online", 24 de Setembro de 2011 - http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=7101&inf=100].

No texto indicado o articulista se pronuncia indignado contra os "filtros da internet", promovidos por sites como o Google, Facebook e o Yahoo. Ele reivindica uma "ética calcada na democratização das informações", pleiteando ainda que estes e outros portais sejam estruturados a partir de um "senso de vida pública, de responsabilidade cívica e transparência".

Acontece que o próprio portal que publicou o artigo de Dimas Soares promove certo tipo de "filtro": os comentários enviados para o site "Barbacena Online" passam por uma análise prévia do Conselho Editorial, que posta apenas os textos "aprovados" pelos responsáveis. Na mensagem abaixo indico exemplos deste expediente: alguns comentários que eu mesmo redigi, referentes a outros artigos de Dimas Soares, e que foram "filtrados". Sendo assim, seria fundamental um pronunciamento, tanto de Dimas Soares quanto do responsável pelo Conselho Editorial do site "Barbacena Online", para esclarecerem esta sutil contradição: um articulista que escreve indignado sobre "filtros da internet", em um portal que promove "filtragens".

A mensagem postada abaixo não foi publicada pelo portal "Barbacena Online". Então, encaminhei ao site outro pedido de esclarecimento, a respeito da não publicação do comentário e solicitando, no caso de "reprovação" do texto pelo Conselho Editorial, a informação dos "critérios utilizados para o julgamento e, conseqüentemente, para fundamentar a reprovação". Não obtive qualquer resposta – e, por isso, posto aqui o comentário "filtrado" para o leitor interessado na questão.

***

Dimas Soares Ferreira mostra-se escandalizado com os "filtros da Internet". Então, seria extremamente esclarecedor que ele se pronunciasse a respeito das "filtragens" promovidas pelo Conselho Editorial do site "Barbacena Online" sobre os comentários referentes aos artigos de sua própria autoria - o Conselho este que analisa previamente os comentários enviados ao portal, mas publica somente os que passam por um certo "filtro".

Para o leitor interessado, exemplos de comentários sobre os artigos de Dimas Soares Ferreira que foram filtrados e, conseqüentemente, não publicados, podem ser acessados nos respectivos endereços: 1. "Comentário" [http://dershatten.blogspot.com/2011_05_01_archive.html]; 2. "Novo comentário [http://dershatten.blogspot.com/2011_04_01_archive.html]; 3. "Mais três comentários" [http://dershatten.blogspot.com/2011_03_01_archive.html]; 4. "Dois comentários" [http://dershatten.blogspot.com/2011/03/dois-comentarios.html].

Em nome da "democratização da informação", reivindicada pelo próprio Dimas, espero que este comentário não tenha o mesmo destino dos acima citados.

Cordialmente,

Bruno Braga.

http://dershatten.blogspot.com

Belo Horizonte, 25 de Setembro de 2011.

Thursday, September 22, 2011

"O Astro": um exemplo didático que caiu do céu.


Bruno Braga.

 
A teledramaturgia no Brasil exerce, sobre a sociedade, um poder extraordinário. Ela, com suas tramas, não apenas prende a atenção da audiência maciça que assiste às novelas; mas, através de seus personagens, é capaz de lançar modas, ditar bordões, estimular comportamentos, e moldar a forma de pensar do telespectador.

Tão popular quanto as novelas é a idéia de que o poder da teledramaturgia sempre esteve a serviço de "setores reacionários e conservadores da sociedade". É preciso verificar, porém, se esta idéia comum - de certo modo confusa, opaca, obscura – tem um correspondente na realidade, quer dizer, é necessário identificar os agentes reais e concretos que estão por trás dela. Basta iniciar a investigação, para que imediatamente surja um nome de grande vulto que contradiz o senso comum: Dias Gomes.

Aclamado dramaturgo e autor de telenovelas, Dias Gomes foi um comunista de carteirinha. Ingressou no Partido Comunista Brasileiro na década de 40. Embora tenha permanecido no partido até 1971, colaborou imensamente com a "revolução", mesmo após sua saída. Em 1995, ao ser questionado se quando jovem ele escrevia "em sentido revolucionário", Dias Gomes sorriu e disse: "Até hoje" (Entrevista para o programa Roda Viva, em 12 de Junho de 1995. A transcrição está disponível no endereço:http://www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/405/dias%20gomes/entrevistados/dias_gomes_1995.htm). Era um agente que concorria para o sucesso da estratégia da revolução cultural. Neste domínio a tática adotada não era a da campanha publicitária explicita do Socialismo-comunismo, fazendo tremular bandeiras vermelhas estampadas com a foice e o martelo, ou proclamando as palavras de ordem de seus líderes e teóricos. Não – o estratagema era atacar veladamente os valores tradicionais da cultura, sobretudo os judaico-cristãos, pejorativamente chamados de "moral burguesa". Comprometido com esta estratégia revolucionária, o próprio Dias Gomes revela em sua autobiografia - "Apenas um subversivo", de 1998 - como militou em favor do "divórcio" na novela "Verão Vermelho" (1970). Este não foi um caso isolado e excepcional: em "Assim na terra como no céu" (1970) o alvo era o celibato clerical, e em "Roque Santeiro" (1975), o Cristianismo. As investidas contra a cultura tradicional apareciam diluídas nas tramas, em um formato que o público, o telespectador, as pudessem digerir e, conseqüentemente, aceitá-las.

Talvez o tempo seja um obstáculo que dificulte a compreensão desta estratégia revolucionária, pois fora aplicada na já distante década de 70. Esta dificuldade, contudo, pode ser superada recorrendo a uma produção atual da teledramaturgia, uma amostra que, pode-se dizer, "caiu do céu": a reapresentação da novela "O Astro".

Originalmente redigida por Janete Clair, "O Astro" foi um enorme sucesso em 1978. A novela foi o coroamento da carreira da escritora, que começou com o estimulo do marido, Dias Gomes. O casal dominou a teledramaturgia nacional dos anos 70. No entanto, a influência de Dias Gomes sobre as composições da mulher não se limitou apenas ao incentivo; ela afetou também a elaboração das tramas e dos personagens, nos quais inoculava as suas pretensões revolucionárias. Embora a nova versão de "O Astro" apresente reformulações, é possível extrair dela algumas destas pretensões, conservadas da produção original. Uma delas aparece dissimulada no conflito entre Márcio Hayalla e o seu pai, Salomão.

Márcio é um jovem idealista. Filho único, ele é o herdeiro do império construído pelo pai, Salomão: a rede de supermercados do grupo Hayalla. Contudo, para o jovem o mundo dos negócios é sujo, ele corrompe as pessoas – por isso, em vez do "Capitalismo", Márcio sonha com uma vida de "liberdade" e um mudo no qual haja "igualdade entre todos". Nestes termos fica estabelecido o conflito: de um lado o jovem idealista e revolucionário; do outro o seu pai, o magnata capitalista, conservador e "reacionário". Algumas cenas ilustram este confronto.

No episódio de 12 de Julho de 2007 [http://oastro.globo.com/capitulo/herculano-e-preso-e-conhece-ferragus-na-cadeia.html#cenas/1562952], Márcio abre as portas de um dos estabelecimentos de Salomão para mendigos. Na entrada o jovem oferece dinheiro aos miseráveis para que eles possam consumir o que quiserem – assim, justifica-se Márcio para o pai indignado, não haveria prejuízo nos negócios, pois os mendigos estavam "comprando" as mercadorias. No entanto, as cenas exibem o contrário: mostram o saque do estabelecimento – o que coloca como pano de fundo uma "luta de classes".

Em 13 de Julho há um trecho emblemático [http://oastro.globo.com/capitulo/salomao-manda-internar-o-filho-marcio.html]. Em uma confraternização social na mansão da família Hayalla, Márcio aparece nu entre os convidados para enfrentar o pai. O jovem acusa Salomão de ser um "tirano" de uma "família patriarcal" que subjuga a mulher – e vocifera: "Pai, por favor, pai! O dinheiro destrói as pessoas, ele só traz infelicidade!" [...] "Se preocupe com os pobres!" [...] "Eu quero que o mundo seja melhor! Que o mundo seja mais feliz, pai!" [...] "Viver com liberdade" [...] "fora da sangria de ter que ganhar dinheiro" [...] "Dinheiro sujo". Após a inflamada discussão pública, o próprio Salomão conduz o filho até o andar superior da casa, onde o espanca – no dia seguinte ele interna Márcio em um Hospital Psiquiátrico.

As cenas descritas apresentam uma série de caracterizações diluídas e camufladas. Como a de que a família tradicional é tirânica, opressora, sem amor e afeto; como a de que o mundo está configurado pela "luta de classes"; que o "Capitalismo" e o "dinheiro sujo" destroem os ideais de "igualdade" e de "liberdade", que violentam o "povo" e trazem somente "infelicidade". Com estas caracterizações a revolução cultural estava sendo executada – seduzindo e configurando o imaginário popular, de modo que, quando estes estereótipos estivessem profundamente enraizados, os que professavam os mesmo ideais no domínio político-social estariam protegidos e imunizados. Para identificá-los é necessário verificar quem reivindica o poder em nome do "povo", e promete, com ele, a "liberdade" e a "igualdade" em "mundo maravilhoso", "melhor" e "feliz"; quem acusa o "Capitalismo" e o "dinheiro" de serem a causa de todos os males do mundo; denuncia a suposta tirania da família tradicional e a corrupção da "moral burguesa". Não é preciso muito esforço para reconhecer que todas estas bandeiras são levantadas pelos revolucionários Socialistas-comunistas, que com o trabalho estrategicamente efetuado pelo seu braço na cultura popular – como os de Dias Gomes e Janete Clair – adquiria respaldo e imunidade a críticas. A conquista do poder político não tardaria, de modo que, chegado o momento, não haveria praticamente nenhuma oposição, pois o imaginário popular já estaria configurado com os seus próprios ideais.

Se o poder da teledramaturgia é, hoje, algo indiscutível, qual seria o seu potencial quando Dias Gomes e Janete Clair levaram ao ar os seus trabalhos? A distância produzida pelo tempo não impede de encontrar algumas pistas para uma resposta. Carlos Drummond de Andrade escreveu em sua coluna no "Jornal do Brasil": "Agora que 'O Astro' acabou, vamos cuidar da vida, que o Brasil está lá fora esperando". Por sua vez, Mauro Mendonça Filho, diretor-geral da nova versão de "O Astro", teme que a produção recente não repita o sucesso da original, porque "na época a novela tinha mais audiência, e a Globo não tinha concorrência [...] (Cf. http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/940534-sucesso-nos-anos-70-o-astro-volta-a-globo-como-macrosserie.shtml). Isto indica que as novelas tinham ainda mais poder do que têm atualmente. Este poder estava a serviço da causa "revolucionária". O resultado da estratégia cultural – com a qual colaboraram os trabalhos de Dias Gomes e Janete Clair - pode ser reconhecido na própria cultura popular contemporânea, formatada com os mesmos tipos ideais e os estereótipos disseminados por seus agentes e militantes, entre eles, o de que a teledramaturgia obedece aos interesses de "setores reacionários e conservadores da sociedade".

 

 

 

Thursday, September 15, 2011

O artifício de negar "a" Verdade para afirmar as "suas próprias" verdades.

Bruno Braga.


 

Refletir sobre a Verdade é um exercício atormentador. E pode ser ainda mais pavoroso ter que enfrentá-la. Por isso, tão logo surge o problema, um artifício muito comum é invocado para fugir dele: "será que a verdade existe ou cada um tem a sua?"

Em geral a Verdade é constrangedora. Ela arruína de uma só vez as certezas individuais mais estimadas; isto, automaticamente, provoca certo desconforto, desperta o temor, a insegurança, asco, repulsa. Neste sentido, o recurso ao argumento das verdades particulares, além de afastar a discussão objetiva, a investigação da matéria propriamente dita, é um artifício para fugir do constrangimento promovido pela Verdade – seja numa espécie de auto-engano, para livrar-se do descontentamento consigo mesmo e resguardar a auto-estima; ou para salvaguardar a sua reputação diante do olhar público, encontrando nele abrigo, conforto e segurança. No entanto, este estratagema, esta manobra astuciosa, não é a proteção das "suas" verdades – é, sim, a defesa das suas ilusões. Acontece que este artifício se disseminou de tal maneira na cultura popular que grande parte das pessoas ou o vêem com indiferença ou o aceitam como válido.

Invocar as "suas verdades" poderia ser adequado para as questões de foro íntimo, guardadas no próprio interior, e nas quais o indivíduo especula sobre o sentido da vida, o significado do mundo, ou elabora suas teorias a respeito dos fatos e eventos da sua existência ordinária – com a ressalva de que estas "verdades" são apenas um emaranhado de impressões, de idéias e conceitos vagos misturados a sentimentos e expectativas confusas. Por isso não é permitido ampliar o espectro deste emaranhado de sentimentos e impressões para que ele seja o fator definitivo na descrição dos fatos objetivos. Porque, ainda que seja um elemento que concorre para a produção das formulações do sujeito que conhece, ele não é o único: é necessário o assento da realidade objetiva – ela que, em uma investigação séria, regula e arranja as idéias. Em outras palavras, é preciso que haja uma correspondência efetiva entre a hipótese imaginada pelo sujeito e os dados da realidade. Do contrário, se a experiência efetiva, o mundo objetivo, desmente a hipótese, a conseqüência natural será o abandono dela, a renúncia das idéias e concepções que antes eram aparentemente razoáveis. Porém, este não é o expediente daquele que defende as "verdades subjetivas".

A grande dificuldade de quem recorre ao argumento das "suas" verdades é abandonar as suas "crenças". Se a realidade, ou algum outro meio inequívoco de prova, o contradiz, ele imediatamente tem a resposta: "cada um tem a sua verdade". É assim que se aferra ainda mais às suas ilusórias concepções. Quer evitar, a qualquer custo, a náusea, a vertigem, a censura da consciência, a crítica pública – ele não suporta a perda do apoio e do conforto de suas ilusões, ou o tormento diante do abismo aberto pela Verdade. Um comportamento que encontra abrigo, e é até estimulado, por outras idéias confusas e vagas cultivadas na esfera pública: por exemplo, a "liberdade de opinião", que confere ao indivíduo a certeza de não ter que responder, na carne, pelos próprios pensamentos (GUITON, 1951, p. 21) – e por isso ele se escandaliza quando as suas posições são contestadas; e o "direito de falar", que se assemelha ao comportamento dos franceses, nos quais grande parte da intelectualidade brasileira se inspirou, "estar sempre falando, não importa se sabem ou não algo sobre o assunto" (apud JOHNSON, 1990, p. 272).

Porém, o artifício das "suas" verdades apresenta dois problemas. Um deles é insuflar no sujeito que conhece – o mais apropriado seria chamá-lo de "sujeito que crê" – uma falsa convicção de que a partir da sua cabeça, única e exclusivamente, ele é capaz de deduzir todo o mundo e conhecê-lo. É o convencimento de que as próprias idéias, concepções, de que a própria imaginação é suficiente para descrever qualquer situação ou fato, dispensando a realidade diante dos próprios olhos, ou sem a necessidade do esforço da busca pelo conhecimento, isto é, da dedicação aos estudos, da seriedade e honestidade nas investigações. Porque se um dado da realidade, um documento, uma evidência, o desmente, pior para eles, pior para o mundo, pois "cada um tem a sua verdade" – uma sentença que confere atributos divinos ao indivíduo que a profere: onisciência e onissapiência. O outro problema é detectado com a persistência em recorrer ao argumento das verdades subjetivas, às "suas" verdades, depois que o artifício da sua utilização foi revelado: é o sintoma de uma covardia intelectual fora do comum.

Friday, September 09, 2011

As dimensões do debate intelectual: Dialética e Erística.

Bruno Braga.


 


 

Esta (a verdade) não encontra partidários.

Schopenhauer, MVR, 2005, p. 28.


 


 

O debate intelectual sério e honesto envolve um complexo de elementos. No entanto, ele poderia ser resumido a uma disputa na qual os participantes defendem as suas concepções. Neste confronto os debatedores aplicam todas as suas habilidades na construção de argumentos precisos e fundamentados, de modo a torná-los capazes de, não apenas sustentar as suas posições, mas de desmantelar todo o arsenal argumentativo do seu adversário.

Acontece que, embora o debate intelectual esteja estruturado na forma do embate, do conflito, o seu horizonte é a Verdade, quer dizer, uma descrição coerente nos seus termos e articulada com o fato da realidade empírica objeto da disputa. Por isso, é pressuposto que os adversários tenham sinceridade na exposição dos argumentos – por mais constrangedores e desagradáveis que eles possam ser - e honestidade intelectual para cederem a sua posição quando o seu argumento for derrubado. Somente assim é possível passar para um patamar mais elevado da descrição dos fatos, com maior coerência e articulação. Uma aproximação lenta e demorada da Verdade.

Porém, se os adversários abandonam estes pressupostos, não seria nenhuma extravagância suspeitar da condução do debate, e prever para ele conseqüências funestas. A principal delas é quando as partes passam a se ver simplesmente como pólos diametralmente opostos; então o único objetivo da disputa será "vencer" o debate. É assim que se perde o horizonte da Verdade e, sobretudo, a dimensão da compreensão. Este desvio é o que marca e distingue o debate intelectual sério da mera disputa, a dialética da erística.

Quando os debatedores objetivam apenas a defesa de suas concepções particulares - ou as do grupo ao qual pertencem – em um esforço contínuo e intenso para fazê-las prevalecer sobre as concepções de seus adversários, está em jogo a sua reputação, ou a de seus partidários, ou até mesmo uma posição social. A derrota no debate, então, seria vergonhosa: orgulho agredido e rebaixado, a vaidade arranhada aos olhos do público - pois foi vencido em uma das maiores ambições do homem, a do conhecimento; perda da credibilidade para desempenhar determinado papel social. Antecipar a derrota no imaginário, partindo do pressuposto de que o objetivo do debate é apenas a vitória, dá uma amostra do asco, da náusea, da repugnância que causaria uma eventual derrota: um mal-estar que precisa, a qualquer custo, ser evitado na disputa efetiva. Para isso os debatedores se dedicam, concentram todos os seus esforços, para alcançarem a vitória, mesmo que seja necessário utilizar subterfúgios, ardis - estratagemas que, se não têm força na discussão objetiva, quer dizer, na elucidação do mérito da questão, por outro lado podem ser extremamente eficazes para atingir o único fim almejado no domínio da disputa, a derrubada do oponente.

A estruturação do debate nestes termos é resultado de uma visão unidimensional dos envolvidos. Basta que um, apenas um, deles enxergue com este óculos, quer dizer, que se comprometa com a mera disputa, para que a tensão esteja instaurada. Então o outro passa a ser visto como um inimigo, alguém que ameaça não apenas as suas teses, mas o seu orgulho, a sua reputação, e o seu papel social. Contudo, esta é uma perspectiva reduzida e fechada do debate intelectual. Se o seu horizonte primordial é perdido – a pretensão da Verdade – é necessário assumir um ponto de vista superior: em um ângulo que foque o debate, não a partir do conflito horizontal, mas da compreensão elevada.

Comprometer-se com um debate superior não é uma simples opção formal. Envolve também uma renúncia individual, a negação do próprio orgulho, da própria vaidade, em um esforço contínuo para conservar o seu único horizonte, a Verdade - a compreensão, que acima de qualquer outro interesse envolve o nobre elemento ambicionado pelo homem, o conhecimento.

Manter-se na "senda reta" é uma dificuldade para todo e qualquer ser humano – pois é preciso superar o amor-próprio e a presunção que preenchem o coração. No entanto, além destes obstáculos subjetivos, acrescentam-se outros que, no Brasil, atingiram níveis epidêmicos. Os mais populares são: o "politicamente correto" – que exige valores equivalentes para posições contrárias que pretendem descrever o mesmo fato; e a "politização" de todas as discussões, que transforma automaticamente os debatedores em "direitistas" e "esquerdistas". O equívoco do primeiro seria o mesmo do de um Juiz que, na sentença que profere para dirimir um conflito, dá ganho de causa para as duas partes. E o do segundo é não pressupor a "neutralidade", que é possível, sim, e até necessária para uma eventual tomada de posição.

Na dimensão superior do debate o estado tensional produzido por concepções contrárias não é eliminado. No entanto, em vez da ambição horizontal da vitória, os adversários intencionam a dimensão superior da Verdade. Eles abandonam a condição de partidários, militantes, para assumir a essencial e nobre atividade humana, a do conhecimento. Nesta dimensão mesmo o derrotado sai vitorioso, porque compreende algo mais sobre o mundo e sobre si mesmo. A satisfação obtida através deste conhecimento é superior à que se alcança por meio da vitória na mera disputa. Enquanto esta é uma satisfação transitória e passageira, relativizada no olhar e na consideração do público, o entusiasmo produzido pelo conhecimento é absoluto, porque se efetiva no interior da consciência individual.

Thursday, September 01, 2011

Culto a "El Chancho".


Bruno Braga.






Com a simples pronúncia da palavra "revolução" é possível estimular, na maioria das pessoas, sentimentos de entusiasmo e euforia. Palavra poderosa, que revigora o espírito, que injeta nele ânimo e inspiração – que aviva e excita. Invocando a "revolução", inocula-se na mente de muitos que a ouvem ou lêem, a idéia e expectativa de que é possível transformar, "recriar" completamente, o mundo. Cada um destes "espíritos reavivados" se sente o agente transformador, o Demiurgo que destruirá a tradição, quer dizer, o "velho", o "arcaico", o "ultrapassado", e dará forma ao "novo mundo", ao "novo homem" – obra feita, obviamente, a partir dos seus caprichos e para suprir as suas carências. Este é o poder sedutor da "revolução": alimentar o imaginário com a sensação de poder. 


A "revolução" não é algo que encanta apenas a juventude. Embora seja uma válvula para que os mais novos invistam sua energia intensa, cega e inconseqüente - e por isso a juventude é um terreno fértil para a captação de militantes – a "revolução" é um instrumento nas mãos de homens experientes, como o foi para Lênin, Stálin, Mao Zedong. Portanto, a "revolução" é um abrigo, independentemente da faixa etária: para os jovens é um canal para descarregarem os seus excessos, confusões, ansiedades, e excitações; para os homens experientes a "revolução" é um meio para se auto-proclamarem "Construtores de mundos". É verdade que estas disposições e motivações podem se misturar em jovens e homens experientes – mas o que ambos têm em comum é que, através da "revolução", reivindicam uma concentração de poder sob a promessa de realizarem um futuro que ainda não vislumbram, mas supõem ser maravilhoso.

Nestes termos, a força excitante da "revolução" não está baseada em doutrinas, em uma teoria coerente. Sua justificação não está fundada em modelos econômicos, estruturas administrativas estatais, em tipos de organização da sociedade. O elemento principal da "revolução" é a concentração do poder – independentemente das elaborações doutrinárias e teóricas, dos princípios e modelos utilizados para este objetivo. A concentração de poder é o elemento que seduz e embriaga; é ele que, por provocar este estado de alucinação, permite que os tipos mais repugnantes sejam transformados em "heróis", em figuras idolatradas, glorificadas, pelo simples fato de terem sido "revolucionários". Este é o caso de Ernesto Guevara.


Cultuado em todos os cantos do mundo, Che Guevara sabia conquistar com as palavras. Além de encantar com discursos em prol da "liberdade", da "igualdade", e contra os "inimigos do povo", afirmou certa vez que o revolucionário é "o escalão mais alto da humanidade". Com esta auto-glorificação arrebanhou militantes para o seu ambicioso projeto de transformação radical do mundo, introduzindo em cada um dos seus "companheiros" e admiradores a ilusão de serem superiores - intelectual e moralmente - a todo o restante da raça humana. Assim iludidos, alçados a um status de quase divindades, os "revolucionários" julgaram-se autorizados, valendo-se de qualquer meio, a transformar radicalmente o homem e o mundo. 


Mas é necessário quebrar o encanto das palavras e observar o que está por trás do "mito". É preciso atravessar o desvario revolucionário que bloqueia a consciência moral. Que impede que se reconheça, no mesmo "herói" que discursa em favor da "liberdade", da "igualdade", aquele que elogia o "ódio eficaz que faz do homem uma eficaz, violenta, seletiva e fria máquina de matar". O mesmo que de maneira inexorável diz: "não posso ser amigo de alguém que não compartilha com minhas idéias" (in COURTOIS, 1998, pp. 730-731). O dono destas palavras foi quem fuzilou impiedosamente, e sem qualquer direito de defesa, um jovem de sua coluna por ter ele roubado um pouco de comida. Foi o próprio Che Guevara. Para Régis Debray, seu companheiro na Bolívia, Che foi "um partidário do autoritarismo a qualquer preço" ("Loués soient nos seigneurs", Gallimard, 1996, p. 184).



Nem mesmo a morte comovia o "revolucionário" argentino. O cárcere de "La Cabaña", de onde Che oficiava, foi local de inúmeras execuções, principalmente de antigos companheiros de armas que se declaravam "democratas".



Nas atividades burocráticas, além de "fiscal", Che Guevara ocupou o ministério da Indústria e foi diretor do Banco Central de Cuba. Foi Ministro da Economia, embora não dominasse sequer as noções elementares da função que desempenhava – conseqüência inevitável: destruiu o Banco Central cubano. Che foi um verdadeiro fracasso nas questões econômicas; mas nos assuntos "disciplinares" estava "perfeitamente habilitado": "Foi ele e não Fidel quem inventou em 1960, na península de Guanaha, o primeiro campo de trabalho corretivo (o que nós chamaríamos trabalhos forçados)" [...], conta Régis Debray (Op. Cit. p. 185).


Enfim, Che Guevara foi um indivíduo intolerante e frio. Um desastrado Ministro da Economia. Um assassino sanguinário e covarde. Em Cuba foi um dos artífices do recrutamento da juventude, sacrificada ao culto do "novo homem" (COURTOIS,     1998, p. 731). Restaria, pois, algo que justificasse ainda o culto idolátrico do "revolucionário"? Uma bela e inspiradora foto de Alberto Korda, de 1960, intitulada "Guerrillero heroico", talvez; ou o poder encantador e inebriante da palavra "revolução" – aquela mesma que produz um discurso auto-glorificante, que estimula os seus líderes e seduz os militantes com a falsa idéia de serem "o escalão mais alto da humanidade". Mas, se o "encanto" é desfeito, e o véu do mito é retirado, se revela o que o "herói" de fato foi, o que ele fez. Então, persistir na idolatria é promover, literalmente, um culto a "El Chancho" – ao "Porco", como era chamado Che Guevara na infância.

 

 

 

Tuesday, August 23, 2011

Família do "Novo Milênio"?

Bruno Braga.





O contraexemplo é um expediente útil para demonstrar a inaplicabilidade de determinada hipótese. Torna-se ainda mais precioso quando esta hipótese equivocada é publicamente disseminada com contornos de legitimidade e retidão. Neste sentido, esta breve exposição servirá como argumento contrário a algumas das teses presentes no artigo "A família contemporânea e seus limites na transmissão de valores", redigido por Pedro Arruda e Sirlene Cristina Aliane [Publicado no portal "Barbacena Online" em 20 de Agosto de 2011 e acessível no link: http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=6861&inf=6 – para uma compreensão adequada desta exposição seria indicada a leitura prévia do artigo] – sobretudo a que aceita a união homoafetiva como "entidade familiar".

Acontece que a análise do artigo de Pedro e Sirlene é, desde o princípio, amarrada, encontra um obstáculo imediato. Segundo os autores a decisão do Supremo Tribunal Federal [STF], que reconhece a união homoafetiva como "entidade familiar", joga por terra os argumentos "fundamentalistas" e "preconceituosos" contrários à equiparação do relacionamento homossexual à família tradicional (Cf. Parágrafo 7 do texto de referência). Mas é preciso esclarecer que, colocar a matéria nestes termos dá, tanto à decisão do Supremo Tribunal Federal, quanto ao próprio artigo, uma proteção sutil: porque se parte do princípio de que, toda e qualquer oposição a eles, toda e qualquer crítica, será "fundamentalista" e "preconceituosa". Em outras palavras, os autores concedem à decisão do STF, e ao seu próprio texto, uma imunidade a críticas.

Porém, esta "imunidade" é frágil. Ela se sustenta em um "argumento de autoridade". Para Pedro e Sirlene, porque foi uma decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal, então é uma decisão corretíssima, sem máculas, inequívoca e infalível. Os articulistas não se atentam para o fato de que o "argumento de autoridade" não aborda a matéria propriamente dita, quer dizer, a possibilidade e realidade de uma "entidade familiar gay"; e nem permite que os fundamentos dados pelos Ministros do Supremo Tribunal Federal sejam discutidos. Dito de outra forma, endossam uma "ordem régia": se Rei ordenou, é porque está sob a inspiração divina da infalibilidade, e por isso a ordem deve ser aceita e obedecida, sem hesitação.

Analisar uma questão estruturada nestes termos é arriscado. Porque as críticas poderão ser taxadas automaticamente como "fundamentalistas" e "preconceituosas", estando ameaçadas de censura - e o seu autor exposto à terrível punição por contestar a "ordem do Rei" e os "súditos" que a transmitem. No entanto, independentemente dos riscos, é necessário prosseguir, apontar os equívocos da decisão "superior", e do discurso dos que a disseminam.

Para que a exposição fique mais clara, a questão da "família gay" será discutida em tópicos distintos, intitulados: "Problemas de ordem teórica" (I); "Problemas de ordem prática" (II) – sem afastar a possibilidade de estabelecer alguma conexão entre os dois tópicos, já que estão intimamente associados; e uma Conclusão final (III).

I. Problemas de ordem teórica.

Pedro e Sirlene apontam a mudança "conceitual" promovida no termo "família". Esta reformulação foi um dos fundamentos da decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal [STF] em 05 de Maio de 2011, motivada pelas "Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental" (ADPF nº 132/RJ) e "Ação Direta de Inconstitucionalidade" (ADI nº 4277). No entanto, é indispensável verificar os termos desta modificação conceitual, e se ela, de fato, é permitida – tanto no âmbito constitucional quanto no campo semântico.

A Constituição Federal define "entidade familiar" assim: [...] "Para efeito de proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar [...] (grifo meu) [Art. 226, §3]. No parágrafo seguinte, do mesmo texto, há a previsão da "família monoparental": "Entende-se também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes" (grifo meu) [Art. 226, §4].

Os Constituintes brasileiros tiveram a preocupação de definir literalmente o conceito de "família" para que não fosse permitido ao Judiciário legislar sobre o tema. Sobre esta "intenção" dos Constituintes, o testemunho de Ives Gandra Martins é precioso e esclarecedor [http://www.fecomercio.com.br/?option=com_institucional&view=interna&Itemid=20&id=3892].

Isto não quer dizer que o texto constitucional é imutável. Porém, para reformulá-lo – por exemplo, incluir no artigo 226 e seus parágrafos uma "família gay" - seria necessário utilizar o mecanismo adequado, previsto na própria Carta Magna: a Emenda Constitucional. Portanto, a decisão dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, de considerar a união homoafetiva como "família", não apenas trai o "espírito originário" da Constituinte, mas representa o descumprimento de sua própria atribuição, que é proteger a Carta Constitucional – além de usurpar um poder que não é o seu, o de legislar.

Há ainda um recurso que tenta salvaguardar a desajeitada resolução do Supremo Tribunal Federal: o amparo do princípio constitucional da "isonomia" (Art. 3, IV c/c Art. 5, CF) – ou de "princípios implícitos", como quer o Ministro Carlos Ayres Britto ("Folha de São Paulo", Ed. 04 de Julho). Para evitar a "discriminação" seria preciso reinterpretar, sob a tutela de tais princípios constitucionais, o artigo 226 e seus parágrafos – aqueles que definem literalmente o conceito de "entidade familiar" –, concedendo o status da família tradicional à união homoafetiva. No entanto, seria indispensável questionar os Ministros do Supremo Tribunal, principalmente Carlos Ayres Britto: como é possível que a Constituição Federal tenha, nela mesma, um princípio que a torna "Inconstitucional"? Seria a Carta Magna, então, um documento auto-contraditório? Isto seria um atentado aos princípios da lógica elementar. (Sobre o mecanismo adequado para a reformulação de texto constitucional no caso em tela, Cf. as observações anteriores sobre a Emenda Constitucional).

Pedro e Sirlene acertam quando apontam a mudança "conceitual" de "família". Porém, eles parecem não estar conscientes do artifício – sim, artifício – utilizado para esta reformulação semântica, e dos problemas que ela pode trazer. Para aclarar um pouco a questão, o artifício foi o seguinte: conservar no texto constitucional o conceito, a palavra "família" – para tentar escapar da acusação de usurpação do poder legislativo - mas promover a sua "re-significação". Isto quer dizer que "entidade familiar" ganha um novo referente: além da (a) união entre um homem e uma mulher, e (b) qualquer dos pais e seus descendentes, agora [C] a "família gay".

Ocorre que, se este procedimento não é uma fraude explícita, é, pelo menos, um raciocínio falho. Se o "sentido", o "significado", do termo foi reformulado, então o texto é, sim, outro, embora com as mesmas palavras. E o Supremo, portanto, legislou – função que não é a sua. O raciocínio dos Ministros do STF seria assim: (a) o nome – a palavra – "José" se refere ao sujeito X; mas, (b) se além do sujeito X, fosse adicionada outra referência, o sujeito Y, conservando o mesmo nome, então, [C] José, conservaria o mesmo sentido. Este é um raciocínio claramente falho.

Porém, o equívoco é ainda mais grave. Os Ministros do Supremo Tribunal Federal, ao decidirem a questão nestes termos, precisaram fazer do conceito de "família" um "significante vazio". Em outras palavras, foi necessário fazer da palavra "família" um recipiente vazio e transparente – sem conteúdo fixo, definido - no qual tudo, tudo, que fosse lançado dentro dele se tornasse automaticamente "uma família". Mas "família" não é este recipiente vazio – é um conceito definido, que encontra a correspondência adequada na tradição reconhecida pela própria Constituição Federal: (a) união entre um homem e uma mulher, e (b) qualquer dos pais e seus descendentes.

Promover a "re-significação" do conceito de "família" tomando-o como um "significante vazio" traz conseqüências funestas. Pedro e Sirlene se entusiasmam com a "família do novo milênio" – porém, apontam apenas um único tipo: o relacionamento entre "dois" gays. Mas, seguindo o raciocínio dos Ministros do STF, que é endossado pelos articulistas, seria possível apontar outros tipos de "família moderna". Por exemplo, a do sujeito que pretenda se casar com sua própria mão, com a qual tem momentos sublimes de prazer dentro do banheiro. Se o status de "entidade familiar" for reivindicado pelo apaixonado, deverá ser concedido, sob pena de "discriminação", violação do "princípio da isonomia", ou dos "princípios implícitos" de Carlos Ayres Brito. Para quem pensa que esta hipótese é um absurdo, em Garanhuns, Pernambuco, um indivíduo já está reivindicando o direito de se casar com a sua "mão esquerda" [http://gdnews.com.br/noticia/geral/10,3316,homem-entra-na-justica-para-conseguir-casar-com-sua-mao]. E que objeção poderia ser levantada? Se for assumido o "nobre" e "inequívoco" raciocínio dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, nenhuma.

Poderiam ser "famílias do Novo Milênio" também as relações de bestialismo: como o Zé da Roça que pretenda se casar com a sua doce e charmosa eguinha. Da mesma forma os gays que desejam formar uma "família poligâmica". Ora, por que eles não poderiam constituir as suas "famílias"?! Afinal, segundo os articulistas, Pedro e Sirlene, a "família moderna" deve ser um meio de concretização do afeto – então, não haveria nenhum obstáculo para a constituição destas "exóticas" famílias.

A propósito, será que a família tradicional nunca foi constituída pelo afeto? A tomar as palavras de Pedro e Sirlene, não – e é o que pensa também outro Ministro do STF, Ricardo Lewandowski [Cf. http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADI4277RL.pdf]. Para eles o sentimento, o amor, o afeto é monopólio dos gays. A família tradicional – o "modelo único" e repressor - é constituído pelo pai tirano, que subjuga a sua esposa e mal-trata os seus filhos. Ora, tratar a questão nestes termos é antes fazer uma campanha publicitária gay que dar uma adequada descrição dos fatos.

É o momento de abordar a questão sob outra perspectiva.

II. Problemas de ordem prática.

A decisão do Supremo Tribunal Federal, que concede à união homoafetiva o status de família não é somente uma modificação de textos e palavras. Ela gera efeitos na vida prática. Os principais deles são a adoção de crianças por casais homossexuais, e a inclusão de materiais didáticos nas escolas que introduzem a "família gay" na educação infantil.

Mas os nobres Ministros do STF estão certos de todas as influências que "pais gays" podem exercer sobre uma criança adotada por eles? Eles se certificaram sobre todos os efeitos que podem causar o material didático gay na sexualidade de uma criança, justamente no período e idade de formação? Qual seria o efeito do "Kit gay" na educação de crianças de 11 anos [http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/05/26/diferentemente-do-divulgado-kits-anti-homofobia-eram-para-criancas-de-11-anos-924548005.asp]? 

Ademais, e se neste material didático fossem incluídas outras "famílias do Novo Milênio", como as citadas anteriormente? A do sujeito e sua singela, mas calejada, mão? A do Zé da Roça e sua doce eguinha, e a do "grupo" familiar gay? Afinal, se estes relacionamentos "exóticos" ganharem o status de "família" – e se reivindicado deverão receber, sob pena de ferir o "princípio da isonomia" – deverão ser inseridos nas cartilhas escolares. Se o ambiente familiar e o escolar são uma preocupação para Pedro e Sirlene, deveriam incluir em suas análises estas questões.

Agora, há um problema para o qual somente um Ministro do STF, com sua estratosférica e inequívoca sapiência, poderia solucionar. A união estável carrega implicitamente uma distinção de papéis sexuais, que inclusive definem direitos e deveres dos parceiros. Acontece que, no relacionamento homossexual como estabelecer esta diferença de papéis sexuais? Quem é ativo, quem é passivo? Então, como é possível equiparar a união entre gays à união entre homem e mulher? Portanto, seria fundamental questionar um Ministro do STF, quem sabe Carlos Ayres Britto, se fosse da sua competência resolver: "Excelentíssimo, como será decido um pedido de dissolução da união estável fundado no descumprimento das "obrigações sexuais" por uma das partes?"

III. Conclusão.

Diante do exposto, a decisão do Supremo Tribunal Federal, que concede status de "entidade familiar" à união homoafetiva não tem amparo nem teórico, nem prático. Não se sustenta sob qualquer hipótese. E um dos equívocos de Pedro e Sirlene é colocar esta decisão como uma necessidade social.

Sim, relacionamentos homossexuais sempre existiram – e não há, aqui, nenhuma pretensão de eliminá-los. Mas ao longo da história não há qualquer exemplo de "família gay". Esta idéia não teria sido concebida sequer por Sócrates e Alcebíades na Grécia Antiga. Não faria qualquer sentido no período imperial romano, e nem mesmo em Sodoma e Gomorra. Família guarda o seu sentido originário apenas na tradição – sentido este reconhecido pelo texto constitucional, antes, obviamente, da equivocada "re-interpretação" promovida pelos Ministros do STF. Isto não significa que o relacionamento homossexual está desamparado – isto é mais uma falácia, pois, em última instância o gay, como qualquer outro cidadão, tem acesso irrestrito ao próprio Poder Judiciário.

Pedro e Sirlene parecem não estar atentos para o "ativismo judicial" promovido por uma "militância gay". Um movimento político extremamente organizado, e muito bem financiado, que faz da sexualidade um instrumento para promover a carreira de seus líderes. Estes líderes se declaram porta-vozes "dos", quer dizer, de "todos", os gay – mas, efetivamente representam apenas os seus próprios interesses. Esta militância é, inclusive, criticada pelos homossexuais (Cf. o importante documentário "Não gosto dos meninos" [http://www.youtube.com/watch?v=HHA-WpPSK4s]).

Mas, além de instrumento imediato de ascensão política, a "militância gay" serve a ambições maiores, é instrumento para a promoção de "engenharia social" através do ativismo judicial. O objetivo é destruir a estrutura da sociedade ocidental, a tradição judaico-cristã. E peças como a de Pedro e Sirlene – que é apenas um exemplo, entre milhares – contribui, de maneira inconseqüente, para este propósito. Mas seria fundamental perguntar: "Qui bono?" Ou, "Quem se beneficia?" Não são os homossexuais, que serão os maiores prejudicados. Mas os três principais agentes históricos no momento: a Elite financeira; o movimento Socialista-Comunista; e, sim, o Islã. Mas este é um assunto para outra oportunidade.

Como esclarecimento final é preciso dizer que não há qualquer pretensão, aqui, de motivar uma campanha contra os homossexuais. O objetivo foi apontar as fraudes promovidas para conceder à união gay o status de "entidade familiar" – algo que não tem amparo legal, semântico, e nem mesmo prático. Que as necessidades emanem da própria sociedade, que tem seus representantes eleitos nas Casas Legislativas – que, por mais ineficientes que sejam, são o poder encarregado de cuidar da matéria. Porque, se sob o pretexto de antecipar uma "família do novo milênio", o Supremo Tribunal Federal, endossado pelos articulistas, pisa este protocolo, está ferindo, não apenas a Constituição Federal, usurpando o poder legislativo, e ferindo a própria Democracia, já que a maioria da população é contra a união gay (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/950907-mais-da-metade-dos-brasileiros-sao-contra-uniao-gay-diz-ibope.shtml) – mas, acima de tudo, coloca em risco toda a estrutura da sociedade.