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Tuesday, January 31, 2012

Quem é Raúl Castro?

Bruno Braga.




 
Em 2006, em meio às dúvidas e especulações sobre o estado de saúde do “Comandante” cubano, e principalmente com a indicação de que ele transferiria seu poder para o incógnito, mas supostamente “moderado”, irmão, Ion Mihai Pacepa se esforçou para livrar o público da incerteza: “Quem é Raúl Castro?”
 
Pacepa foi um graduado oficial do serviço de inteligência romeno durante o governo do presidente comunista Nocolae Ceausescu. Antes de se tornar um desertor, e receber abrigo nos Estados Unidos, ele conheceu de perto o irmão de Fidel Castro. Por conta das conexões e colaborações estabelecidas entre os regimes comunistas, Pacepa e Raúl não só trabalharam juntos, mas também pescaram, mergulharam - travaram uma disputa em um campo de tiros; dirigiram automóveis idênticos, um Alfa Romeo. Durante este período de convivência e trabalho conjunto, Pacepa assegura que não há nenhum traço em Raúl Castro que sugira uma espécie de “democratização” em Cuba.
 
Raúl sustentava a insígnia oficial de “Maximum General”. Enquanto seu irmão, Fidel, era a figura pública, proferindo longos e inflamados discursos, Raúl dirigia a economia cubana – cuidava da política internacional da Ilha, do comércio exterior, do sistema judiciário, das prisões e do turismo; não escapavam do seu domínio nem mesmo os hotéis e praias. Um poder estimulado pela vaidade incrustada na sua personalidade do “Maximum General”, mas também pelo álcool.    
 
O desertor romeno considera que, de fato, Fidel Castro pode ter concebido o regime de terror em Cuba; porém, o seu irmão, Raúl, foi, definitivamente, o “carniceiro”. Raúl foi o chefe de uma das instituições mais criminosas do Comunismo: a polícia política cubana. Ele era cruel e implacável. Colocou em prática as suas habilidades sinistras meses depois da tomada do poder em Cuba: Raúl organizou a execução de centenas de policiais e oficiais militares do regime deposto de Fulgencio Batista – os prisioneiros foram fuzilados e seus corpos enterrados em valas comuns fora de Santiago de Cuba.
 
No poder, os irmãos Castro receberam apoio e financiamento dos Comunistas soviéticos – principalmente para a organização da KGB cubana e para a construção secreta de bases de mísseis na Ilha. Porém, os soviéticos desconfiavam de Fidel Castro, considerado um “aventureiro” que não tinha uma sólida instrução no Marxismo. Já o seu irmão contava com a simpatia e confiança de Khrushchev: ambos eram apaixonados pelo marxismo; detestavam a escola, a religião e a disciplina; consideravam-se especialistas militares; eram obsecados por espionagem e contraespionagem – além de serem grandes apreciadores de Vodka.
 
Em 1972, quando era o braço direito do presidente romeno, Pacepa preparou uma visita oficial de Ceausescu a Havana. Durante o encontro, o presidente romeno e os irmãos Castro estabeleceram uma parceria para investirem no mercado de drogas. Pacepa relata que a intenção era inundar o mundo com drogas, porque “as drogas poderiam causar mais danos ao imperialismo do que as armas nucleares”, pensava Fidel - que recebia o assentimento do seu irmão: “As drogas irão corroer o capitalismo desde dentro”.
 
Os resultados da sociedade parecem ter sido animadores. Pacepa, o encarregado do dinheiro romeno que circulava na administração do sinistro negócio, revela que, quando deixou a Romênia, em 1978, havia na conta chamada “AT-78” por volta de 400 milhões de dólares.
 
Porém, as atividades criminosas dos irmãos Castro não estavam restritas ao comércio de drogas. O serviço de inteligência de Raúl trabalhou para expandir a influência de Cuba na América do Sul e no Terceiro Mundo – com este propósito, envolveu-se com os sandinistas na Nicarágua; fomentou a guerra em El Salvador; colaborou com o “Movimento de Libertação da Angola”; instruiu e assessorou a “Organização para a libertação da Palestina”; cooperou com a Líbia, com Iêmen do Sul, com a “Frente Polisário para a libertação do Saara Ocidental”; auxiliou as “Forças Armadas Revolucionárias Colombianas” (FARC).
 
Depois de expor a sua experiência pessoal, de quem participou efetivamente dos acontecimentos históricos, Pacepa não hesitou em esclarecer a dúvida que hoje é ainda pertinente: “Quem é Raúl Castro?” Embora a imagem do irmão de Fidel seja construída com traços de amabilidade, e com um espírito moderado e democrático, ele o define como “um assassino e terrorista internacional que fez fortuna com a venda ilegal de armas, drogas, e seres humanos”.    

 
(*) Nota. A presidente Dilma Rousseff está em Cuba. A visita oficial é significativa, mostra o sucesso dos estratégicos empreendimentos dos irmãos Castro, que hoje recebem, como a maior autoridade do governo brasileiro, a militância armada que financiaram para reivindicar o poder no passado. Com parceiros mais fortalecidos, o propósito revolucionário é alimentado.   

 
Referências.
 
Ion Mihai Pacepa, “Who is Raúl Castro? A Tyrant only a brother could love” [http://www.nationalreview.com/articles/218444/who-ra-uacute-l-castro/ion-mihai-pacepa]. 


Anexo.

Duas fotos

Friday, January 27, 2012

Sócrates morre outra vez.
Bruno Braga.

 
A Educação no Brasil é péssima. Em todos os exames aos quais é submetida ela é reprovada, nem mesmo o ensino superior escapa. As principais justificativas para esta situação lamentável são a ausência de recursos, investimentos, no ensino e a falta de valorização do professor – ou seja, o problema da educação brasileira é dinheiro.
 
No entanto, é fundamental incluir nesta avaliação a responsabilidade dos próprios educadores. Por exemplo, o impacto e a contribuição para a desgraça da educação no país de práticas como a “pedagogia do oprimido”, a “pedagogia do amor”, o combate de um tal “preconceito linguístico”. O mesmo poderia ser feito sobre o compromisso e a devoção do professor à sua atividade. Porque a avaliação destes elementos não depende de nenhum outro fator, já que sinceridade e honestidade intelectual não custam dinheiro. Um método proveitoso para estabelecer esta aferição é analisar o que os educadores, os professores, e seus representantes ensinam e escrevem.
 
Gilson Reis é presidente do SINDPRO-MG [1] – Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais. É autor de um artigo intitulado “O Deus autoritário” [2], no qual discute as raízes e os desdobramentos da crise financeira na Grécia. Além das análises políticas, econômicas e sociais – passíveis de discussão – neste texto o articulista opõe à divindade onipotente, autoritária e opressora dos novos tempos, o mercado financeiro, um modelo de virtude: o filósofo grego Sócrates.
 
Escreve Gilson, que Sócrates foi condenado à morte, devendo ingerir a cicuta, porque defendia a “radicalização da Democracia” – o filósofo grego “condenava os valores morais e religiosos que orientavam a conduta dos indivíduos e que serviam de base às instituições políticas de seu tempo”. O veredicto que definia a pena capital também era uma punição para aquele que, segundo Gilson, questionava os deuses do Estado.
 
Se um sopro vital permitisse a Sócrates ler o texto de Gilson, provavelmente o filósofo ateniense repetiria as palavras que inauguram o seu discurso de defesa, reproduzido por Platão, diante do Conselho que o julgou: “A mim próprio quase me fizeram esquecer quem sou” [3].
 
Definitivamente, Gilson descreve outra pessoa que não Sócrates – a distorção é tão absurda que o articulista faz o papel, aparentemente sem perceber, dos acusadores do filósofo grego. Porque se o articulista afirma que Sócrates questionava os valores morais e religiosos, que questionava os deuses do Estado, o filósofo grego, há mais de dois mil anos, se defendia destas acusações dizendo justamente o contrário: “é o oposto disto, atenienses, porque eu acredito como nenhum dos meus acusadores e espero de vós e dos deuses que a vossa sentença seja o melhor para mim e para vós” [4] – e não hesita em declarar que “não há para o homem bom, mal algum, quer na vida, quer na morte, e os deuses não descuidam do seu destino” [5].
 
Gilson escreve que Sócrates questionava as “normas de conduta política”. Porém, um episódio da vida do filósofo desmente o articulista. No processo dos dez generais que deixaram de recolher os mortos na batalha naval, havia a intenção de julgar os acusados em bloco – uma medida ilegal. Então Sócrates decididamente se posicionou: “Achei do meu dever correr perigo ao lado da lei e da justiça” [6].
 
O episódio mesmo da condenação de Sócrates desmascara o personagem criado por Gilson. Porque, depois de sentenciado, e aguardando a hora da morte, o filósofo grego rejeita a proposta de fuga lançada por um de seus admiradores, Críton. O filósofo grego alegou que não pretendia ser um “adúltero das leis”, porque, fugindo, ele destruiria as próprias leis e, consequentemente, o Estado [7]. Sócrates concorda com as Leis da República, com quem trava um diálogo imaginário: “Sócrates, o que vais fazer? Executar teu plano não significa aniquilar-nos completamente, sendo que de ti dependem as leis da República e as de todo o Estado? Acreditas que um Estado pode subsistir se as suas sentenças legais não têm poder e, o que é mais grave, se os indivíduos as desprezam e aniquilam?” [8].
 
Gilson não descreve as ideias e o comportamento de Sócrates – atribui ainda, sem reticências, a sentença lapidar de Protágoras ao filósofo ateniense: “O homem é a medida de todas as coisas”. Enfim, o articulista conta o oposto daquilo que o próprio Sócrates dizia e fazia – se acreditava estar elogiando Sócrates, Gilson acaba ocupando o papel dos acusadores do filósofo. Mas é preciso perguntar: será que Gilson leu os relatos sobre Sócrates? Ou será que o articulista segue os métodos do seu grande mestre, a quem louva no final do seu texto? Pois, no caso desta última hipótese, tudo estaria explicado, já que Karl Marx foi um grande falsificador de discursos, documentos, um promotor de distorções históricas para fundamentar suas teses preconcebidas [9].
 
Uma das condutas que estimulou a calúnia contra Sócrates foi o fato de o filósofo ter abordado os sábios de sua época – o político, o poeta e o artífice – para verificar a sentença do oráculo de Delfos que o declarou como o mais sábio de Atenas. Ele realmente comprovou a sentença da pitonisa, porque aqueles que publicamente eram considerados sábios acreditavam conhecer, mas nada sabiam – Sócrates, por sua vez, sabia pelo menos uma coisa: que nada sabia. Embora as consequências da sua busca tenham sido trágicas e funestas, o episódio deixa uma lição socrática hoje pertinente: questionar o compromisso e a honestidade intelectual dos professores, dos educadores e seus representantes, sobretudo quando eles reivindicam para si o poder de “transformar o mundo” – porque esta não é uma questão de dinheiro, e não há nada que os absolva da responsabilidade de contribuir para situação deplorável da educação no Brasil.
 
 
Referências.
 
[3]. PLATÃO. Apologia de Sócrates. Editora Nova Cultural: São Paulo, 2004. Coleção Os Pensadores – Vol. Sócrates. p. 39.
 
[4]. Idem, p. 64.
 
[5]. Idem, p. 73.
 
[6]. Idem, p. 60.
 
[7]. PLATÃO. Críton. Editora Nova Cultural: São Paulo, 2000. Coleção Os Pensadores – Vol. Platão. p. 112.
 
[8]. Idem, p. 109.
 
[9]. Cf. BRAGA, Bruno. “Entre o Mestre e o ‘Intelectual’” [http://dershatten.blogspot.com/2011/06/entre-o-mestre-e-o-intelectual.html].

Tuesday, January 24, 2012

Quem se lembra do velho Clô?

Bruno Braga.

 

Na novela “Fina Estampa”, da Rede Globo, Marcelo Serrado interpreta Crodoaldo Valério. “Crô” - para os íntimos - é um mordomo gay que muito tem contribuído para os índices de audiência da trama. O hipocorístico do nome do personagem, com a troca de uma das letras, remete a uma personalidade homossexual também bastante popular: o falecido Clodovil Hernandes – o velho “Clô”. A associação, no entanto, já não parece tão evidente: não se sabe se por uma consequência do tempo, ou por um propósito não declarado abertamente.
 
Em favor desta última hipótese, uma de declaração do Deputado Federal e líder do movimento LGBT, Jean Wyllys, pode lançar alguma pista:
 
Antes de mim, teve o Clodovil [Hernandes] (...) Mas ele não encampava a luta do movimento, pelo contrário. Em entrevistas, era radicalmente contra as paradas gays (...) O Deputado Clodovil não oferecia perigo, compreendeu? O problema é chegar aqui e reclamar por direito. [1]
 
A consideração do porta-voz do movimento gay é apenas o rastro a ser seguido para constatar que a diferença com velho Clô não era apenas de “adesão à causa”. Um registro do lançamento da “Frente Parlamentar pela livre expressão sexual”, realizado no Congresso Nacional em 2007 [2], revela divergências mais profundas. Nele Clodovil aparece discursando para a militância gayzista:
 
Eu daria um viva à vida, que seria muito melhor que um viva a qualquer causa (...) Nenhum de nós teria nascido se não houvesse a mãe; então, eu não sei o porquê desta luta – para provar o quê se nós somos filhos de heterossexuais? (...) Isto não é liberdade, está se transformando em libertinagem (...) Esta Parada Gay, eu nunca iria a ela (...) Eu não tenho orgulho nenhum de ser gay, eu tenho orgulho de ser quem eu sou (...) Eu sou a favor da família. Eu acho que eu nasci de um homem normal e de uma mulher normal (...) Eu acredito em Deus. [Os destaques são meus].
 
Enquanto discursava Clodovil era vaiado – e debaixo dos brados de palavras de ordem, abandonou o microfone: “Não adianta, não adianta, realmente (...) vocês sempre entenderão da maneira que convêm a vocês”.
 
Fica claro que as divergências entre Clodovil e o movimento gay – e consequente com um de seus líderes, Jean Wyllys - não esta somente na adesão a “uma causa”, na defesa de uma “bandeira”. Como a militância gayzista é um dos braços do movimento revolucionário, eles têm alguns princípios em comum: atingir a “família tradicional” e a “religião”. No meio da confusão dos protestos e reivindicações a herança do profético manifesto revolucionário marxista - contra a “família burguesa”; contra o “ópio do povo”, a religião - torna-se cada vez mais velada. 
 
Se não é possível destruí-las completamente, é necessário reformular tanto a “família tradicional” quanto a “religião”. No Brasil a primeira já foi atingida com os artifícios e subterfúgios da decisão do Supremo Tribunal Federal que reconhece a união homoafetivo como entidade familiar [3]. Quanto à religião, apesar dos insucessos das investidas mais audaciosas – como a do temporariamente suspenso PL-122 -, alguns resultados podem ser constatados – por exemplo, as transformações pelas quais passaram os santos da Igreja Católica na Parada Gay de 2011:
 
 

Em tempos de “transformações”, até mesmo o ator que interpreta o personagem “Crô” é constrangido pelos absurdos e confusões mentais provocados pelas investidas revolucionárias. Hesitante, reforçando o apoio à união homoafetiva e a políticas gayzistas, o ator Marcelo Serrado comete um pecado contra o decálogo “politicamente correto”: ele afirma que não gostaria que sua filha de 7 anos assistisse a um “beijo gay” em uma novela [4]. A patrulha do movimento revolucionário não tardou na censura e crítica – porque para a “transformação do mundo” não pode restar nada daquilo que mesmo o velho, e esquecido, Clô, com suas extravagâncias e afetações, sabia ser fundamental.

 
Referências.
 
[1]. Jean Wyllys em entrevista para a revista “Rolling Stone” [http://www.rollingstone.com.br/edicao/59/a-cruzada-libertadora-de-jean-wyllys]. 
 
[3]. Cf. BRAGA, Bruno. “Família do ‘Novo Milênio’?” [http://b-braga.blogspot.com.br/2011/08/familia-do-novo-milenio-bruno-braga.html].
 
[4]. Cf. Jornal “Folha de São Paulo”, 08 de Janeiro de 2012.

Thursday, January 19, 2012

A consagração de um ateísta militante.  
Bruno Braga.

 

Em um debate promovido pela “Intelligence Squared”, em 2007 [1], o célebre ateísta Richard Dawkins rebateu enfaticamente um de seus oponentes, Nigel Spivey, que apontou a religiosidade como parte da natureza humana: “Fale por você mesmo! Ela não é parte de mim, e não é parte da grande maioria dos meus amigos nas Universidades da Inglaterra, dos Estados Unidos e de outros lugares”.
 
Dawkins reproduz uma concepção, hoje, muito comum, a de que a Universidade é o templo da razão e da sabedoria, e todos os seus sacerdotes e discípulos devem ser batizados e purificados da mácula da religião. Acontece que, se a religião não faz parte da natureza da casta de Dawkins, ela está na origem do templo dos “iluminados”, dos adoradores da “verdade científica”. Porque foi a “Idade das Trevas”, condenada pelo professor e seus asseclas, que erigiu o púlpito de onde eles mesmos agora cantam suas glórias – uma dívida composta não apenas por muros, pedras, mas uma dívida intelectual: pois os religiosos de ontem, monges e árabes, preservaram e traduziram textos da antiguidade fundamentais para a composição da estrutura do conhecimento que serve de base para a ciência contemporânea. E se o recuo no tempo for ainda mais distante, na Grécia Antiga o cultivo do pensamento racional esteve intimamente articulado com a religiosidade.
 
Para que os débitos dos acadêmicos não sejam anotados apenas nas contas do passado, é preciso reconhecer a produção contemporânea de um centro de estudo em especial, com o mérito do prêmio Nobel: a Pontificia Academia Scientiarum – a academia científica do Vaticano [2].
 
Toda esta herança, que compõe o fundamento da civilização Ocidental, é produto de um surto psicótico, de um delírio? É uma ilusão provocada pelo fanatismo? Não pode ser o resultado de uma busca sincera que, embora situada em um horizonte mais amplo, é semelhante à de um biólogo que honestamente investiga a natureza em seu projeto de pesquisa? Não – pelo menos para Dawkins, que considera o dinheiro a grande fonte de inspiração: o maior móbile dos artistas financiados pelas ordens confessionais e responsáveis pela capela do King’s College e pela Capela Sistina. Se Dawkins está aqui sendo coerente com a sua redução materialista, então a sua honestidade intelectual também é colocada sob a suspeita das multimilionárias verbas de pesquisa universitária.
 
Certo é que Dawkins combate apenas uma caricatura da religião, criada para que ele não precise de grandes esforços para derrubá-la e depois, com ares de superioridade, alardear a vitória. Este não é um expediente inocente, está abertamente declarado em seu best seller “Deus, um delírio” [3], onde afirma que não é necessário conhecer o pensamento dos eruditos confessionais para criticar a religião. Se Dawkins dispensa o pensamento dos sábios e doutores religiosos – e se não investiga o que é a experiência, a vida religiosa – então o seu próprio papel de debatedor é colocado em questão: ele não estaria qualificado para discutir a marca da religiosidade na natureza humana porque ele simplesmente não sabe o que é religião. No entanto, os seus colegas universitários o aplaudem, grande parte da classe supostamente letrada o louva, e os formadores de opinião o enaltecem. Eles, que ditam os termos do debate público, expressam algo sintomático e preocupante: a degradação não só do sentido de religião, mas também a do significado de conhecimento – assim, constroem um novo templo, e no altar da Universidade consagram um verdadeiro vigarista.

 
Referências.
 
[1] Intelligence Squared. “We would be better of without religion”, 2007 [http://www.intelligencesquared.com/events/wed-be-better-off-without-religion].
 

Thursday, January 12, 2012

Revolução "colorida".

Bruno Braga.

 
A declaração de Frei Betto reproduzida no artigo “Surto infausto” revela uma preocupação constante de um dos braços do movimento revolucionário: “Reinventar o Socialismo” [1]. Estas reinvenções já eram promovidas desde Stálin, que, enquanto definia para os soviéticos “o socialismo em um único país”, simultaneamente patrocinava os movimentos nacionalistas e a revolução cultural pelo mundo. Com a sofisticação das estratégias, Ernesto Laclau é um exemplo contemporâneo para aqueles que ainda pensam a partir de estereótipos e caricaturas, demonstrando que a subversão não se dá apenas por meio insurrecional, mas se infiltra até mesmo na linguagem, com a resignificação do vocabulário [2]. Porque o que importa para o processo revolucionário não é o conteúdo das suas propostas, mas a constante elaboração de mecanismos de concentração de poder. Assim, alguns membros da brigada “inimiga” são integrados ao movimento – como os capitalistas “aliados” -, e parte dos perseguidos de outrora são absorvidos e cooptados.
 
Uma das mais recentes e destacadas frentes do movimento revolucionário aparece perfeitamente caracterizada por um de seus líderes. Ele, que não esconde suas influências, tem uma filiação político-partidária sugestiva - Partido Socialismo e Liberdade. Além disso, discursa no mesmo tom do ilustre “Comandante”:
 
                          “Eu sei que já escrevi o meu nome na história [...]” [3].

 

O verniz de palavras de justiça e igualdade para a sua “minoria”, o brado afetado e histérico contra o preconceito e a discriminação, escondem o ardil, os artifícios, e os falsos pretextos, para a construção do “mundo maravilhoso” e “colorido” – que para ser realizado implica a desconstrução deste mundo mesmo, e a imposição de controle, restrições e privilégios: como a imunidade à crítica comportamental, a “Bolsa Gay”, e até uma exótica proposta de pesquisa sobre a “Homofobia ambiental” [4]. Medidas estritamente necessárias, acreditam os revolucionário, pois, do alto de sua privilegiada sabedoria, eles estão certos sobre o que é melhor para uma sociedade de ignorantes [5].
 
Assim se desdobra o ininterrupto processo revolucionário, com seus mais novos e obstinados guerrilheiros vestidos e trajados a caráter.


 


Obs. Para que não haja nenhum mal-entendido: para os que não conseguem distinguir a Homossexualidade do Movimento Gay, Cf. BRAGA, Bruno. “Família do ‘Novo Milênio’?” [http://b-braga.blogspot.com.br/2011/08/familia-do-novo-milenio-bruno-braga.html].

 
Referências.
 
[1] BRAGA, Bruno. “Surto infausto” [http://b-braga.blogspot.com.br/2012/01/surto-infausto.html].
 
[2] LACLAU, Ernesto. Hegemony & Socialist Strategy: Towards a Radical Democratic Politics. Editora Verso: London/New York, 1985.
 
[3] Jean Wyllys em entrevista para a Revista “Rolling Stone” [http://www.rollingstone.com.br/edicao/59/a-cruzada-libertadora-de-jean-wyllys].
 
[4]. Cf. Respectivamente, PL-122/06 e Promoção da Cidadania e dos Direitos Humanos de LGBT [http://portal.mj.gov.br/sedh/homofobia/planolgbt.pdf], Itens 1.2.33 e 1.4.10.
 
[5] Estas são suas próprias palavras. Cf. http://www.youtube.com/watch?v=ixm4R63vKt8&feature=player_embedded

Saturday, January 07, 2012

Surto infausto.
Bruno Braga.

 
Em artigos e textos passados procurei expor algumas perturbações sintomáticas apresentadas por aqueles que reivindicam o poder para “transformar o mundo”, os “revolucionários”. Um destes casos patológicos é a “autovitimização” compulsiva do frade dominicano Betto [1] – uma pessoa que não se contenta com o status e o prestígio de um “intelectual”, e nem com a condição de conselheiro pessoal do ex-presidente Lula; que julga insuficiente o patrocínio e o financiamento dos seus projetos por todas as esferas do poder público, e faz pouco do apoio do maior órgão de mídia do país para a produção cinematográfica que transformou em filme o seu livro. Mesmo com todo este suporte, Frei Betto ainda se sente censurado, constrangido, reprimido por “forças ocultas” – o que representa, caso se confie na sinceridade dos seus lamentos e temores, uma flagrante patologia. Porém, este não é o único surto registrado na biografia do ilustre frade.
 
No seu livro “Memórias do esquecimento” [2], o jornalista e escritor Flávio Tavares conta que ele, duas militantes da AP (Ação Popular) e Frei Betto, desfrutaram da tradicional cozinha do Restaurante Moraes, em São Paulo. Depois de banquetearem-se, os “camaradas” saíram em um carro chamativo – era “último modelo”, conta o jornalista – à procura de mendigos: em um gesto de generosidade, queriam dar aos pobres o que havia sobrado dos filés e batatas fritas que não conseguiram comer. No entanto, depois de rodarem insistentemente, a bordo da máquina possante, sem encontrar um só mendigo, os revolucionários decidiram jogar os restos em uma lixeira – o fez o piedoso frade, “que como perseguido pelo diabo, voltou correndo ao carro” (sic).
 
A generosidade dos revolucionários poderia ter saciado a fome de um miserável naquela noite – mesmo com uma oferta de sobras e restos -, caso tivessem se deparado com um pelo caminho. Porém, alguns elementos que compõem este episódio parecem destoar da conduta de “revolucionários” Socialistas-comunistas: restaurante tradicional? Filé e batata frita? Carro “último modelo”? Ora, estes “camaradas” não estavam lutando, ao mesmo tempo, contra o modo de vida “burguês”, contra o “consumismo”? Não estavam eles em guerra para acabar com a opressão imposta pelo “poder do capital” e para destruir o “Imperialismo”? Sim – e eles ainda acreditavam que a revolução seria realizada pelo proletariado, pelo “povo”, mesmo tendo, entre eles, o herdeiro de uma família com título de nobreza, industrial da produção de vinho, e até considerada uma família de “senhores feudais”: o próprio Flávio Tavares [3].
 
Este episódio poderia ser cômico – uma confusão produzida por jovens idealistas. Acontece que, aquelas mesmas pessoas também estavam armadas, promoveram com tiros e explosões uma série de atentados que vitimaram inocentes. Aqueles “revolucionários” não eram apenas jovens idealistas querendo, generosamente, oferecer batatinha frita para os pobres e famintos. Além de receberem o financiamento e as armas de governos estrangeiros, os revolucionários estavam orientados: seguiam as instruções de uma cartilha redigida pelo companheiro de luta do nobre Frei Betto, Carlos Mariguella. Este, no seu “Manual do Guerrilheiro” revela: "No Brasil o número de ações violentas praticadas é já muito elevado. Entre estas ações estão mortes, explosões de bombas, captura de armas, de explosivos e munições, “expropriações” de bancos, ataques contra prisões, etc., atos que não podem deixar dúvidas sobre as intenções dos revolucionários" [4].
 
“As intenções” dos “revolucionários” não era derrubar a “ditadura militar”, e nem mesmo implantar um regime democrático - o propósito das organizações terroristas é revelado pelo próprio Flávio Tavares, aquele mesmo das batatinhas fritas: “Todas elas queriam o socialismo” [5].
 
Para o piedoso Frei Betto o modelo adequado de socialismo seria o de Cuba, um dos “patrocinadores” das organizações terroristas: “Para mim Cuba era o paradigma”, declara de maneira nostálgica o frade. E um dos segredos do regime implantado na ilha, ainda segundo o Frei, está em seu “Comandante” – Fidel Castro - que soube cultivar “valores muito originais” [6].
 
Ora, apenas uma cabeça profundamente perturbada poderia considerar como “valores muito originais” a perseguição de seus inimigos, a prisão política, o encarceramento de homossexuais, o assassinato de cristãos, e o fuzilamento [7]. Acontece que, valores deste tipo são cultivados inclusive pelo próprio frade guerrilheiro, que certa vez esclareceu: “Quero deixar claro que admito a pena de morte em uma única exceção: no decorrer da guerra de guerrilhas” [8]. Portanto, as medidas do regime cubano não espantariam o “camarada”, já que, por se tratar de um “governo revolucionário” – e por isso mesmo em uma revolução permanente -, é a instalação do “modus operandi”, das estratégias, táticas e dos valores morais dos seus militantes no poder político e administrativo.
 
Contudo, se em um momento de instantânea lucidez hipócrita, no qual considera o fuzilamento um “excesso”, o singelo e generoso frade dominicano tem a solução: “reinventar o Socialismo” [9]. E Frei Betto está empenhado nesta tarefa, não apenas em Cuba e no Brasil, mas na América Latina. Ele foi promovido, de “intermediário”, “contato”, e encarregado do setor de imprensa no período do regime militar, a “Intelectual” e colaborador do Foro de São Paulo, o órgão que promove o Socialismo na região [10].
 
Agora, quem ocupa o antigo posto do frade, que juntamente com o movimento estudantil, artistas, pastores de diversas confissões e religiosos, são engrenagens fundamentais para o processo revolucionário – como destaca o seu manual de estratégias? [10]. E quem atua entre os sindicalistas, jornalistas, professores, membros do corpo docente universitário, políticos, líderes comunitários e de movimentos de minorias, promotores culturais, ONGs, capitalistas aliados, etc.? Quem está comprometido com a revolução e quem colabora indiretamente com ela como um mero simpatizante ou como um “idiota útil”?
 
O grito de Rousseau é pertinente: “Sors de l’enfance, ami, réveille-toi!” [“Sai de tua infância, amigo, acorda!”] Um episódio envolvendo batatinhas fritas, um carro “último modelo”, se desdobra em movimento revolucionário internacional, em terrorismo. O presente capítulo da história apresenta a sociopatia do passado com o poder nas mãos. Com recursos incalculáveis e inúmeros mecanismos de ação disponíveis, ela ainda brada discursos de “autovitimização” – um surto psicótico, gerador de trágicos efeitos reais e concretos, cujo ápice é promover a revolução. “Imperialismo”? “Capitalismo”? “Moral burguesa”? “Socialização”! “Democratização”! – “Acorda, amigo!”, diria Rousseau.  

 
Referências.
 

[1]. BRAGA, Bruno. A autovitimização de um frade dominicano [http://dershatten.blogspot.com/2011/01/autovitimizacao-de-um-frade-dominicano.html].
 
[2] O detalhe curioso é que, antes de sair em nova edição, revista e ampliada, pela Editora Record, o livro de Flávio Tavares havia sido publicado pela editora “burguesa”, “conservadora”, “saudosista da Ditadura Militar”, etc., etc., Globo – mesmo assim, os “revolucionários” continuem esbravejando contra as organizações da família Marinho.
 
[3] Cf. a entrevista de Flávio Tavares para a Revista Brasileiros [http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/42/textos/1352/].
 
[4]. Cf. MARIGHELLA, Carlos. Manuel de Guerilla Urbaine. p. 06. [Tradução livre da versão eletrônica].
 
[5]. Cf. “Civis e a ditadura militar: a Revolução no Brasil” [http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/civis-ditadura-militar-revolucao-brasil-435432.shtml].
 
[6]. Cf. “Claudia Korol – Diálogo con Frei Betto en Cuba” [http://www.panuelosenrebeldia.com.ar/content/view/335/245/].
 
[7] Cf. CORTOUS, 1991.  


[8] Cf. BETTO, Frei. Paraíso Perdido: nos bastidores do Socialismo.
 
[9] Cf. referência 6.
 
[10]. Na principal revista da instituição, “América Livre”, Frei Betto declarou: [...] “é preciso não ceder à ingênua pretensão de fazer a revolução pelo voto”.
 
[11]. MARIGHELLA, p. 02.

Tuesday, January 03, 2012

A sobrevivência do ideal revolucionário.




 

Bruno Braga.

 
Não resta dúvida que o protesto "Occupy Wall Street" e suas ramificações são um engodo estrategicamente criado e financiado por grupos que objetivam a concentração do poder. As manifestações não são espontâneas: elas são articuladas por aliados do próprio governo americano e são abastecidas por alguns de seus inimigos capitalistas, como George Soros [1] – além disso, os protestos se valem de um falso pretexto, o da origem da crise financeira americana.

O movimento "Occupy Wall Street" conta não só com um poderoso aparato político-financeiro, mas tem um braço também no domínio virtual com um grupo de hackers chamado "Anonymous" – que se caracteriza com a máscara de Guy Fawkes, popularizada pelo filme "V for Vendetta" (2005). Recentemente os revolucionários virtuais distribuíram pela internet um curioso "guia de sobrevivência" [2], que seria útil no caso de "revoluções violentas", já que, alerta o grupo, protestos podem ser uma "confusão sangrenta" (p. 03).

O manual fornece uma séria de orientações de como estocar alimentos, água, e suprimentos médicos. Para os manifestantes estabelece artifícios de como escapar de balas de borracha, gás lacrimogêneo e balas reais – afinal, em determinado estágio da revolução, esclarece o guia, a polícia não fornecerá ajuda e, dependendo da situação, será até o inimigo (p. 04).

A divulgação deste guia de sobrevivência, no entanto, é, provavelmente, ineficaz para desacreditar definitivamente o protesto "Occupy Wall Street". Não por causa da consistência do material, que somado a outros, de inequívoca evidência, seriam mais do que suficientes para convencer o idólatra mais inocente dos pecados que o seu próprio santo de devoção admitiu cometer. Mas porque o debate público é construído com um sem número de estereótipos, adornados com "crença nos ideais" e a chancela de "Intelectuais", jornalistas, acadêmicos e "especialistas". Há uma ruptura com o mundo real e concreto para o engajamento na fantasia da eterna revolução, em um esforço mórbido para convencer que aquilo que os próprios olhos vêem é uma ilusão. Assim se instaura o mundo imaginário, elaborado por uma intelectualidade já, ela mesma, histérica: com comportamento e reações de destempero que traduzem nitidamente o que é viver mergulhado em confusas fantasias. No entanto, ela ainda alimenta e persegue o sonho que muito tem custado ao cidadão comum, o sonho de "transformar o mundo".

 
Referências.

[1]. Para os interessados em analisar alguns dados e documentos, consultem os artigos anteriores nos quais o assunto foi abordado: "O risco de freqüentar a posição de contra-exemplo é tornar-se um mau-exemplo" [http://b-braga.blogspot.com.br/2011/10/o-risco-de-frequentar-posicao-de-contra.html]; "Um Contra-exemplo e uma Controvérsia – Episódio II" [http://b-braga.blogspot.com.br/2011/11/um-contra-exemplo-e-uma-controversia_15.html]; e "Projeção de sentimentos e análise política" [http://b-braga.blogspot.com.br/2011/11/projecao-de-sentimentos-e-analise.html].

[2]. O "Anonymous Survival Guide" pode ser acessado em: http://pt.scribd.com/doc/76593171/Anonymous-Survival-Guide-for-Citizens-in-a-Revolution

Sunday, December 25, 2011

O Mistério do Filho do Homem.


Bruno Braga.

 
A vida e a morte de Jesus. O enigma do nascimento do filho de Maria e o significado da sua morte na cruz. A vida do Cristo como a misteriosa união do transcendente, do metafísico, com o temporal e corruptível – o logos, o verbo divino que se fez carne. A sua morte significativamente expressa no ato da crucificação: no pólo vertical e inferior da cruz, a alma, e o seu oposto a transcendência, a metafísica divina; no eixo horizontal, de um lado, a sociedade, do outro, o Cosmos. A vida, paixão e morte de Jesus Cristo revelam a tensão radical entre os extremos da cruz, e o filho de Deus pregado no centro do instrumento do suplício, onde todas as dimensões se fundem – Alma, Deus, Sociedade e Cosmos. A consumação de um mistério como o exemplo da vida cristã: o esforço de reconciliação do indivíduo que não é Deus, mas que, independentemente da sua miséria e corrupção, é portador do logos divino; um empenho de superação da divinização do Cosmos e da Sociedade, porque o eixo horizontal da cruz não se sustenta sem a sua estrutura vertical.

 
Cf. BRAGA, Bruno. "Pai e Filho – ou o Homem consigo mesmo" [http://b-braga.blogspot.com.br/2011/08/pai-e-filho-ou-o-homem-consigo-mesmo_14.html].

 

 

Tuesday, December 20, 2011

Revolvendo o subterrâneo.


Bruno Braga.

 
Entre as grandes obras da literatura universal está "Memórias do Subterrâneo", de Dostoievski. Conhecida pelo nome do seu ilustre autor, também foi divulgada através da cultura por sua relação com um leitor especial que alcançou a popularidade - Nietzsche. No entanto, um aspecto do pensamento do filósofo alemão que preserva a correspondência com o romance de Dostoievski é, por causa de uma sutileza, o agravamento indesejado da doença do próprio protagonista da ficção.

O "homem subterrâneo" do escritor russo é a imagem do ressentimento e da decadência descritos por Nietzsche – desde o seu abismo interior, é assim que o próprio personagem as confessa na abertura da narrativa: "Sou um homem doente... Sou mau" (2004, p. 665). E a maldade dele era não ser tão mal quanto se julgava: nas situações de domínio não possuía a força e o vigor para se afirmar (p. 666). Contudo, fixar somente a correspondência entre o subterrâneo doentio e o ressentimento nietzschiano afasta a possibilidade de reconhecer, na ficção, um elemento que afasta os dois autores: uma compreensão excepcional que arrebata o personagem quando ele se encontra com a prostituta Lisa - "Via agora claramente como é absurda e repugnante a libertinagem, que começa brutalmente, sem amor nem pudor, por aquilo que deve ser o remate verdadeiro do amor" (p. 720). Uma compreensão gravada simbolicamente após a exortação moral que tenta persuadir a jovem a deixar de ser uma "mulher da vida", no momento em que o protagonista ilumina com um candeeiro o quarto sombrio onde antes aqueles dois mal viam as faces um do outro. Esta era a "verdade odiosa" revelada ao personagem: a superioridade que um doente, uma alma fechada, sedenta por afirmação, revoltada, é incapaz de aceitar – o "horror" da compaixão (p. 733).

Mesmo depois da experiência fundante inegável, o personagem insiste em suspeitar dos seus sentimentos. Porque para ele o amor era sinônimo de tiranizar e dominar moralmente (p. 746). Abraçado à prostituta, vertendo lágrimas, o protagonista exclama: "Não me deixam... Não posso ser... bom!" Sob a sombra da dúvida e da suspeita, conseqüentemente, ele negava o sentimento que o aproximou daquela prostituta.

Na obra de Dostoievski é o próprio personagem quem narra a sua história, em um ato de confissão. Ele estava ciente da sua corrupção, da sua doença – o que as suas palavras iniciais atestam e diagnosticam - embora persista, com certo prazer e consolo no fracasso, na busca do seu ideal de virtude. O encontro com a prostituta revela-lhe a sua própria doença através da "verdade odiosa": a superioridade do sentimento, do amor e da compaixão. Ocorre a inversão dos papéis que confunde o personagem: a prostituta torna-se a heroína, e ele a criatura humilhada e ofendida (p. 745).

Mas há uma inversão ainda mais radical, a inversão nietzschiana. Ela potencializa e transforma a doença do "homem subterrâneo" em ideal de virtude quando proclama a transvaloração de todos os valores, a vontade de potência, e a necessária superação da moral e da compaixão. Uma ambição doentia, percebida assim pelo protagonista da ficção quando ele se encontra com a prostituta: não por causa da sua conduta, tão libertina quanto à da jovem, mas por revelar-lhe a superioridade de um sentimento do qual a prostituta não se envergonhava, mas ele se esforçava para negar – ele duvida e suspeita do que preenche o seu coração com toda a sinceridade. Uma suspeita semelhante à que Nietzsche lança sobre as virtudes e sentimentos mais nobres quando diagnóstica a doença cristã.

Há, contudo, uma diferença fundamental entre o personagem de Dostoievski e o filósofo alemão: o primeiro estava consciente de sua doença, enquanto o outro, em seus arroubos de auto-glorificação do "Übermensch", termina os seus dias compadecendo-se de um cavalo. De qualquer modo, o trágico ideal nietzschiano ainda era uma reivindicação individual. Hoje, porém, uma elite intelectual o preserva como fundamento de um projeto de pedagogia universal e de ação política - em completo estado de torpor patológico, eles querem "transformar o mundo", forjando, a cada estação, um "bem", uma "verdade", uma "moral".

 

(*) Nota. A referência para a obra do escritor russo é: DOSTOIEVSKI, Fiódor. Memórias do Subterrâneo. Editora Nova Aguillar: Rio de Janeiro, 2004. Coleção Obra Completa, Vol. II. p. 661.

Tuesday, November 22, 2011

Projeção de sentimentos e análise política.

Bruno Braga.


 

Em resposta enviada ao articulista Dimas Enéas [1], observei que o texto de Delfim Netto, citado por ele, apresenta mais uma expressão do sentimento do autor que propriamente uma descrição dos fatos - sobretudo no que se refere ao manifesto "Ocupe Wall Street". Em outras palavras, Delfim Netto discursa sobre "o que ele pensa que é" o protesto, "o que ele quer que seja", ou "o que ele espera ser". Uma ilustração pode ser extraída do próprio artigo do economista:

"É com esse sentido do papel do trabalho com o qual o homem se constrói e produz um mundo onde tenta se acomodar em uma estrutura social conveniente que devemos entender os protestos dos 'enragées', que se intensificam na Europa e nos EUA" [2]. (Os grifos são meus).

No trecho citado o autor apresenta um "sentido" através do qual se "deve entender" o manifesto "Ocupe Wall Street" – um imperativo. No entanto, quando os dados da realidade efetiva são rastreados [3], e, conseqüentemente, são confrontados com o discurso de Delfim Netto, e também com o de Dimas Enéas, verifica-se que as considerações deles são uma massa confusa composta por alguns dados da realidade – como a crise financeira americana e seus efeitos, por exemplo – mas apreendidos e expressos conforme seus sentimentos e expectativas.

A deficiência deste expediente não é a presença de sentimentos e expectativas – mas sim o procedimento de antepô-los a um mapeamento da realidade efetiva. Não é possível formular um discurso analítico, científico, sem delimitar o plano de exame e rastrear nele os dados objetivos. Exceto quando se pretende estimular condutas; auto-justificar as próprias idéias, concepções e comportamento; ou ainda inocular no leitor a imagem à qual ele pretende estar associado no contexto do fato descrito – elementos que compõem o discurso do "agente político". Embora assinem os textos como analistas – Delfim Netto como economista, e Dimas Enéas como analista político -, e por isso mesmo estão automaticamente comprometidos com a descrição do fato, os articulistas substituem os dados objetivos referentes a este fato (o protesto "Ocupe Wall Street") e projetam nele os seus sentimentos, as suas expectativas, e até mesmo as suas ideologias, para explicá-lo: julgando-se analistas, escrevem como "agentes políticos".


 

Referências.

[1] http://dershatten.blogspot.com/2011/11/um-contra-exemplo-e-uma-controversia_15.html

[2] Idem.

[3] Isto é, quando se verifica os articuladores e estrategistas do protesto, o perfil dos manifestantes, os financiadores do movimento e aqueles que o apóiam na esfera política e cultural. Alguns destes dados podem ser consultados em: "O risco de freqüentar a posição de contra-exemplo é tornar-se um mau-exemplo" [http://dershatten.blogspot.com/2011/10/o-risco-de-frequentar-posicao-de-contra.html]; "Um Contra-exemplo e uma Controvérsia – Episódio II" [http://dershatten.blogspot.com/2011/11/um-contra-exemplo-e-uma-controversia_15.html].

Friday, November 18, 2011

Um Contra-exemplo e uma Controvérsia.

Episódio III.

Bruno Braga.


 

Como o interlocutor não mais se manifestou, a controvérsia envolvendo o artigo de Dimas Enéas – "Ocupe Wall Street" – transforma-se em uma Trilogia, da qual este é o último episódio.

O formato é o mesmo dos episódios anteriores.


 

I. Dimas Enéas Soares Ferreira, 04 de Novembro de 2011.

Meu caro Bruno,

ao contrário dos adjetivos a mim direcionados no início e ao longo de toda a sua argumentação, baseada numa "suposta" expertise acadêmica e metodológica, não vou aqui ficar tentando desconstruir suas justificações. Apenas quero lhe dizer que assim como respeito seu ponto de vista, espero que entenda que tenho os meus e não serão seus contra-argumentos que me farão mudar de ideia, ainda que você acredite piamente ser o detentor da verdade dos fatos e da suprema capacidade intelectual de analisá-los da forma como acha que devem ser.

Se queres um bom combate, terás o bom combate, mas não dentro dos parâmetros que pensas ser o ideal. Idealizas um tipo ideal de discussão em torno de ideias, partindo do pressuposto de que se sou militante partidário, sindicalista ou ativista social, isso por si só já desqualifica minhas posições, ideias e referências.
Da mesma forma que se tenho um título de mestre e busco arduamente conseguir o de doutor, isso também me obriga a discutir ideias (e tão somente ideias) baseando-me em referências bibliográficas. Poderia até usá-las, pois não me faltam, mas não vou sacrificar meu precioso tempo de trabalho, pesquisa, militância e ativismo buscando mil referências para lhe convencer. Até porque não é este meu objetivo e ideias são apenas ideias.
Já, V.Sa. usa muitas referências como Veja e Folha de São Paulo, por exemplo, o que considero referências desqualificadas já que trata-se de veículos da grande mídia burguesa que nós da esquerda abominamos e temos denominado de PIG. Poderia me contrapor às suas posições e argumentos usando também fontes que considero mais fidedignas como Princípios, Carta Capital, Le Monde Diplomatiqué Brasil, caros Amigos, Piauí ou pensadores políticos da velha e nova esquerda, mas com certeza não me apoiaria em Folha de São Paulo, O Estado de Minas ou Veja. É uma questão de consciência política, coisa que se constrói ao longo de anos e que se consolida feito rocha. Estou aberto a novas ideias, mas não as que venham da direita, que sejam conservadoras, que estejam calcadas em princípios liberais ou neoliberais. 

A suposta "boa" investigação dos fatos que você afirma fazer está contaminada pelo libelo liberal e, pior, pelo ultrapassado e derrotado libelo neoliberal. Me chamar de "infantil", "revolucionário juvenil" ou dizer que o que escrevo não passa de "arroto verbal" não me causa nenhum desconforto, apenas confirmo a tese de Nelson Rodrigues de que "toda unânimidade é burra." Suas posições ficam claras em tudo que escreve, não só quando se refere aos meus artigos, mas quando se refere aos artigos de outros aqui no barbacenaonline.

Enfim, estou sendo o mais sincero possível com V.Sa. e me desculpe se minha militância, ativismo, profissão, idade e títulos lhe incomodam tanto. Não foi esse meu objetivo. Apenas uso um procedimento natural do meio acadêmico e nada mais.

Atenciosamente.

Dimas Enéas Soares Ferreira
Doutorando em Ciência Política – UFMG
Mestre em Ciências Sociais – PUCMinas
Especialista em História do Brasil – PUCMinas
Revisor do eJournal of eDemocracy and Open Government
Professor - Epcar e Unipac
Diretor e 1o Tesoureiro - Sinpro Minas
Coordenador de Comunicação - Inst. 1o de Maio

Currículo Lattes:
(https://wwws.cnpq.br/curriculoweb/pkg_menu.menu?f_cod=97FE97B98AB49150D9F90187ED1A6DFC).


 

II. Bruno Braga, 08 de Novembro de 2011.

Dimas Enéas, Dimas Enéas...

Não vejo desrespeito algum na minha última mensagem, onde apenas reproduzi as atividades que você mesmo, expressamente, afirmou desempenhar. E quanto aos adjetivos que utilizei para qualificá-lo, eles podem ser facilmente reconhecidos no seu próprio comportamento: embora pareça muito estranho para uma pessoa de 47 anos, só mesmo um "revolucionário juvenil", "infantil", denunciaria "patricinhas e mauricinhos" em um artigo de análise política.

Não "desqualifico" sumariamente suas "posições, idéias e referências", Dimas, porque você é militante partidário, sindicalista ou ativista social. Ainda que tivesse realizado uma leitura desatenta e despretensiosa do meu e-mail, julgo que você seria capaz de identificar o trecho no qual afirmo, categoricamente, que o exercício de papéis sociais não é critério para aferir os fundamentos de uma argumentação – por isso, não o "desqualifico" por causa das suas atividades. A "desqualificação" das suas teses, nobre articulista, advém dos dados objetivos apresentados: bibliografia, artigos, vídeos, documentos.

Agora, não acredito ser o "detentor da verdade dos fatos e da suprema capacidade intelectual", como você pretende me desenhar. Pelo contrário, apresente algo que desminta a minha narrativa, e os fundamentos dela, que me apressarei, modesta e humildemente, a assumir o equívoco. Não tenho compromisso com ideologia, nem filiação partidária. Não pertenço a "lado" nenhum e por isso não sinto constrangimento por adotar a divisa de Pascal: "não me envergonho de mudar de opinião porque não me envergonho de pensar".

Aguardei da sua parte, Dimas, alguma contraposição esclarecedora – ou o "bom combate" que anunciara – mas, a maior expressão de sua luminosa sabedoria foram alguns brados: "Não tenho tempo a perder! Estou ocupado!" Realmente, Dimas, você não tem dever nenhum de prestar a mim, individualmente, qualquer esclarecimento – não precisa perder o seu tempo comigo: mas invista-o em explicações públicas, porque, como articulista de um portal de notícias, você tem a obrigação e responsabilidade de esclarecer uma séria e grave omissão, o massacre de cristãos no artigo em que celebra a "Primavera árabe".

Sua militância, nobre articulista – seu ativismo, profissão, idade e títulos - não me causam qualquer constrangimento, como pensa. Porém, previamente tomá-los – junto com a sua ideologia – como instrumento suficiente para a descrição objetiva dos fatos é, no mínimo, problemático. Porque as suas análises pressupõem um óculos que configura o seu olhar conforme os propósitos de sua militância política – isto é, a disputa pelo poder. Não sou capaz de determinar, meticulosamente, a dose de inocência, ignorância, negligência nas pesquisas, má-fé, ou até de patologia, em artigos que, conseqüentemente, são instrumentos da sua "luta" - somente você poderá identificá-los, para si mesmo, em um sincero exame de consciência. De qualquer maneira, as suas exposições mesmas denunciam os obstáculos advindos da insistência neste expediente – porque, em vez de analisar os fatos objetivos, você fecha os olhos, esgoela um sem número de estereótipos e, quando contestado, desesperadamente esbraveja: "Não! Você não vai me convencer! Eu não vou mudar de idéia!"

Acalme-se, Dimas. Eu não pretendo convencer-lhe de nada. Apenas analisei suas teses e identifiquei nelas equívocos graves. Porém, se você, sem nenhuma justificativa, prefere persistir no erro e na falsificação, não posso lhe constranger, já que não tenho nenhum propósito doutrinal ou político. Acontece, Dimas, que você tem estes propósitos; e, por isso mesmo, as suas idéias não são "apenas idéias" como diz. Nelas você deposita algumas expectativas sutis: que gerem efeitos práticos e, com isso, favoreçam a sua luta, e a dos seus, para a conquista do poder. Com este objetivo, o que você considera simples "idéias", Dimas, foi o fundamento de brutalidades terríveis e de uma carnificina jamais vista na história humana – sobretudo empunhando as suas bandeiras "revolucionárias".

Forneço-lhe uma amostra, nobre articulista, de como a sua metodologia – ou melhor, ideologia – pode distorcer e falsificar "simples idéias", o colocando em situações embaraçosas e comprometendo uma análise aberta e sincera dos fatos.

Na sua última mensagem, Dimas, você reprova sumariamente algumas das minhas referências – Folha de São Paulo, Estado de Minas e Revista Veja – porque as considera parte da "grande mídia burguesa". Para você, e para os seus da esquerda, os veículos de imprensa citados são "PIG": uma sigla que, para além de uma referência depreciativa ao "porco", rotula a "imprensa golpista". Depois da denúncia, Dimas, você providencialmente aponta as fontes que julga serem mais "fidedignas" - entre outras, cita a "Revista Piauí".

Acontece, caro militante e revolucionário, que a "Revista Piauí" foi idealizada por João Moreira Salles, o cineasta brasileiro que é filho do falecido empresário e banqueiro – isto mesmo, BANQUEIRO, Dimas – Walter Moreira Sales. Vale ressaltar que a família perpetua as atividades do patriarca. Ademais, a "Piauí" realiza-se através de uma parceria com o Grupo Abril, o mesmo responsável pela Revista Veja que você diz abominar, Dimas – há, inclusive, participação de ex-diretores da própria Veja na direção da "Piauí" [1].

Pois bem. Se aplicarmos os seus critérios metodológicos, ou melhor, "ideológicos", Dimas, à Revista Piauí, ela também faria parte da "grande mídia burguesa" – já que foi concebida por um multimilionário, capitalista, BANQUEIRO, e conta com a colaboração do Grupo Abril, o responsável pela Revista Veja, órgão da "grande mídia burguesa". A Revista Piauí também seria "PIG", Dimas, não? Ou será que você a absolveria desta horrenda acusação simplesmente porque ela defende os seus ideais, os mesmos do seu grupo, ou de seu "Partido"?

Ainda sobre as suas referências, gostaria apenas de fazer-lhe uma advertência - para evitar que você cometa um deslize ainda mais grave que o mencionado anteriormente. A "Princípios" mantém uma parceria com o "Portal Vermelho". Tanto a revista quanto o portal estão ligados ao PC do B. Todos eles fazem apologia de genocidas. Portanto, se você endossa estas idéias, teses, concepções, e políticas, devo-lhe dizer que isto o coloca como cúmplice de milhões de mortes.

Agora, propriamente sobre as minhas fontes, a sua condenação sumária delas o impediu de analisá-las – com esta precipitação, Dimas, você não pôde constatar que uma é a tradução de um artigo do "New York Times" sobre o protesto "Ocupe Wall Street" [2]. Este detalhe é pertinente porque o "New York Times" é um órgão da mídia "esquerdista" americana [3] – e, por isso, está perfeitamente articulado com todas as suas teses e projetos, nobre articulista. Por um descuido, Dimas, você acabou sentenciando um organismo "aliado" e "colaborador".

Enfim, estes são alguns inconvenientes que seu "expediente ideológico" pode lhe trazer, Dimas – sobretudo quando assina artigos como "analista político". A análise séria dos fatos pressupõe, nobre articulista, o exame objetivo dos dados, isto é, "o que" os veículos de imprensa afirmam. Portanto, conteste "o que" as fontes que levantei dizem – o "conteúdo" das reportagens, os dados e informações, sem desprezá-las previamente. Porém, para isso, é necessário que você seja realmente "sincero" – não reafirmando as suas crenças e boas intenções – mas se propondo a descrever as coisas como elas de fato são, mesmo que a verdade seja cruel e brutal, e desminta o seu grupo, o seu "Partido". Mas, como é possível sinceridade em uma pessoa que diz estar "aberto a novas idéias", mas simultaneamente impõe a condição de que elas não venham da "direita", que não sejam "conservadoras", que não estejam calcadas em "princípios liberais" ou "neoliberais"? Não, Dimas, você não está aberto. Você está fechado e o confessa: está preso à sua "consciência política", sólida "feito rocha" - são as suas próprias palavras. Se você já percebeu que há um mundo real e concreto para além dos seus estereótipos, mas insiste em sua metodologia ideológica, resta-lhe apenas a "desonestidade" ou a patologia.

Estas causas devem justificar a sua "hiper-sensibilidade" – que depois de relacionar-me ao "nazismo", à "extrema direita", ao "fascismo", à "ditadura militar" e dizer que meus comentários são "ridículos" – disfarça o escândalo com uma simples figura de linguagem, "um arroto verbal". Além de atingir a sua "consciência moral" e o impedir de julgar os próprios atos, Dimas, há algo que provoca em você uma estranha confusão mental - pois, mesmo discursando em nome do "povo", isto é, da maioria, e dizer que minhas teses estão "ultrapassadas", que foram "derrotadas", você se vale do dito de Nelson Rodrigues para dizer que elas são "unanimidade".

Sobre o portal "Barbacena Online", apenas reitero o meu modesto pedido de esclarecimento: o que você, Dimas, que escreve sobre a "democratização da imprensa" e se escandaliza com os "filtros" da internet, pensa respeito do expediente do Conselho Editorial do "Barbacena Online" – que analisa previamente os comentários sobre os artigos publicados no portal, mas posta apenas aqueles que são "aprovados"? [4]

Cordialmente,

Bruno Braga.

Belo Horizonte, 08 de Novembro de 2011.


 

Referências.

[1] http://www.dinap.com.br/site/noticias/conteudo_171042.shtml

[2] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/996800-apoio-de-artistas-desafina-o-tom-do-ocupe-wall-street.shtml

[3] Cf. A sátira de Andrew Klavan sobre a política esquerdista do "New York Times" [http://www.youtube.com/watch?v=9y8tzEmhm1o&feature=player_embedded] e, para mais detalhes, o "Times Watch – Documenting and Exposing the Liberal Political Agenda of 'The New York Times'" [http://www.mrc.org/timeswatch/].

[4] Cf. BRAGA, Bruno. "Contra os 'filtros da internet': um filtro" [http://dershatten.blogspot.com/2011/09/contra-os-filtros-da-internet-um-filtro.html].

Tuesday, November 15, 2011

Um Contra-exemplo e uma Controvérsia.

Episódio II.

Bruno Braga.


 

Este é o segundo episódio da controvérsia envolvendo o texto no qual examino algumas teses de um artigo de Dimas E. Soares Ferreira, "Ocupemos Wall Street".

O formato é o mesmo que foi adotado para a apresentação do primeiro: as considerações de Dimas Enéas (I), e em seguida a minha resposta (II).

A saga continua com pelo menos mais um episódio, o terceiro.


 

I. Dimas Enéas Soares Ferreira, 30 de Outubro de 2011.

Sr Bruno Braga,

Como é fácil verificar, o seu blog não é muito visitado (zero comentários e 121 consultas ao seu perfil desde 2006). Talvez porque ninguém está a fim de perder tempo com sua ladainha conservadora e liberal e, as vezes, até fascista mesmo.

Na verdade, eu não pretendia responde-lo novamente, mas diante de sua afirmação no último e-mail a mim enviado
"De qualquer maneira, não vou insistir nesta questão, porque o seu diagnóstico é um argumentum ad hominem – quer dizer, um ataque dos traços do caráter da pessoa, e não uma contestação dos argumentos expostos por ela. Este é um artifício retórico para evitar a discussão objetiva. Bom, os meus textos contêm uma série de referências, bibliografia, artigos, vídeos, documentos, estruturados em uma descrição dos fatos que desmente as suas concepções. Conteste-a, é assim que se procede em uma discussão séria. Porém, em vez de apresentar outras referências, apontar erros e equívocos na minha dissertação, você, Dimas, como um psicoterapeuta revolucionário, diagnostica: "é coisa de doente"
– ou, como um militante inveterado e furioso, brada: "é ridículo!"", achei por bem lhe en viar um texto escrito por alguém que talvez também considere ser um "psicoterapeuta revolucionário" e "militante inveterado e furioso" que também "brada":

Certamente não é (ainda) o fim do capitalismo a ser anunciado por esse formidável movimento de indignação diante do sofrimento imposto pela falta de controles do sistema financeiro nos Estados Unidos e na Europa. A natureza dessas manifestações talvez possa ser condensada em duas queixas entoadas, respectivamente, em Lisboa: "Essa dívida não é nossa", e em Nova York: "Nós fomos vendidos, os bancos foram resgatados". O grito "Ocupem Wall Street", antes de ser um protesto contra a economia de mercado, exprime o profundo sentimento de injustiça social derivado da incapacidade dos governos que permitiram a destruição do emprego e do patrimônio de milhões de honestos cidadãos assaltados, de forma imoral, por um sistema financeiro desinibido com suas inovações. São os trabalhadores desempregados as grandes vítimas do contágio desse mal social. O homem, ao construir o mundo com o seu trabalho, exerce uma press ão seletiva no sentido de aumentar a sua liberdade de expressão. Há uma evolução civilizatória e quase biológica que amplia o altruísmo e a solidariedade social, exatamente porque a cooperação é mais produtiva e libera mais tempo para a expressão criativa do homem. Uma das construções mais impressionantes de Marx é a sua leitura do papel do trabalho nos Manuscritos de 1844, antes de ele ter sido seduzido pela leitura de David Ricardo. O trabalho é o processo pelo qual o homem se produz e projeta fora dele as condições de sua existência e a sua capacidade de transformar o mundo. Com as políticas sociais, o Estado do Bem-Estar Social transformou (transitoriamente!) o sistema salarial alienante de Marx no símbolo da segurança do trabalho. Ele dá a garantia para o funcionamento das instituições, particularmente os mercados e a propriedade privada. Os economistas precisam incorporar, como dizia o etnólogo Marcel Mauss (Sociologie et Anthropologie, 1950), que o trabalho é o "fato global". O desemprego involuntário é o impedimento insuperável do cidadão de se incorporar à sociedade. Por motivos que independem de sua vontade, ele não pode sustentar honestamente a si e à sua família. O desemprego involuntário é o "mal social global"! Não importam filosofia ou ideologia. No estágio evolutivo da organização social que o homem continua procurando, para fazer florescer plenamente a sua humanidade, são a natureza e a qualidade do seu trabalho que o colocam na sua posição social e econômica, afetam sua situação física e emocional e determinam o nível do seu bem-estar. É com esse sentido do papel do trabalho, com o qual o homem se constrói e produz um mundo onde tenta se acomodar em uma estrutura social conveniente que devemos entender os protestos dos enragées, que se intensificam na Europa e nos EUA. Não se trata de excluídos sociais (talvez alguns deles o sejam), mas de cidadãos honestos, educad os, que até há bem pouco tempo tinham a oportunidade de ganhar o sustento de sua família, educar seus filhos, comprar sua casa, enfim, viver a vida dignamente com o fruto de seu trabalho. É verdade que nos EUA alguns deles já estão na terceira geração vivendo à custa dos outros, graças à miopia e inércia de um Estado do Bem-Estar distraído. Mas a renda média do americano não cresce desde 1996 e a distribuição de renda tem piorado sistematicamente. A reação do povo será medida nas eleições de novembro de 2012. O desconforto é enorme. O presidente Obama referiu-se a ele ligeira e quase temerosamente. O secretário do Tesouro, Timothy Geithner, empurrou a culpa para o sistema financeiro, que "aumentou as tarifas bancárias em resposta aos novos controles de Wall Street, ampliando a irritação popular contra ele". E o presidente do FED, Bernanke, com aquela figura de Papai Noel arrependido, limitou-se a afirmar que "as pessoas estão descontentes co m o estado da economia. Elas reprovam – e não sem razão – o setor financeiro pela situação em que nos encontramos e estão descontentes com a resposta das autoridades". Que autoridades? Obama, Geithner e Bernanke! Quando se trata de entender o verdadeiro papel do trabalho, os economistas do mainstream saem muito mal na foto: tratam-no apenas como um fator de produção, sujeito às leis da oferta e da procura. Por definição, não há desemprego involuntário. Como disse um economista que viria a ser premiado com o Nobel, o desemprego em massa é apenas uma manifestação de "vagabundagem da classe trabalhadora". Nesse tom, comovido, o velho Karl agradece o incentivo…

Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal. (http://www.cartacapital.com.br/internacional/mal-social-globalizado)

Será que o Sr Delfim também é um equivocado intelectualmente, pois me parece que suas ideias convergem em boa medida com o que escrevi. Com certeza você também tentará desqualificá-lo (mas não o acuse de ter sido ministro dos governos militares, pois você defende ardorosamente a Ditudura Militar).

Por fim, meu caro, do alto dos meus 47 anos de vida, depois de 21 anos em sala de aula, de uma graduação, uma especialização, um mestrado e quase um doutorado e uma intensa vida acadêmica no campo das ciências sociais e política, sinto-me feliz de ainda ter a chama revolucionária e socialista dentro de mim. Sinal de que não sucumbi ao sistema, nem tampouco me acomodei diante da realidade. Triste me sentiria se acreditasse em suas "ideias."

Sou feliz na minha militância sindical, partidária, social e acadêmica e tenho tido muito mais recompensas com isso do que ataques como os seus. De toda forma, estás no seu direito de "Jus esperniandis."

Att,

Dimas Enéas Soares Ferreira

Doutorando em Ciência Política – UFMG

Mestre em Ciências Sociais – PUCMinas

Especialista em História do Brasil – PUCMinas

Revisor do eJournal of eDemocracy and Open Government

Professor - Epcar e Unipac

Diretor e 1o Tesoureiro - Sinpro Minas

Coordenador de Comunicação - Inst. 1o de Maio

Currículo Lattes: (https://wwws.cnpq.br/curriculoweb/pkg_menu.menu?f_cod=97FE97B98AB49150D9F90187ED1A6DFC).


 

II. Bruno Braga, 04 de Novembro de 2011.

Caro Sr. Professor, Especialista, Mestre, Doutorando, Sindicalista, Militante e Revolucionário Socialista, Dimas Enéas,

Antes de qualquer consideração, eu humildemente o agradeço pelo gesto de generosidade: descer do alto de sua luminosa e celestial sabedoria para responder o meu modesto e-mail. Espero que não tome a singela contestação que passo a apresentar como uma afronta à sua sapiência, a todos os seus títulos e ao seu nobre currículo – pois falo apenas em meu próprio nome.

Meu blog, você tem razão, Dimas, não recebe muitas visitas. Porém, o critério da "publicidade" não tem qualquer relevância para quem objetiva, única e exclusivamente, a investigação dos fatos e a descrição adequada deles. Estabelecer o número de adeptos como mecanismo de aferição do fundamento de teses e idéias é um procedimento adotado pelo garotão que quer, a todo custo, fazer sucesso com as mocinhas do colégio – pelo feirante que grita no meio da multidão a propaganda das suas frutas e verduras, ou o do militante que pretende arrebanhar sectários para a sua causa, membros para o seu grupo, ou correligionários para o seu "Partido". Como não tenho nenhuma destas pretensões, minha opção é pelo conhecimento objetivo – com toda a sua experiência acadêmica, Dimas Enéas, você tem obrigação de saber que este é um dos pressupostos de metodologia científica.

Recorrer ao critério da "publicidade" não é o único equívoco da sua argumentação. Você utiliza um sem número de estereótipos – por exemplo, "conservador", "liberal", "fascista", "saudosista da ditadura militar" – para estabelecer uma série de rotulações que não têm qualquer correspondência nos meus textos e comentários. Se você tem o objetivo de discutir seriamente o assunto, seria interessante apontar a associação entre as minhas considerações e os seus estereótipos. Caso contrário, as suas rotulações são, além de um brado de "militante inveterado e furioso", um "flatus vocis" - uma bolha de sabão que estoura no ar, ou, simplesmente, um "arroto verbal".

Com o andar cambaleante, Dimas Enéas, você acaba tropeçando novamente: utiliza de forma pura o argumento de autoridade. Chama Delfim Netto em seu socorro - pretende valer-se do currículo de um economista, formado na USP, professor de economia, ex-ministro de Estado, Deputado Federal, como amparo e muleta. Acontece que, se o seu propósito é descrever adequadamente os fatos, então é necessário que você fundamente as suas considerações em dados objetivos - não em diplomas, títulos, e exercício de papéis sociais. Porque este é um tipo de comportamento infantil, como o de uma criança mimada que briga com seus amiguinhos e, teimosa, berra aos prantos: "meu papai disse, então tá certo!". Não pode ser este o procedimento daquele que assina um artigo sério de análise política – bom, a não ser que o seu autor seja um revolucionário juvenil inimigo de "patricinhas e mauricinhos".

Embora você tenha se esforçado para expressar todo o seu poder profético, Dimas, não considero o Delfim Netto um "equivocado intelectualmente" (a expressão é sua) porque ele foi Ministro dos Governos Militares. Desqualificá-lo assim, previamente, seria tão equivocado quanto desqualificar você mesmo, Dimas Enéas, por ser professor da EPCAR (Escola Preparatória de Cadetes do Ar) – seria uma argumentação desonesta com você e com os próprios militares, embora você se valha dela para bradar os seus estereótipos: "Conservador! Liberal! Fascista! Defensor da Ditadura Militar!" Não, não – para a sua decepção, nobre articulista, púbere e oracular Dimas, esta não é a minha conduta. É preciso investigar seriamente os fatos. Tendo este propósito, e considerando o objeto da discussão – o protesto "Ocupe Wall Street" – digo o seguinte.

No meu artigo "O risco de freqüentar a posição de contra-exemplo é tornar-se um mau-exemplo", §3 [Cf. http://dershatten.blogspot.com/2011/10/o-risco-de-frequentar-posicao-de-contra.html], indiquei a origem da crise americana. Embora algumas instituições financeiras não estejam isentas de culpa, ela foi desencadeada, sobretudo, por medidas administrativas, como as referentes aos créditos "subprime" do "liberal" – nos Estados Unidos, "esquerdista" – Bill Clinton. Além disso, apontei, na voz do seu próprio autor, o articulador do manifesto "Ocupe Wall Street", que é um aliado do presidente americano Barack Obama. Este, por sua vez, executava a parte pública do que lhe cabia: discursar contra os "ricos" e "abastados". Fecha-se, então, uma estratégia articulada: a "pressão de cima" – a dos ocupantes do poder – e a "pressão de baixo" – movimentos sociais e sindicais. Estratégia reforçada por "capitalistas aliados" do presidente Obama, como George Soros.

Dito isto, Dimas Enéas, é necessário pontuar. O manifesto "Ocupe Wall Street" é baseado em uma falsa justificativa – o da origem da crise. O protesto não é um movimento popular espontâneo: é estrategicamente articulado por instâncias do poder e elementos do próprio capital financeiro. Ademais, a maioria dos manifestantes está empregada [1] e as estrelas da mídia que os apóiam são, ou multimilionárias, ou garotas-propaganda dos próprios capitalistas [2] – não se esqueça do suporte de vigaristas como Michael Moore. Portanto, caro Dimas, o protesto "Ocupe Wall Street" é um teatro meticulosamente armado e patrocinado por uma minoria que objetiva a concentração de poder, que se justifica com falsos pretextos, e astuciosamente discursa como se representasse os americanos que sofrem, de fato, as conseqüências da crise financeira [3].

Nestes termos, Dimas Enéas, o trecho do artigo de Delfim Netto, citado por você, se cotejado com os dados objetivos apresentados, contem muitos pontos (sobretudo os que se referem ao protesto "Ocupe Wall Street") que são mais a expressão do sentimento do autor - isto é, "o que ele pensa que é", "o que ele quer que seja", ou "o que ele espera ser" - que propriamente uma descrição adequada dos fatos. Algo semelhante ao que você faz, ao afirmar a sua "felicidade" na "militância sindical, partidária, social e acadêmica". Porém, a atividade do conhecimento não tem como horizonte o reconforto - não é a busca por consolação, mas sim a busca da verdade, isto é, a descrição das coisas como elas de fato são, por mais cruel e brutal que seja a realidade que se apresenta diante dos olhos. Isto não se faz com títulos e diplomas, ou pelo exercício de um papel social. Não é uma conseqüência do tempo – nem mesmo dos seus 47 anos de vida e 21 anos em sala de aula: fosse assim, a idade e a experiência teriam convertido genocidas que avançaram no tempo, como Stálin, Pol Pot e Mao Tsé-tung.

Caro Dimas, o conhecimento sério e honesto depende de algo muito simples, mas que demanda esforço: a sinceridade.

Cordialmente,

Bruno Braga.

Barbacena, 04 de Novembro de 2011.


 

Referências.

[1] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/998138-maioria-dos-que-ocupam-wall-street-tem-emprego-diz-pesquisa.shtml

[2] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/996800-apoio-de-artistas-desafina-o-tom-do-ocupe-wall-street.shtml

[3] Uma falsificação semelhante às promovidas por Marx, citado por Delfim Netto com entusiasmo. Cf. BRAGA, Bruno. "Entre o Mestre e o 'Intelectual´" [http://dershatten.blogspot.com/2011/06/entre-o-mestre-e-o-intelectual.html].