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Sunday, October 21, 2012

A corrupção da consciência.

Bruno Braga.



No artigo “Não é ‘política pura’” [1] observei que o exame da política deve pressupor o seu correlato necessário: a pessoa real – de carne e osso – que integra as relações de poder. Ao considerar as teses de Leonardo Boff e de sua Teologia da Libertação, dei destaque ao elemento político [2]; agora chamo a atenção para o correlato subjetivo da proposta – na figura da “consciência” - para indicar uma das fraudes promovidas pelo teólogo militante.

No livro “Igreja: Carisma e Poder” Leonardo Boff considera que é necessário, para estabelecer uma “práxis nova” e “libertadora”, estabelecer, no “nível de compreensão do povo”, uma “análise científica da realidade”. Porém, adverte ele:

“Científico” neste caso não significa utilizar termos técnicos e realizar exaustivas investigações, senão conhecer o que há por trás dos fenômenos (BOFF, 1992, p. 215) [3].

Para o teólogo, “científico” é substituir os dados apreendidos da realidade efetiva e da investigação dela para revelar à comunidade os mecanismos ocultos que orientam a sociedade – entre eles o da “luta de classes” – de forma a torná-la “crítica”: este é o processo de “conscientização” das pessoas.

O expediente adotado por Boff já é, por si mesmo, uma fraude, pois é o esforço para implantar nos olhos das pessoas os óculos que formatam previamente a visão que elas têm do mundo e da sociedade – assim, os estereótipos e esquemas prontos tomam o lugar do exame e da investigação da realidade. Porém, o expediente é ainda mais perverso quando o teólogo se compromete a inoculá-lo dentro da Igreja Católica – e contra ela - para converter o olhar dos seus fiéis. Uma passagem da Bíblia traduz bem esta perversão.

João Batista toma conhecimento dos feitos de Jesus. Mas, estando encarcerado, precisa enviar dois discípulos para interrogar o filho de Maria, para questioná-lo se seria ele de fato aquele que havia de vir ou se era preciso esperar por outro – ao que Jesus respondeu:

Ide contar a João o que ouvistes, e vistes. Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos limpam-se, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres anuncia-se-lhes o Evangelho (Mt. 11, 2-5).

Em contraste com a proposta de Boff – de gênese Marxista -, não há, aqui, nenhum propósito de substituir a realidade: apenas “ouça” e “veja” – e no interior da consciência a liberdade para acreditar ou não.

Por esta – e outras questões - a intervenção da Igreja Católica nas atividades de Leonardo Boff, submetido então à disciplina do Magistério, está justificada. A reação histérica do teólogo e dos seus sectários é compreensível, porque uma teologia “da libertação” já pressupõe um “opressor”, que é, automaticamente, qualquer um que se oponha a ela – mesmo sendo a Igreja para preservar a sua herança da perversão -, por isso, pouco importa se a oposição é justa ou legítima, o discurso será sempre o da vitimização. Comportamento coerente dos que entre eles renunciaram os olhos, a razão e a consciência, e dos que estrategicamente investem contra uma das resistências ao seu ambicioso projeto de poder.

Leonardo Boff deixou a Igreja Católica por iniciativa própria. No entanto, ele não era o único pastor da teologia revolucionária, que permanece viva no interior dela, para corrompê-la desde dentro, em um esforço contínuo para “conscientizar” e converter o olhar dos seus fiéis, instaurando o culto da inversão.    

  

Referências.

[1]. Cf. BRAGA, Bruno. "Não é 'política pura'" [http://b-braga.blogspot.com.br/2012/07/nao-e-politica-pura.html].


[3]. BOFF, Leonardo. “Iglesia: Carisma y Poder”. Editorial Sal Terrae: Santander, 1992.


Leituras sugeridas.


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